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| Sociedade das covinhas | |||||||
| Suellen Timm | |||||||
| Olá. Me mandaram escrever sobre como a mídia divulga notícias bizarras e como ela usa o humor para aumentar e divertir os seus leitores. Assim, eu li um monte de notícias engraçadas, mas não sei quais colocar aqui. Mesmo porque eu sei que o lema do Canal é “informação também é responsabilidade”, então não tem lugar para palhaçadas. Andréia, nossa ombudsman, leia a partir do segundo parágrafo porque é quando eu começo a falar sério. E outra, tem tanta notícia bizarra que acontece por dia que o meu deadline era para ser na segunda nove de junho e quando terminei o texto já vi que estava desatualizado... As pérolas dos jornais continuavam a aparecer. Entre os vários aspectos produzidos pela mídia está o entretenimento. A teoria da “Sociedade do Espetáculo” proposta por Guy Debord comenta que a imprensa não quer apenas informar, já que o império da comunicação virou uma indústria para promover distração à sociedade. Sob esse prisma o humor possui uma poltrona reservada diante das telas e seus parceiros de comunicação. Qualquer acontecimento para virar notícia precisa sair do comum, da rotina. Para virar uma pauta bizarra, o dia-a-dia não pode aparecer nem em sonho. Assim, o primeiro parágrafo poderia gerar a manchete bizarra: “Articulista desabafa indignação com a regra jornalística”. Percebendo que a sociedade procura a mídia para se entreter, a imprensa passou a dispensar os seus esforços para conseguir ver o sorriso de seus consumidores. É praticamente impossível dizer quais são os meios de comunicação que não usam uma pitadinha da pimenta humorística em suas produções. Alguns já preferem dar na cara mesmo. O G1 montou uma editoria chamada “Planeta bizarro”, a Uol aderiu uma coluna de “Humor” e já outros mais tradicionais como o Estadão e a Folha Online preferem misturar as pautas com o conteúdo de seu impresso. Existem até sites especializados no assunto como o Ora Pois (www.orapois.com.br). Na televisão a epidemia também pegou. O Fantástico e mesmo outros jornais também querem aderir boas gargalhadas ao seu conteúdo. É o bicho! As notícias são tão absurdas que parecem extraídas de uma daquelas listas com as pérolas do vestibular. É no mundo animal que a maioria dos jornais consegue abastecer o seu estoque de pautas bizarras. Em 10 de junho desse ano, o portal Terra publicou uma notícia importada para divertir os leitores intitulada “Sapo venenoso sobrevive após ser comido por cão”. O cão engoliu um sapo cururu inteiro e o pobre do anfíbio habitou no estômago por 40 minutos. O dono do “melhor amigo do homem” ainda achava que o que o cão tinha na boca era uma empada. Dias antes, o mesmo portal publicou uma notícia de outro mundo. Parece mentira, mas em 27 de maio, a manchete “Tubarão morto ‘ataca’ adolescente durante o sono” arrepiou os cabelos dos leitores. Um adolescente, Sam Hawthorne, durante uma crise de sonambulismo foi “atacado” por um tubarão empalhado que estava na parede de seu quarto. Diz a notícia que o menino inglês acordou com seu gritos porque estava com os dentes do bicho cravados em seu rosto. Erros no reino animal podem ser relevados, já que os bichos não foram dotados de razão. Agora, pessoas que deveriam ser pensantes, que invejam a fama dos animais virarem notícia é imperdoável para a platéia sedenta de covinhas. Novamente no portal Terra, desta vez em oito de junho, “NY: ‘policial do cocô’ fiscaliza se dono limpa sujeira”. A notícia conta o caso de um funcionário do Departamento Sanitário que percorre a cidade a procura de fezes de cachorro na rua para “multar” os donos pela sujeira. Pelo menos a cidade vai ficar limpa, ao contrário da coitada da reputação do “policial do cocô”. Não bastasse se meter profissionalmente com as feras, um jornalista resolveu prender um mosquito transmissor da dengue e conduzí-lo até uma delegacia do 4.° DP no Piauí. A bizarrice perolou as páginas do portal Riachãonet em 8 de maio com o título “Mosquito da Dengue é preso e levado ao 4.° DP”. As duas larvinhas tiveram direito até a um Boletim de Ocorrência, enquanto para a vergonha da raça comunicadora, o jornalista conseguiu quebrar a regra profissão e virar notícia. Ops... virou notícia Nunca virar capa de um jornal foi tão almejado. O preço para isso pode comprometer até chacotas para o nome dos filhos, mesmo que, para uma menina que recebeu 20 nomes do seu pai, isso seja uma ofensa. O espaço tão esperado na mídia saiu em 29 de julho de 2007 e foi intitulada “Pai coloca 20 nomes na filha para ela ficar famo-sa”. Na identidade, a jovem possui 17 abreviaturas porque não havia campo para escrever os seus 20 nomes, então a solução foi assinar: Tamara Tatiana E R S H C C B A A C R D B L C M B Galdino. Para quem tem dificuldade de memorização, um nome como esse pode dar muito problema. Se a curiosidade matar, o nome completo é: Tamara Taiana Elis Regina Satiko Harumi Clelia Cristina Bethania Angelica Amelia Catarina Rafaela Denis Berenice Lidia Clementina Magnolia Branca Galdino. Resta saber se a fama compensou o peso de carregar todos esses nomes para o resto da vida. Mas o caso com nomes não é uma exclusividade. Também na Terra em 9 de junho desse ano, uma quentinha: “Jovem chinesa conquista o direito de se chamar ‘C’”. A pauta é noticiar uma disputa de três anos que Zhao C enfrentou perante os tribunais para manter o nome “C” que o pai, Zhao Zirong, deu em homenagem a palavra “China”. Outros pais criativos foram noticiados na Uol em 10 de setembro de 2007, com a impressionante frase “Casal mexicano que se conheceu pela internet batiza filho de ‘Yahoo’”. O texto ainda explica que o cartório advertiu os pais sobre os danos psicológicos que um nome como esse poderiam causar na criança. Rir para não chorar Até a política foi afetada pela gargalhada. O Fantástico apresentou uma reportagem em 13 de maio de 2008 sobre Igarassu, município de Pernambuco, que um santo foi eleito “vereador perpétuo”. O título da matéria, “Salário de vereador para santo” lembra o problema de se eleger um santo como vereador. Pelo menos a matéria confirma que o salário ajuda em um trabalho social. O auge das notícias bizarras veio em velocidade mais rápida que a luz. O modelo de carro que uma simples multa inventou conseguiu apresentar uma tecnologia ultramoderna por inúmeros séculos, ou provavelmente, o resto da vida. O Uol Tablóide publicou em 10 de junho desse ano a notícia “homem é multado em Blumenau por dirigir a 4.800 km/h”, e ainda completou com a comparação de que “a velocidade citada pela multa corresponde a quatro vezes a velocidade do som ou duas vezes a velocidade do jato supersônico Concorde, que voava até 2.600 km por hora”. Comprometer a seriedade do jornalismo? Entre as funções da mídia está o entretenimento e, é claro, o bom humor. Enquanto alguns sob o preconceito de um jornalismo sério não aderem às comédias da vida, outros recheiam os bolsos. Tudo tem o seu tempo, tempo de rir e de chorar. Pauta para rir e pauta para chorar. Se coisas bizarras não são pauta, provavelmente noticiar o dia-a-dia é muito menos. Por isso, se quiser noticiar o início do meu texto, fique a vontade. Poder contribuir para aumentar uns sorrisos é um prazer, publicar as comédias mais ainda. |
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