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...o futebol se concretizasse como religião nacional? |
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| André Leite |
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Driblou, bateu e... amém! Dóing! Dóing! Dóing! O sino bate indicando que a cerimônia religiosa vai ter início. - Sejam todos muito bem-vindos à Casa de Meditação Mário Filho. Vamos chamar a Santa Autoridade para dar início a nossa cerimônia. E a Santa Autoridade vem andando em direção ao foco principal do evento. De preto, com passos lentos, porém firmes, ele retém todos os olhares dos fiéis. Afinal, tem em suas mãos o objeto que move a fé de todos. Alguns segundos de silêncio... Começa. - Priiiiiiiiiii! - Carlinhos dá início à partida e manda a bola para Ricardo na lateral direita. Ele avança, dribla o meia Edílson, avança mais um pouco e enfia para Arouca. Arouca pedala, dá um elástico no zagueiro, fica de cara para o goleiro e... Gooooool! Golaço! - Amém! - Aleluia! - Que benção de gol! E logo no comecinho! A torcida não apenas vibra. Bendiz. Dá graças a Deus por mais esta benção concedida. Um belo passe. Um belo drible. Um belo gol. Mas a torcida do time que perde por instantes não crê na situação difícil que passa. - Ó, Senhor, por quê? O que eu fiz de errado? Só tenho ajudado os pobres ultimamente e não tenho batido em minha mulher. Por quê? - Não se preocupe, irmão. Esta é apenas uma tribulação passageira. Ainda vamos ser abençoados e vamos nos vingar de nosso inimigo. Creia. A fé da torcida que reclama e chora gera orações, promessas e uma união entre os irmãos que pode a muitos comover. Um sujeitinho pequeno no meio do povo incentiva que todos da torcida cantem um hino de adoração para que a benção chegue mais depressa. - Salve o Corinthians! O campeão dos campeões. Eternamente, dentro dos nossos corações. A voz embargada de alguns é o símbolo da angústia espiritual e física que a grande maioria sente. Mãos juntas, joelhos dobrados e uma oração fervorosa. Gol! - Julinho empata para o Timão, após um belo toque de Polvinho! Um cruzamento desses é o que se pode chamar de benção vinda do céu. É o poder da oração, minha gente. Veja a torcida corintiana entoando seu hino. - Todo poderoso Timão! U-u-u! Todo poderoso Timão! O time que deixou o empate acontecer se mantém perseverante. O técnico grita à beira do campo: - Joooooooorge! Eu recebi uma visão agora, rapaz. E nesta visão você ia driblando todos pelo meio do campo e fazia o gol. Então, confia na revelação do céu e vai-te embora. Foi-se embora, perdeu a bola na primeira tentativa de fazer o drible e prejudicou o time. Virada do Timão. - Aleluia, aleluia, ale-ê-lui-á! - Ô “bênça”! Eu falei que rezar e cantar ia fazer o time virar, mano. Ou melhor, irmão. - Esse negócio de fé é poderoso mesmo, hein? Fim do primeiro tempo na Casa de Meditação Mário Filho. - Queridos, irmãos crentes do futebol. Neste momento, os diáconos vão passar as salvas. Deposite seu dízimo pelas bênçãos deste mês e ajude sua equipe a ser tão abençoada quanto você. Se você também sente em seu coração que uma oferta de gratidão pode trazer uma vitória presente ou futura para o seu time, também faça esta doação de amor. Eram mais de 10 mil diáconos. Se espremendo entre as cadeiras, eles puderam sentir o fervor da torcida. - Vou botar “cenzinho” aí pra ver se este time acorda. Tomar uma virada assim não dá. Isso é maldição. - Pode crer. Ou melhor, não dá pra crer. Como uma virada assim? Será que é por que as ofertas dos gambás foram maiores no último jogo e por isso eles estão se dando bem agora? Por via das dúvidas, vou colocar “cinquentinha” aí. As ofertas aumentaram consideravelmente ante a virada inesperada no placar. - Irmão, eu tô sem dinheiro, mas posso jogar essa água benta na oferta? Foi minha mãe, uma rubro-negra desde o berço, que benzeu. Começa o segundo tempo da cerimônia na Casa de Meditação Mário Filho. O locutor expõe as expectativas da torcida: - Um intervalo com uma demonstração imensa da crença brasileira no maior símbolo religioso nacional. De um lado, o vermelho. Do outro, o branco e preto. Convicções contrárias, mas ainda assim muito próximas. Será que os vermelhos alcançam a graça pedida e concedida aos “fiéis” durante o primeiro tempo de jogo? É ver para crer. Ou seria crer para ver? Correria, passes, chutes, defesas seguidas de braços erguidos ao céu. A torcidas apreensivas aguardam o final da partida como se observassem o Armaggedon. E para a “fiel torcida” a maldição parece ser derramada no último minuto do tempo normal. Pênalti para o time de vermelho. As duas maiores massas de crentes no futebol aglomeradas no maior templo do País. Nos segundos que antecedem a cobrança, há uma mistura de crenças ocidentais, orientais e ritos africanos. - Ô, sinhô! Ajeita o pé desse rapaz e ajuda a bola a entrar no fundo da rede. - Xinguindum! Ziriguindum! Umbaiê, a bola vai “entrá”! Simbóra benzida! - Se você massagear exatamente neste ponto vai encontrar o nirvana necessário para encher este estádio com suas boas vibrações. Quer que eu massageie pra você? Respirações ofegantes. Um passo para trás. Uma pequena corridinha e... - São Felipe na bola! Ele salva mais uma vez a fiel torcida! - São Fe-li-pe! São Fe-li-pe! O jogo segue por mais alguns minutos e a partida precisa terminar. Redenção da torcida alvinegra. Decepção dos cariocas. - Mermão, tem pecador demais na nossa torcida. A gente precisa passar por um processo de conversão verdadeira. Escuta o que eu tô dizendo. As reclamações são inaudíveis comparadas aos gritos e cantorias corintianas. - Canoniza! Canoniza! Canoniza! O pedido da torcida visa apenas autenticar o que todos já dizem: o goleiro Felipe é um santo. A Santa Autoridade de preto e apito nas mãos chama para perto de si o tal candidato a santo. Em passos vacilantes e cheios de expectativa, Felipe se aproxima daquele que pode nomeá-lo santo de forma autenticada. A mão da Santa Autoridade faz uma cruz na testa do rapaz e a cerimônia está encerrada. Desmaiado de tanta alegria, São Felipe é alçado e levado nos braços de seus seguidores. É a concretização do futebol como religião. |
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