Vinte e três de outubro. A data mais comentada nos meios de comunicação ultimamente. É neste dia que a população brasileira vai às urnas para decidir se o Brasil deve proibir ou não o comércio de armas de fogo e munição. Campanhas foram organizadas pelas duas frentes: “Por um Brasil sem Armas”, favorável à proibição, e “Pelo Direito da Legítima Defesa”, contra a proibição. E a mídia não poderia estar de fora. Os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, os dois maiores veículos impressos de São Paulo, e de maior peso em nível nacional, tem acompanhado diariamente todos os acontecimentos que antecedem ao referendo.
A Folha tem apresentado as campanhas dos dois grupos. O jornal tem se mostrado mais imparcial e equilibrado ao relatar os fatos, mas nem por isso deixou de ser um tanto superficial. Digamos que não têm faltado todas as informações necessárias para que o público saiba proceder corretamente no dia da escolha. A Folha tem procurado tratar das características de cada frente desde o lançamento de suas campanhas. “Por um Brasil sem Armas” tem utilizado artistas e personalidades para divulgar o ‘sim' à proibição. “Pelo Direito da Legítima Defesa” preferiu colocar o próprio presidente, o deputado Alberto Fraga, tentando convencer a população a aderir à idéia do ‘não'.
O periódico não deixou de lado a disputa acirrada entre os dois grupos. Um caso emblemático foi o do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que classificou os defensores do ‘não' de “frente da bala”. Em meio às críticas, o ministro declarou que o processo de discussão pública é importante para que a democracia se fortaleça no País. “O referendo pode amadurecer a cultura da população”, afirmou Bastos. (“Ministro da Justiça ataca frente do ‘não'” – 06/10).
Fora de mira
Já o Estadão tem apresentado um nível de interpretação mais elevado. Talvez isso se deva ao fato de o jornal ter uma linha editorial mais incisiva. Além de trazer informações, tem abordado as estatísticas de andamento de cada campanha. Ao citar a estréia dos programas no rádio e na TV, explicou que “a defesa do ‘sim' pontuou de maneira mais incisiva o número 2 – tecla a ser digitada a favor do desarmamento. Tanto que, no programa, as pessoas nas ruas sinalizavam com os dedos o número 2. Já o número 1 – contra o desarmamento - teve menor destaque no programa. A frente preferiu enfatizar que as armas ilegais continuarão a existir nas mãos dos criminosos (“Artistas e crítica a governo no 1º dia” – 02/10). O Estadão publicou, também, a pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos. O trabalho revelou que grande parte dos brasileiros está de acordo com a proibição, mesmo achando que a medida não é a mais importante no combate à criminalidade. Para eles, o aumento no policiamento resolveria o problema.
Um caso pontual relatado pelo jornal foi o que ocorreu no segundo dia de campanha em rádio e TV. Na ocasião, o grupo que defende o direito à legítima defesa fez referências à ditadura, quando a população lutava pelo direito à liberdade política. E fez questão de lembrar que o representante da frente do ‘não', deputado federal Alberto Fraga, pertence ao PFL, partido que reúne atualmente políticos que, à época, apoiavam o governo militar. (“‘Não' usa a luta contra a ditadura” – 03/10)
Analisando a fundo os fatos, Carlos Heitor Cony descreveu a realidade ao escrever para a Folha (“As armas e os varões” – 06/10) dizendo que o referendo é apenas uma forma de escapar do maior problema presente no País: a violência. Para ele, as duas frentes possuem argumentos respeitáveis. O jornalista ressaltou, entretanto, que a violência não está nas armas. “A violência está em nós: culpados que sabem o que fazem, inocentes que não sabem o que fazer”, declarou. |