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Atualizações quinzenais às quintas-feiras
 

Quem critica a mídia?

Thiago Campossano e Paulo Mondego

A imprensa sempre foi considerada como o quarto poder do mundo democrático. Porém, isso tem sido questionado. Devido à desunião desse conceito com a realidade, muito já se fala no quinto poder: órgão que "fiscalizaria" a mídia. E há exemplos desses movimentos em todo o mundo. São os veículos que criticam a imprensa e seus produtores, os media watchers .

No Brasil também existem alguns pioneiros na área. O jornalista Rogério Christofoletti, em entrevista ao Canal da Imprensa , conta que a implantação desses media watchers "é uma questão de justiça social, de cidadania, de direitos humanos". Christofoletti tem 33 anos e é jornalista desde 1991. Mestre em lingüística e doutor em ciências da comunicação, leciona na universidade do Vale do Itajaí (Univali), no curso de Jornalismo e no Mestrado em Educação.

Canal da Imprensa - De acordo com Ramonet, a criação de um "'quinto poder', cuja função seria de denunciar o super poder dos grandes meios de comunicação", solucionaria o problema da cumplicidade da mídia em difundir a globalização liberal. Neste contexto, qual a importância dos observadores de mídia no Brasil?

Rogério Christofoletti - Os observatórios de mídia no Brasil - e em outras partes - podem ser a concretização de um quinto poder, conforme o próprio Ramonet. Não foi a toa que no Fórum Social Mundial de 2003, ele tenha proposto a criação de um global media watch , composto por observatórios de diversas partes do mundo. O raciocínio de Ramonet é o seguinte: os meios de comunicação já não exercem o poder - o quarto - como na idéia original, isto é: não mais fiscalizam os outros três. Não mais atuam como contrapoder. Por isso, é necessário pensar num quinto poder.

Canal - Existem pelo menos cinco observadores de mídia no Brasil, hoje. Qual a situação deles desde sua criação? Existe alguma semelhança com os internacionais?

Christofoletti - Cada uma das experiências brasileiras tem uma história e ritmo de desenvolvimento. Temos exemplos muito bem acabados - como o Observatório da Imprensa - e outros em vias de consolidação do seu formato e viabilidade. Penso que as nossas experiências por aqui ainda são poucas, mas muito ricas e muito importantes. Há terreno fértil para novas empreitadas. Na maioria dos países, também não é fácil desenvolver um sólido sistema de monitoramento da mídia. Exceções são os Estados Unidos - que já contam com uma intensa tradição nisso - e a França, um país com larga experiência no terreno da crítica e do desenvolvimento da intelectualidade.

  Canal - Como os veículos de comunicação reagem em relação à atuação das críticas feitas à imprensa pelos observadores de mídia?

Christofoletti - Na maioria das vezes, há uma resistência imensa da mídia nacional em fazer uma autocrítica. É um comportamento padrão já denunciado por Eugênio Bucci em seu livro Sobre Ética e Imprensa , onde batiza esse conjunto de atitudes como uma síndrome da auto-suficiência ética. Aqui, em Santa Catarina , vimos colhendo uma experiência muito positiva com o monitor de mídia que, se não é ainda uma referência para os jornalistas, é acolhido, lido e respeitado. Nossos diagnósticos quinzenais chegam aos jornalistas, e editores de alguns jornais chegam a afixá-los nos quadros de redação. No conselho do leitor do jornal de Santa Catarina, por exemplo, o monitor de mídia já foi citado em calorosas discussões. Esperávamos uma resistência maior da categoria, mas felizmente temos visto uma certa disposição - ainda pequena, é verdade - em se discutir qualidade e ética no jornalismo catarinense.

Canal - A maioria dos media watchers brasileiros são vinculados a universidades e por isso são produzidos por estudantes. Você acha que os estudantes têm competência para trabalhar com crítica de mídia?

