Era uma noite fria e o céu noturno estava claro e estrelado na fazenda Villas Boas, em São Francisco , Minas Gerais. Por volta da uma hora da madrugada, enquanto trabalhava, o agricultor Antonio Villas Boas notou algo no céu. Um OVNI iluminou fortemente o local à medida que desceu, até pousar a poucos metros do trator, que parou inexplicavelmente de funcionar. Assustado, Villas Boas desceu do trator e tentou fugir, mas foi dominado por três seres baixos com roupas e capacetes estranhos. Dentro do OVNI os tais seres tiraram suas roupas e o submeteram a exames. O relato dá conta de que até o teriam obrigado a manter relações sexuais com uma extraterrestre.
O "caso Villas Boas”, como ficou conhecido, é considerado um dos mais espetaculares da ufologia moderna. Verdade ou mais uma farsa produzida na oficina dos grandes veículos de comunicação? Abduções, seres interplanetários, discos voadores, híbridos, acordos secretos e chips. Esses são apenas alguns dos elementos que encorpam a rede de conspiração tão vastamente propagada pela mídia.
Conspirar . V.t. 1. Tramar, maquinar. 2. Entrar em conspiração, conluio. 3. Projetar em comum coisa contrária aos interesses de outro. 4. Tramar contra os poderes públicos.
Não é novidade que todo ser humano adora uma boa teoria conspiratória, mas com isso, fatos são encobertos ou distorcidos, boatos propagados e lendas urbanas semeadas. A verdade se torna questionável, duvidosa e manipulada por interesses de alguns grupos ou do poder dominante.
Daniel Pipes, colunista premiado dos jornais New York Sun e The Jerusalem Post, e doutor em História pela Universidade de Harvard, vê as investidas conspiracionistas como idéias absurdas, repulsivas e perniciosas, que precisam ser combatidas e marginalizadas. Pipes acredita que para se compreender a realidade desse processo é necessário conhecer um pouco da história das teorias de conspiração.
Segundo ele, os temores de conspirações de menor porte — um rival na política ou um concorrente nos negócios tramando para prejudicar outro — são tão antigos quanto a psique humana. Já os temores de uma conspiração em grande escala remontam 900 anos apenas e vêm sendo explorados somente há dois séculos, desde a Revolução Francesa. Só a partir de então, as teorias conspiratórias foram ganhando importância e se tornaram destaque nas manchetes e reportagens dos veículos de comunicação.
Editor executivo do jornal O Estado de São Paulo, Roberto Gazzi concorda com Pipes e diz que a teoria da conspiração “é própria do ser humano e existe desde que o homem é homem”. No entanto, de acordo com ele, na Era da Informação, a tendência é que ela seja exacerbada, até porque sua expansão é mais fácil. Gazzi revela que na sua vida profissional já deparou com algumas situações em que a teoria foi invocada. Ele não vê a mídia como mentora dessas idéias, mas aceita que parte dela ajuda na propagação.
Para Antonio Luís Guimarães de Álvares Otero, advogado e comentarista, as teorias conspiratórias são famosas e surgem sempre que é preciso justificar o que o homem não consegue compreender, explicar ou aceitar. Otero argumenta que tais teorias têm credibilidade discutível, terminam invariavelmente ridicularizadas por serem espectros não palpáveis ou prováveis em nosso mundo moderno, cada vez mais cartesiano. “Há que se separar, contudo, o joio do trigo”, ressalva. Mas antes de taxar de joio ou trigo é necessário conhecer a fundo esse mundo de tramas secretas e idéias revolucionárias.
As mais polêmicas
Alguns acreditam que só o fato de uma pessoa conhecer as teorias conspiratórias já contribui, de certa forma, para que ela fique mais desconfiada e enxergue a "realidade" por outros ângulos. O certo é que essa indústria de paranóia, como já foi denominada, foi responsável pelo surgimento de fantasmagóricas conspirações.
