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| Muito barulho por quase nada | |||||||
Danúbia Guimarães |
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O mundo das lendas e caraminholas disseminadas pela internet é vasto e curioso. Chega a ser impressionante a rapidez que boatos totalmente infundados contaminam milhares de caixas de e-mails, e de lá, para uma mídia pertinho de você. Ao que tudo indica, o fenômeno é fomentado em uma mente criativa e espirituosa que cria uma brincadeira, uma piada, ou mesmo um “causo” polêmico. A partir daí, coloca sua criação numa página da web e logo a história se espalha como verdade provocando, por muitas vezes, a ira dos defensores disso ou daquilo outro. Exemplo curioso é um site que propõem a seus leitores a “fantástica” alquimia de transformar seus bichanos em uma espécie de “bonsai ambulante” - arte milenar japonesa especializada em manipular o tamanho de árvores. Como aplicar esse princípio nos gatinhos? O Dr. Michael Wong Chang, um dos criadores do “fenômeno”, diz que é fácil, fácil. “A flexibilidade do esqueleto dos gatinhos é tal que se os ossos deles forem cuidadosamente dobrados nessa idade eles podem ser moldados em qualquer forma que se queira”.( http://www.bonsaikitten.com/bkmethod.html ). Pode alguém acreditar numa lorota dessas? O pior é que tem gente defensora da causa dos pobres felinos. Entre o rol das esquisitices que ganharam fama e ares de credibilidade, estão o E.T de Varginha, chupa cabras, bebê diabo e um boato que insiste em perdurar anos a fio: a idéia conspiradora de que os norte-americanos querem tomar a floresta amazônica brasileira. Do boato á notícia Para que o boato convença e se espalhe pela mídia, é preciso que seu criador atente-se para dois detalhes importantes. Primeiro, que haja no mínimo, relevância para a sociedade. Segundo, que sua invenção seja reconhecida por alguma autoridade da área - seja por métodos lícitos ou nem tanto. No caso da “internacionalização da Amazônia”, não é preciso dizer quanto relevante é o tema. E no desenrolar dos fatos, a fantástica aquisição de assinaturas de universidades renomadas dão a credibilidade necessária. Bastou a denúncia de que nas aulas de geografia de escolas americanas, era ensinado que a Amazônia, “celeiro da biodiversidade”, e o Pantanal Matogrossense eram “áreas de controle internacional”, para que a mídia fizesse o maior rebuliço. Segundo o jornal Estado de S.Paulo (06/10/2000), a informação sobre a existência de mapas-múndi com esses dados passou a circular no início de 2000, sob a forma de uma “corrente” apócrifa de e-mail. A origem da corrente está em uma nota divulgada no site ultranacionalista http://brasil.iwarp.com . Com o fogo e fósforo na mão, o boato começou a tomar forças quando foi publicado inadvertidamente na seção de cartas do jornal Ciência Hoje Eletrônico , da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A carta chamou a atenção da pesquisadora Michelle Zwede, do Brazil Center da Universidade do Texas, em Austin. Preocupada em comprovar a veracidade das informações, Zwede enviou um e-mail para o site que tem por mote, “Brasil, ame-o, ou deixe-o, uma velha frase, uma nova necessidade”. Qual não foi a surpresa da pesquisadora, quando três dias após seu e-mail, sua assinatura havia sido anexada ao artigo ufanista tornando o boato mais real. Foi esta versão “assinada pela pesquisadora” que caiu nas mãos do jornalista do Estado de São Paulo, César Giobbi. Iludido, reproduz em sua coluna as informações, que agora foram anexadas ao velho artigo, contendo o nome da SBPC, da pesquisadora Michelle Zwede e Estadão. Na época, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Anthony S. Harrington, disse ao Estadao.com que os rumores de uma internacionalização da Amazônia são um “mito grotesco”, que “tem atrapalhado o relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos durante anos”. “Permita-me dizer isso da forma mais clara possível: os Estados Unidos não têm absolutamente nenhum interesse em invadir a Amazônia”. Aprendizado a duras penas O jornal Ciência Hoje Eletrônico , da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), divulgou uma nota ao embaixador brasileiro, na época, Rubens Antônio Barbosa, desculpando-se por ter agido inadvertidamente dando início à disseminação do mito ao publicar carta de uma leitora que reproduzia o conteúdo da nota publicada no website. Já a pesquisadora, disse que a universidade vai investigar o uso indevido de seu nome. O Estado de S.Paulo , principal divulgador do boato na mídia, entrou na dança e de uma maneira sutil, se desculpou: “Tendo recebido o e-mail falso assinado por Zweede, uma fonte confiável, o colunista social do Estado , César Giobbi, é induzido ao erro e publica uma nota que, mais uma vez, reproduz o exato teor da mensagem original”. (12/06/00) Sempre existirão loucos, xenofóbicos ou, simplesmente, pessoas dispostas a terem seus 15 minutos de fama. O que não deve se permitir é que caraminholas vindas dessas “mentes criativas” ocupem o espaço das verdadeiras notícias. Chega de tanto barulho por nada. Ou será que em pleno século 21 há quem acredite em chupa cabras? Em situações como essas, uma boa dose de bom senso e apuração dos jornalistas facilitaria a vida da sociedade, e os pouparia do descrédito causado pela divulgação de boatos. Definitivamente é melhor prevenir do que se desculpar. |
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