Christofoletti - Sim, tem sim. Os estudantes, os operários, os jornalistas, as donas de casa, os professores, todos são consumidores de informação e podem lançar um olhar crítico na direção da mídia. Têm o direito de se queixar, de demonstrar insatisfação, de clamar por retificações. Agora, um observatório de imprensa acadêmico tem o dever de oferecer uma leitura embasada em teoria, em parâmetros claros de análise. E mais: não ser punitivo, nem moralista. Mas propositivo, orientado para fornecer elementos que sirvam para um aperfeiçoamento do jornalismo em geral.

Canal - A possível falta de habilidade e competência dos estudantes não compromete a instituição de ensino que está vinculada ao media watchers para o qual ele trabalha?

Christofoletti - Não. Volto a dizer: os estudantes não estão sozinhos nessa. Há professores que os acompanham, e o grupo como um todo discute, pensa, argumenta. As leituras exercidas por um media watcher não são definitivas. Muito pelo contrário: ela deve ser um convite a um debate, a um diálogo.

Canal - Você é um dos pioneiros na criação dos observadores de mídia no Brasil. Já soube de algum caso em que estudantes sofreram retaliações de veículos de comunicação por terem feito críticas a imprensa?

Christofoletti - Por aqui, não. Aliás, temos uma ex-pesquisadora do Monitor de Mídia que desenvolveu um excelente trabalho por aqui, desvinculou-se do projeto, fez seu trabalho de conclusão de curso, formou-se e acaba de ser contratada pelo jornal de Santa Catarina, um dos nossos objetos de análise. É um demonstrativo de que a crítica pode ser bem absorvida. E, claro, ela - agora - terá o seu trabalho também avaliado pelos pesquisadores do monitor de mídia. Não pára nunca...

Canal - Existe algum risco dos estudantes ficarem marcados pelos veículos de comunicação por causa das críticas feitas por eles à mídia?

Christofoletti - Existe sim, não vou negar. Mas penso que deve ser um risco calculado. Criticar não é fácil. Requer repertório, argumentos, raciocínios claros e sentido do propósito do que se está fazendo. Sempre digo para a minha equipe: "Ok, vocês apontaram esse problema. Mas, na posição dos jornalistas, vocês fariam de que outro jeito?" Quando a resposta é um silêncio, a coisa muda de figura. Não basta apenas apontar o dedo. Temos que pensar em saídas melhores, em soluções mais acertadas. Aí, sim, atuamos para melhorar.

Canal - Está sendo criado o Renoi. Explique um pouco do que se trata e qual o objetivo da rede.

Christofoletti - A idéia é simples: constituir uma rede de observatórios de imprensa nas universidades em diversas partes do país. Como é uma rede, não há uma cabeça, mas nós na trama. E cada um desses nós deve conter um site que faça a crítica de mídia de sua cidade, estado ou região. Cada nó da rede deverá alimentar um site que traga um mosaico nacional da mídia. Assim, deve ser a rede. Já há experiências em andamento, e o Canal da Imprensa é uma delas. Há outros companheiros, como o Gerson Martins, no Rio Grande do Norte, o Avery Veríssimo, em Minas, o Danilo Rothberg e a Angela Loures, no interior de São Paulo, que estão iniciando seus trabalhos. Há muito mais gente envolvida, o que é empolgante.

Canal - Como você analisa a atuação dos observadores de mídia brasileiros?

hristofoletti - Não é nossa tradição fazer crítica de mídia, mas estamos com bons exemplos e bons resultados. Temos um longo caminho pela frente e uma mídia que carece de um olhar mais atento e crítico. Precisamos melhorar nosso jornalismo e a comunicação de um modo geral. Somos um país rico com um povo pobre e sem muitos acessos à informação de qualidade. É uma questão de justiça social, de cidadania, de direitos humanos. Também é uma questão de qualidade de produtos e de ética profissional. Puxa! Há muita coisa em jogo. E os observatórios de mídia não são os protagonistas desse enredo, apesar de terem um papel importante.