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Memória do observador

Ana Carolina Riguengo

Aos setenta anos e destes, cinqüenta como jornalista, Alberto Dines, que hoje comanda o Observatório da Imprensa tem um currículo extenso e peculiar. Já passou por jornais como Folha de S.Paulo , Jornal do Brasil e os antigos Última Hora e revista Manchete entre muitos outros.

Dines nasceu no Rio de Janeiro e trabalhou em sua terra natal, em São Paulo e em Lisboa. Estudou no Ginásio Hebreu Brasileiro, onde todos os seus professores eram aliados do Partido Comunista Brasileiro. Neste colégio, Dines iniciou a sua primeira biografia falando sobre o escritor Stefan Zweig, que fugiu do Brasil para a Inglaterra na época do nazismo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a comida era racionada até que a LBA (Legião Brasileira de Assistência) lançou a idéia das "hortas da vitória". O plano era que as pessoas não dependessem mais dos alimentos oferecidos a elas, mas que tivessem oportunidade de prover o próprio sustento. O na época aspirante a jornalista, juntou amigos como Moisés Witman, o "Jerônimo" do rádio, para participarem de um jornal para a organização.

Na década de 50, Alberto Dines, fazia o Científico no Colégio Andrews no Rio de Janeiro, mas próximo a sua formatura resolveu defender as causas socialistas judias e antiburguesas. Para aquela época diploma era coisa de burguês. Preferiu não recebê-lo.

Mais tarde, Dines começou a ver graça no cinema, juntou-se a Alberto Shatovski e tentaram uma vaga na escola de cinema francesa IDEC (Institut d'Etudes Cinématographiques).Dines não passou porque não tinha uma boa carta de recomendação, então comprou vários livros argentinos para estudar sobre o assunto.

Seu interesse chamou a atenção do documentarista Issac Rosenberg que o convidou para uma parceria. Depois atuou ao lado de Lulu de Barros, como diretor dos filmes que Lulu fazia sem roteiros programados. Um destes filmes foi exibido no Festival Comunista no Rio e ganhou o grande prêmio.

Cansado de cinema e ainda com a frustração de não poder ir a escola francesa, Dines acabou resolvendo entrar no jornalismo de vez. Foi trabalhar no Diário Carioca , depois passou para o Tribuna da Imprensa , jornal bem politizado. Ainda trabalhou em revistas como a Última Hora e Manchete que surgiu para concorrer com O Cruzeiro . Mais tarde trabalhou na primeira revista noticiosa brasileira, estilo Times e intitulada Visão. Atualmente pertence a Portugal, mas ainda mantém os modos Times .

Sua grande oportunidade foi aos 25 anos enquanto trabalhava na revista Manchete como repórter e, quando o diretor da revista, Naum Sirotzky entrou de licença e o colocou como assistente de direção, tendo Dines apenas cinco anos de profissão. Ali ele pôde aprender muitas coisas ao lado do veterano Wilson Figueiredo, com quem dividia a direção da revista.

Antes disso ele já tinha sido responsável por editar dois jornais por dia, a mando de seu chefe Samuel Wainer, do Última Hora . Samuel implicou com Dines dizendo que o jovem tinha um espírito muito revolucionário, pois ele queria era um estilo jornalístico. Se vendo surpreendido com o talento do garoto, o colocou para editar dois jornais ao mesmo tempo.

Trabalhando na Manchete, ficou responsável também pela revista Fatos e Fotos . Que acabou fazendo sucesso mesmo sendo um subproduto da Manchete . As revistas inúteis da Manchete iam parar nas mãos de Dines e ele tinha que transforma-las em útil.

Alberto Dines também foi chamado para trabalhar com Itamar Freitas e Paulo Henrique Amorin, que estava no início de carreira, no Jornal do Brasil . Dines trabalhou para o JB por doze anos. Viajou pelo exterior e trouxe idéias que renovaram o JB .

Depois de muitas outras experiências, Dines teve a sacada de fazer um jornalismo diferente, que não falasse exatamente de fatos, mas como a mídia os apresentava e interpretava. Surgiu o Observatório da Imprensa .

Dines é bem crítico e por fazer o gênero que fala o que pensa já teve várias idas e vindas na Folha de S.Paulo , jornal onde também trabalhou. Mas, isso se tornou a sua marca e mesmo tendo várias inimizades, ele não se intimida e os chama de "vedetes". Ele crê que todo jornalista deve ter formação histórica para se dar bem na área. Desta forma, veria melhor que são as notícias é quem escreve a história.