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Por trás de um jornal, um leitor

Dayse Bezerra

É de praxe, neste espaço - agora mais objetivo e específico na análise dos Impressos em Foco - criticar os principais jornais e revistas que circulam no País e no Exterior. Obviamente, não deixamos de lado as críticas a outros veículos também. Contudo, procuramos desta vez dar uma olhada para um outro tipo de críticos. Alguns têm a língua bem mais afiada, outros são mais exigentes. Por fim, há os que simplesmente são curiosos. Eles são "muito queridos" pela mídia impressa, afinal de contas, são os destinatários de tudo que os veículos produzem. Estamos falando dos caríssimos leitores.

Cada leitor tem o seu perfil particular. Os veículos impressos chegam a gastar fortunas em pesquisas para detectar o máximo possível os gostos, costumes e tipos de linguagem do público-alvo que buscam alcançar. Muitos jornais e revistas já entenderam, outros ainda não perceberam, que seus leitores também não querem apenas ler. Já não se vive mais a idéia de que "tudo o que vier, é bem-vindo".

Por conta da atraente e colorida televisão, foi preciso implantar mudanças no meio impresso. A interação e a proximidade entre veículo e leitor só ganhou força a partir da iniciativa de um jornal que abriu um espaço específico para o seu leitor. A idéia era fazer com que ele participasse e criticasse os assuntos publicados.

O jornal O Povo , de Fortaleza, publica diariamente os artigos de seus leitores, independente da classe social e profissional de seus colaboradores. "Temos uma longa tradição de manter uma relação de proximidade com os leitores, da qual também fazem parte a seção de Cartas e o Jornal do Leitor", explica o jornalista Plínio Bortolotti, editor-adjunto do Núcleo de Conjuntura (Opinião) do jornal ( 29/5/2004 ).

Nas principais revistas como Época, Istoé, Veja, Carta Capital , entre outras, a sessão de Cartas ganhou lugar especial nas primeiras páginas. Nos jornais só mudam os nomes, mas a idéia é a mesma. O Estado de S.Paulo tem o "Fórum dos Leitores", na editoria Espaço Aberto. Já na Folha de S.Paulo , o espaço é chamado de "Painel dos Leitores".

Outra mudança louvável no impresso foi o "Eu confesso meu erro". Nessa sessão são "confessados" desde os pecados ortográficos e de informação, até as ações antiéticas publicadas pelos jornalistas na sessão Errata e seus correlatos como "Erramos" e "Correções". As revistas tradicionais também já reservam espaço de até duas ou três páginas para as críticas de seu público-alvo. O que ocorre nesse processo é que a chamada voz do povo acaba não sendo tão ativa e original quanto se poderia esperar. A edição feita pelo próprio veículo acaba, de certa forma, desmerecendo o espaço de opinião dos leitores.

Um exemplo diferente de errata foi o relatado pelo jornal Folha de S. Paulo com o título " Erramos do Erramos?" Naquela ocasião, um leitor chama a atenção para um "Erramos" que, ao corrigir uma data (1737 em vez de 1727), chamava François Lemoyne de "artista plástico". O leitor argumentava que na época só existia a categoria de "artista". Após ouvir a reclamação do leitor, o jornal afirmou que iria averiguar estes dados.

Pedido de desculpas

Outra Errata que entrou para história do jornalismo ao ter recebido o Prêmio Esso foi a registrada pelo jornal Correio Braziliense. Ela começou com um erro jornalístico - o de ouvir apenas uma fonte sem confirmar os fatos - acompanhada de mais outros equívocos antiéticos. Tudo isso desencadeou um abalo enorme na redação do Correio e também junto aos leitores .

A história pegava carona na onda de denúncias contra o ex-secretário do Palácio do Planalto, Eduardo Jorge, em 2000. O repórter Alexandre Machado publicou, em reportagem especial, a informação errada de que Jorge mantinha um esquema de corrupção junto ao Banco do Brasil. O esquema envolvia uma suposta prestação de serviços no valor aproximado de R$ 140 milhões. O falso furo intitulado "O grande negócio de Jorge" (03/07) fez toda a equipe do Correio se reunir e tomar uma decisão. No dia seguinte (04/07), o jornal publicaria uma edição inédita de pedido de desculpas chamada de "O Correio errou".

O assunto rendeu para o jornal. Na sessão Carta ao Leitor , o pedido de desculpas veio assinado pelo ex-diretor de Redação, Ricardo Noblat, que enumerou os três artigos do Código de Ética violados pelo falso furo. A nota ainda afirmava que "salvo o nome Banco do Brasil, grafado corretamente, tudo o mais na reportagem estava errado". O autor da matéria também teve seu espaço para explicações e admitiu: "Errei por ter confiado em uma única fonte sem qualquer documento que garantisse a veracidade do que ouvi. Por fim, errei ao levar o jornal a cometer erro tão grave. Peço desculpas aos leitores e a todos que involuntariamente prejudiquei", ( Correio Braziliense , 4/8/2000, pp. 6/7). O jornal A Tribuna , de Santos (SP), também aderiu a um conselho semelhante.

Um conselho de graça

Além de receber páginas e editorias para poder criticar, o leitor ganhou os chamados Conselhos. Calma, não aqueles conselhos do tipo "leiam mais o meu jornal ou revista". Foi algo bem diferente, mas também com este fim. O jornal Correio Braziliense formou um grupo de leitores conselheiros. O órgão - que também incluía jornalistas, como TT Catalão (excluído após ser demitido do jornal) - tinha por missão participar de reuniões de pautas, projetos e mudanças. Além de dar opiniões e idéias para obter maior qualidade nos textos, temas e nas vendas do periódico.

O mesmo Correio também criou um conselho de leitores diferente dos tradicionais. Composto por um grupo de crianças na faixa etária entre 6 e 10 anos, o conselho mirim tinha a tarefa de fazer críticas às edições, sugerir pautas, apontar problemas gráficos e opinar sobre mudanças n o suplemento infantil Este É Meu!, editado pela jornalista Fernanda Lambach . Após oito meses de participação, a garotada re cebe certificados de Conselheiros Mirins do jornal e, só então, são escolhidos novos componentes para o grupo. O Este é Meu! venceu mais de 200 trabalhos inscritos no Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo.

Outro C onselho de Leitores, agora com um grupo mais jovial, é o tablóide Folhateen , que busca manter identificação direta com seu público bastante exigente. "A experiência é fantástica. Muitas pautas das nossas matérias de capa saíram das reuniões com o conselho. Nós nos reunimos quinzenalmente na sala de reuniões da redação. Cada grupo, formado por sete jovens em média, dura cerca de três meses. Muitos dos jovens fazem matérias durante a participação no conselho ou mesmo depois da saída" explica a jornalista Alessandra Kormann, repórter do suplemento Folhateen desde janeiro de 2004.

O leitor não deixa de ser um fiscalizador da mídia impressa. E quando jornais e revistas levam isto em consideração, eles passam a estar mais cautelosos quanto à informação manipulada e imparcial. Alberto Dines, em declaração dada no programa Roda Viva, na Rede Brasil, disse: "A melhor coisa para controlar a imprensa é observar a imprensa. Quando ela se sente observada, fica mais responsável" (23/08/04). Quem sabe, a partir disso, os impressos fiquem mais espertos. Afinal de contas, p or trás de uma leitura jornalística sempre existe um leitor.