11 de Setembro de 2001. O que para muitos foi um dos maiores ataques terroristas da história, para os conspiracionistas, não passou de uma armação dos Estados Unidos. A deputada americana Cynthia McKinney disse que o presidente George W. Bush sabia de tudo e que ele precisava de um pretexto para iniciar uma guerra no Oriente. McKinney garantiu ainda que Bush mantinha relações comerciais de longa data com a família Bin Laden. E mais: O presidente precisava da guerra já que seu pai era o diretor da principal fornecedora de material bélico para os Estados Unidos e ia faturar horrores com o massacre no Oriente Médio.
No cenário nacional, nenhuma teoria ganhou fôlego como a que “explica” a morte dos presidentes João Goulart, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Segundo essa tese conspiracionista, os três foram assassinados misteriosamente pela Operação Condor, um complô entre governos militares do Brasil, Argentina, Chile e Paraguai. Jango morreu em 6 de Dezembro de 1976 e, segundo versão oficial, ele teria sido vítima de problemas cardíacos, mas os “paranóicos” juram que ele foi envenenado.
O ex-governador Leonel Brizola, casado com a irmã de Jango, defendia essa tese. Ele dizia, ainda, que Jango não foi a única vítima do esquema internacional. Segundo ele, a Operação Condor também seria responsável pela morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que se envolveu num suposto acidente de carro em 22 de agosto de 1976. Os adeptos da tese alegam três razões para o acidente: sabotagem, bomba ou motorista baleado. Outra morte cheia de capítulos mal explicados foi a de Tancredo Neves. Ele foi internado com diverticulite intestinal e faleceu depois de 38 dias de internação e sete cirurgias. As hipóteses levantadas foram inúmeras, entre elas, atentado e envenenamento.
“Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”. A famosa frase foi dita pelo astronauta Neil Armstrong quando pisou (?)... na lua? De acordo com os conspirólogos, tudo não passou de uma farsa do governo americano, dirigida pelo cineasta Stanley Kubrick. O pouso não teria sido na lua e sim no deserto de Nevada. A conquista do satélite pelos homens não passou de um engodo bem feito, filmado em um estúdio de TV com várias fontes luminosas e muita areia no chão.
No entanto, entre todas as teorias, nenhuma causa tantos temores quanto a que especula o fim do mundo. Em reportagem da edição especial “O livro negro das conspirações”, da Superinteressante, Cláudia de Castro Lima é enfática. “Não adianta chorar, acender vela e rezar. Nem fritar o cérebro tentando imaginar um jeito milagroso de impedir o inevitável: a vida na terra vai acabar. É o que garantem os conspirólogos do fim do mundo”, afirma. A data não está prevista, mas as alternativas são as mais variadas. Alguns advogam o superaquecimento da Terra. Outros, pelo contrário, preferem a destruição em meio a uma era glacial. Outros defendem a bomba nuclear, o meteoro e até as avançadas conquistas tecnológicas.
Nem o reino britânico ficou livre das investidas conspiracionistas. Muitos juram de pés juntos que Diana era uma agente da CIA, com a missão de acabar com a realeza britânica. E foi morta porque, cansada de desempenhar esse papel, estava prestes a denunciar sua condição a um jornal francês. A princesa teria sido assassinada pelo Serviço Secreto Britânico, apoiado pela CIA.
Enumerar todas as teorias conspiracionistas seria quase impossível. Na ufologia não é de hoje que os especialistas alegam que os alienígenas vêm transando com terráqueos e produzindo uma nova geração que vai dominar o mundo. Na ciência, há a possibilidade da destruição dos humanos pelos robôs e há até aqueles que insistem em acreditar que a Aids foi criada em laboratório ou surgiu de relações sexuais do homem com o macaco. Na política, se destacam a “maldição” da família Kennedy, a tomada da Amazônia pelos norte-americanos e a farsa da propaganda comunista sobre Olga Benário. Na religião, Jesus Cristo teve esposa e filhos, ao passo que Bush, Bill Gates e Arnold Schwarzenegger são taxados de anticristos.
Na mente dos teóricos da conspiração nada é impossível. Paul McCartney morreu e um sósia assumiu seu lugar. Elvis Presley está vivo! Os mistérios também permeiam o mundo futebolístico. O que teria acontecido com Ronaldo na copa de 1998? E o que mais mexe com o imaginário popular são as lendas urbanas. Personagens do folclore ou protagonistas do terror? Lenda ou vida real? A loira que assombra banheiros escolares, a mulher na estrada pedindo carona, a gangue que rouba rins, a boneca da Xuxa que ganha vida à noite e mata crianças e o boneco do fofão que esconde na cabeça uma adaga e uma vela. Absurdo, curioso ou paranóico?
