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Embelezando a paisagem
Matheus Siqueira
Como um provocativo grafite colorido no cenário cinzento de uma grande cidade, a charge embeleza a paisagem monocromática da seção opinativa dos grandes jornais. Após virar a capa do jornal, a charge, impregnada de humor, cinismo e ironia, se apresenta ao leitor com uma opinião direta e forte satirizando algum fato recente.

Semelhanças com o grafite não são poucas. Tanto a charge quanto o grafite se utilizam de recursos como o humor negro, repulsa e a sátira para induzirem à reflexão. E ambos têm também como objetivo fazer do seu gênero discursivo um espaço de debates.

A comparação com o grafite, entretanto, não é válido em relação ao conteúdo. Segundo o teórico Charaudeau, em sua Teoria Semiolingüística, há sempre um contrato entre o locutor e o ouvinte. Esse contrato nas charges é a necessidade da bagagem prévia para a total compreensão do significado. Naturalmente, pelo contrato de Charaudeau, o desinformado ou alheio às questões em voga, pouco ou nada entenderá da charge.

Charles Sanders Pierce, teórico da semiótica, confirma esse contrato ao dizer no seu livro Santaella que “todo o propósito de um signo é aquele de que ele deve ser interpretado em outro signo”, sendo esse outro signo a notícia e acontecimentos recentes.

Diante da necessidade prévia de conhecer o assunto abordado, a charge não transmite novas informações, mas reavalia, opina e provoca a reflexão sobre o já conhecido. Portanto, assim como a seção editorial é considerada jornalística, pois complementa o todo de um jornal, a charge, inserida em seu contexto, é parte integrante do jornalismo. Já, excluída de seu meio, a charge perde seu valor como discurso e seu valor jornalístico.

Nos jornais, a charge demonstra a opinião e viés do veículo, a começar pelo posicionamento na página. A Folha de S.Paulo posiciona a charge no topo da seção de opinião, direcionando o leitor a olhar primeiro à charge e depois aos editoriais. O Estadão posiciona a charge na segunda dobra do “espaço aberto”, priorizando o editorial à charge. Analisar a diagramação da charge demonstra a abertura ou não à polêmica.

No Encontro de Cartunistas, realizado no primeiro Fórum Social Mundial (Porto Alegre, 2001), O Estado de S.Paulo foi um dos veículos mais criticados devido a censura. Fábio Gomes, jornalista que cobriu o evento para jornalismocultural.com.br, entrevistou Santiago, autor do Macanudo Taurino, que trabalhou no início da década de 90 no jornal. Ele relata que em nove meses de trabalho não teve dez trabalhos publicados: “Quando eu mandava uma charge bobinha sobre o Collor, saía. Se era algo que questionasse, eles diziam que tinha dado problema”.

A denúncia do cartunista expõe a fragilidade da charge, que mesmo em menor grau que no Estadão, representa uma opinião velada do veículo no qual ela foi publicada. É velada porque para decodificar a mensagem é necessário o contrato de Charaudeau, aproximando novamente a charge ao grafite. A recepção da mensagem por parte do leitor é parecida em ambos. No grafite a mensagem pode ser apreciada por muitos, mas apenas aqueles que vivem no meio e conhecem sua linguagem o entenderão por completo. Assim é nas charges — apenas o fiel assinante e leitor de jornal decodificarão o que o chargista está expondo.