No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Carlos Drummond de Andrade “No meio do Caminho”, 1928)
Não custa crer que nos últimos dois anos o presidente americano ande por aí recitando, de forma sotaqueada, os versos do célebre Carlos Drummond de Andrade. Isso, depois que o cineasta e ativista democrata Michael Moore hasteou sua bandeira em frente ao Congresso Americano e à Embaixada Saudita. O percalço de Bush, embora com jeitão de simplório e provinciano, tirou do forno, em 2004, uma de suas mais acerbadas obras: Fahrenheit 9/11. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o documentário busca desnudar a política do governo Bush pré e pós-11 de setembro.
A começar pela farsa que foram as últimas eleições nos EUA, a trama traz revelações confidenciais. Embora o autor não mostre o porquê dos atentados, ele dá o tom do contexto. Moore procura desnudar as relações comerciais que a família Bush mantinha com os Bin Laden – Osama, por exemplo, é citado como colaborador da própria CIA na década de 1980-, responsabilizados pelo maior atentado registrado na história americana, e como o presidente tentou desvirtuar a responsabilidade da cúpula saudita como financiadores da rede Al Qaeda e operadores diretos da ação criminosa. Para isto, o cineasta tem uma resposta bem sucinta: finanças. Bush não incriminou os sauditas devido a interesses econômicos. Afinal, como fica explícito no filme, seria um enorme golpe à economia se eles tirassem o um trilhão de dólares dos bancos estadunidenses e deixassem, assim, de controlar os 7% da economia do país.
Fahrenheit é um filme de expressões fortes e para se rir pouco. Cenas de decapitação, ou como as de um cidadão iraquiano que joga um bebê morto dentro de um caminhão apinhado de corpos, assustam. A película mostra também a voracidade de alguns soldados partidários da invasão ao Iraque em “esmagar o inimigo”, escolhido a dedo pela Casa Branca como mercado do terrorismo e merecedores da vingança; sendo que 15, dos 19 suicidas, eram sauditas, conforme é deixado claro no documentário.
Foi a primeira vez na história do cinema americano que um documentário ocupou o primeiro lugar nas bilheterias nos finais de semana. E com razão. A emoção é um dos pontos altos do filme. Grande parte da trama é um divã de desabafos. Familiares de soldados mortos no Iraque expõem suas mágoas e pedem explicações de Bush. Aquilo que muitos, até então, não tiveram coragem de colocar para fora, seja por ingenuidade ou para se resguardar de constrangimento maior –como no caso dos soldados que reclamam por terem sido enganados pela política do presidente ianque-, Moore expôs com alto falante.
A obra de Moore mostra Bush feio na fotografia: insensato, frio e incapaz de agir diante de catástrofes. Aliás, recentemente Michael Moore deve ter realçado esta última premissa frente ao esmorecimento do governista texano diante, não de ataques bélicos, mas da fúria da natureza. Quem sabe isto não renda futuramente uma outra trama?
Bush que se cuide. Pelos caminhos íngremes em que anda ultimamente com sua política desastrosa, não custa nada a “pedra” entrar em seu sapato outra vez e lhe roubar alguns pontos mais no ibope.
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