Em nome do sensacionalismo
Diante de tantas idéias, denúncias e tramas secretas fica a pergunta: Isso tudo é verdade ou não passa de uma armação da mídia? Até onde vai a credibilidade dos veículos de comunicação? Uma pesquisa da Associação Nacional de Jornais aponta que 47% dos leitores diários acham que os jornais impressos têm muita credibilidade, apenas 6% acham que eles não têm confiabilidade. Alberto Dines, editor responsável pelo Observatório da Imprensa, conclui que “a insistência da mídia em apelar para pesquisas de opinião que garantam sua confiabilidade é a melhor demonstração de que está absolutamente perdida no turbilhão de dúvidas a respeito do seu desempenho”.
Mestre em Comunicação pela Umesp, Vanderlei Dorneles assegura que não é a mídia que cria essas teses conspiracionistas, ela apenas dá uma importância exagerada às pessoas que aparecem com essas histórias. Ele vê no sensacionalismo a razão para a propagação dessas idéias. “A mídia é movida por uma mentalidade de ficção, as coisas sempre são mais terríveis do que parecem. Alguns fatos são mais atrativos para o povão. Essas teorias são mitos e as pessoas adoram especular sobre os mitos”, argumenta.
Para o jornalista e escritor, Ruben Holdorf, os motivos da mídia ao divulgar essas teorias vão além do sensacionalismo. Ele vê a questão ideológica e os interesses comerciais. Holdorf cita como exemplo o livro 11 de setembro de 2001: Uma terrível farsa, de Thierry Meyssan.
“Meyssan tenta provar que o 11 de setembro foi causado não por terroristas, mas pelo próprio governo americano numa grande jogada de apoio público”, recorda o profissional. Segundo ele, a imprensa acabou condicionando a situação e pouquíssimos apontaram a versão de Meyssan. “Tal versão está mais próxima da verdade do que as outras que defendiam que estúpidos seres que moram em cavernas, de repente, tiveram acesso à grande cidade de Nova York”, menciona.
Em contrapartida, Gazzi não acredita que os Estados Unidos tenha praticado tal ato. “Me parece irreal imaginar que os EUA fariam uma coisa daquela dimensão para caçar os talibãs ou atacar o Iraque”, ratifica. O jornalista cita que a mídia tem facilidade de espalhar versões, muitas até aparentemente plausíveis. Ele conta que cobriu a morte de Tancredo Neves e garante que as teorias conspiratórias sobre a morte do presidente surgiram das irregularidades nas investigações. “A mim, pelo que pude apurar, houve muito mais uma combinação de tentativa de astúcia política (esconder a gravidade do fato para não atrapalhar seu mandato) com uma tentativa de se esconder um erro médico. Daí o espaço para as teorias conspiratórias sobre envenenamento e tal”, conclui.
É responsabilidade do repórter distinguir verdades ocultas do puro delírio. O jornalista, escritor e dramaturgo, José Paulo Lanyi, entende que o que a gente ostenta como verdade pode ser ‘achismo' com base em evidências. “Jornalistas também deveriam saber: evidência não é prova - nem para atacar, nem para defender”, afirma.
Há aqueles que defendem que as teorias conspiratórias podem abrir olhos e mentes para suspeitas importantes. Outros alfinetam que só uma mente paranóica pode acreditar na possibilidade de ocorrer alguns desses fatos. Mas uma coisa é evidente: as teorias conspiratórias existem e não vão terminar tão cedo. Deve-se começar por reconhecer sua existência, para apresentar em seguida sua refutação .
O ideal é a pessoa se municiar de um senso crítico, procurando filtrar as informações e refletir sobre o seu contexto e significado. É negativo aceitar idéias totalmente. Mas negá-las também! Fernando Villela, que define a si mesmo como um conspirador, aconselha: “Informe-se. Pesquise. Analise. Compare. Reflita. Avalie. Duvide. E, finalmente, conclua”. |