Um velho ditado afirma: uma mentira dita cem vezes torna-se uma verdade. E a mídia, sempre que pode, incorpora esse ditado à sua linha editorial. Aliás, vivemos em um mundo em que as informações valem dinheiro. Escândalos e acontecimentos extraordinários valem ainda mais. Com esse pensamento, a mídia contribuiu para que verdades se tornassem mentiras e as mentiras em verdades. Assim surgiram as célebres teorias da conspiração.
Um dos casos mais famosos da teoria da conspiração é o que acabou considerado o marco da ufologia mundial. Aconteceu em julho de 1947, em um rancho no município de Roswell, no Novo México (EUA). O fazendeiro Mec Brazel achou destroços de algo que despencara do céu em sua propriedade. Na cidade havia uma Base Aérea Americana que fazia lançamentos de balões meteorológicos. A princípio, Brazel pensou ser apenas os restos de mais um balão que caíra em suas terras, como acontecia esporadicamente. Concomitantemente ao incidente, contudo, o piloto Kenneth Arnold relatou que havia visto aeronaves voando em formação, deslizando como se fossem discos. A imprensa noticiou o caso dando o nome de “discos voadores”.
Logo após, a manchete virou paranóia nacional. Apareceram mais de mil relatos a respeito dos discos voadores. Assim que Brazel viu os noticiários, repensou sobre os destroços que havia encontrado e julgou que eles eram futurísticos demais para serem um balão meteorológico. Ele contatou, então, a Base Aérea do Exército em Roswell, que passou a analisar o caso. Antes mesmo que o perito tivesse a resposta sobre a procedência do material, a base de Roswell divulgou aos meios de comunicação ter encontrado vestígios de materiais extraterrestres. A confusão já estava feita. A imprensa local divulgou o assunto e, dias depois, tudo virara manchete nacional e até internacional.
A Imprensa X conspiração
Enquanto isso, a Força Aérea desmentiu o acidente alegando que os destroços eram de um balão meteorológico e a imprensa abandonou o caso. Mas, trinta anos depois, em 1978, Stanton Friedman, um físico nuclear e pesquisador de OVINs, procurou o major Jesse Marcel (que havia deixado o exército) para investigar o caso. Marcel, que não acreditava que os destroços eram de um simples balão, relatou uma história diferente da oficial, afirmando que em 1947 uma nave alienígena teria acidentado-se em Roswell. Seu depoimento foi publicado no tablóide National Enquirer e assim o assunto voltou a ser manchete.
Com o respaldo da mídia, outras testemunhas foram aparecendo e muitos pesquisadores instigados a saber mais sobre caso. Aparecia de tudo. Alguns diziam que havia corpos de alienígenas nos destroços. Até um filme mostrando a autópsia em extraterrestres foi produzido. Uma avalancha de fatos inverossímeis começou a acontecer. Uma enfermeira que havia participado da tal autópsia, logo depois teria desaparecido. Um dono de funerárias teria sido consultado pela Força Aérea para providenciar caixões aos mortos no acidente. Filhos de militares americanos teriam visto os destroços e, no meio deles, corpos de extraterrestre... E a imprensa noticiava tudo, sequer averiguava a veracidade dos fatos.
Livros sobre o assunto foram publicados e, em todos, a mesma idéia básica. Um disco voador havia sido encontrado e, por algum motivo, o governo americano estava forjando evidências para acobertar o caso. Começa aí a idéia da conspiração americana. Segundo pesquisadores ufólogos, o governo americano recolhera o material para desenvolver pesquisas com a tecnologia alienígena e, assim, usar contra seus inimigos.
As divergências
Muitas divergências existem sobre o caso. Desde o local onde os destroços foram encontrados até o diário de um comandante contando sobre o fato. O diário realmente existiu e era da década de 40, porém, a tinta usada para escrever foi criada apenas na década de 70. Todas as informações foram obtidas através de testemunhas que só relataram suas histórias trinta anos depois e muitos delas eram crianças quando o fato aconteceu. Essas testemunhas só voltaram a falar por que a imprensa deu notoriedade ao fato.
Na década de 90, o governo americano resolveu apurar o caso. Ficou comprovado que os destroços eram de um balão. Os alienígenas "observados" no Novo México, que passaram pela possível autópsia, eram provavelmente bonecos de testes carregados por balões de pesquisa em elevada altitude. O filme da autópsia também foi comprovado ser uma farsa.
Ainda com todas essas evidências, muitos que afirmam ter sido essa a maior conspiração da história. Apesar de o governo americano ser acusado de uma das maiores conspirações da história, ele ainda é o grande beneficiado em tudo isso. Para ele, a dúvida sobre o limite da sua tecnologia é benéfica. A incerteza quanto a um possível contato com alienígenas fortifica a idéia de que os Estados Unidos é o país hegemônico do mundo, contando até com ajuda de outros seres planetários.
Os beneficiados
A imprensa também foi beneficiada com o caso Roswell. O enredo do caso acabou tirando a monotonia que, muitas vezes, acomete o jornalismo. Ainda hoje, muitos jornais buscam histórias bizarras para aumentar sua vendagem. Outros beneficiados foram as ditas “testemunhas”. Aparecendo aos borbotões, elas buscavam seus cinco minutos de fama alegando serem vítimas de ameaças do governo americano caso contassem “tudo” que sabiam.
O único prejudicado com essa história toda foi a sociedade, que mais uma vez presenciou a imaginação fértil da mídia e sua incapacidade de averiguar os fatos. Mas, para a mídia, uma mentira dita cem vezes vira uma verdade, então, a verdade foi dita. |