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Conspiração à la francesa
Marissa Ferreira

A internet é o meio mais propício para a proliferação de idéias críticas e opostas aos órgãos públicos. Ela é um meio totalmente aberto, difícil de ser controlado ou censurado, com uma atraente facilidade de atualização e expansão de influência. Logo, aquele que quer publicar com agilidade - e de graça - suas idéias, por mais absurdas que sejam, vai encontrar na internet o melhor palanque para a sua voz. Essa extensa rede de comunicação não filtrada possibilitou a qualquer pessoa do mundo a criação do seu próprio espaço para publicar qualquer produção pessoal, desde fotos a descobertas científicas. E é nessa rede de todo o tipo de assunto, útil e inútil, que se encontram os maiores criadores e mantenedores da Teoria da Conspiração. Ou se preferir, os analíticos da sociedade que, variando de estilo e abordagem tentam passar para a população aquilo que acham que ela deveria saber e não sabe.

Imprensa “não-alinhada”

É nesse grupo que se encontra a Rede Voltaire , “de imprensa não-alinhada”, como os próprios criadores a chamam. A rede é um respeitado veículo de crítica política mundial. Ela não se limita a críticas cruas, fatalistas ou despeitadas. Com a sobriedade de um veículo de imprensa culta, a se apresenta como comprometida a revelar a verdade por trás das coletivas, sem deixar de usar a ironia, mas segura de suas credíveis apurações e comunicação.

Criada em 1994, para impulsionar uma manifestação pela liberdade de expressão na França, a Rede Voltaire se destacou agindo em vários domínios da vida social e política. Sediada em Paris, desde sua formação, tem-se desenvolvido e transformado num palanque da extrema esquerda. Tanto já interveio para impedir o financiamento público das viagens do papa, como para apoiar a aprovação de leis segundo seus ideais políticos. A partir de 1999, a voz da rede foi aumentando e vários militantes se juntaram a ela, colaborando para o seu crescimento e expansão. Passou, então, a se orientar mais especificamente para as questões internacionais, chegando a publicar uma cobertura diária interpretativa da guerra na Iugoslávia.

Atualmente, publica uma revista diária de análise política, Voltaire , e mantém websites, em oito línguas e documentos impressos disponíveis ao público. A rede pode mudar de dimensão ou campo de investigação, mas os seus colaboradores continuam, segundo eles, a defender as “liberdades e o secularismo”. As publicações da Voltaire são realizadas sob a orientação editorial de um grupo de corporações e associações comerciais em vários países como Algéria, Cuba, França, Líbano e Reino Unido. O seu conselho administrativo é composto na sua maioria de jornalistas e políticos. Toda esta estrutura é financiada pelos dividendos das próprias publicações e da produção de Thierry Meyssan, seu presidente.

Fenômeno francês

Meyssan, o próprio fundador da rede, é um conhecido escritor, formado em Ciências Políticas e perito em Direitos Humanos na Conferência sobre Segurança e Cooperação da Europa. É também redator-chefe da revista mensal Maintenant, e edita este boletim de inteligência política. A sua exposição internacional aumentou com a publicação do livro 11 de Setembro: Uma Terrível Farsa , em que Meyssan tentou provar que tanto o ataque às torres gêmeas como ao Pentágono foram uma mentira realizada e encoberta pelo próprio governo norte-americano.

A obra suscitou muitas dúvidas na mente do povo e comentários indignados dos envolvidos na guerra contra o terrorismo. Com suas provas contundentes, e lógica explicativa, Meyssan se tornou um dos defensores mais credíveis da Teoria da Conspiração. O sociólogo Pierre Langrange, em entrevista ao diário Libération , comentou o trabalho de Meyssan, dizendo que “este fenômeno não é típico de franceses”. Para ele, os eventos do dia 11 de setembro trouxeram ao mundo uma realidade tão próxima à ficção científica que tem havido, em torno dele, mais um mercado de interpretações paranóicas do que outra coisa.

A linha editorial da rede é claramente esquerdista. O objetivo dos seus colaboradores – “coletar informação de alto nível, para analisar e publicar a um vasto público” – é totalmente permeado pelas ideologias que acreditam. É exatamente este idealismo e a clara participação em teorias conspiratórias que trazem mais descrédito a seu trabalho. Alguns mudam a sua visão de mundo quando lêem o veículo. Outros acabam vendo Meyssan como um simples exagero stalinista. Não obstante, a verdade é que perante o mundo, Thierry Meyssan ainda consegue deixar na mente de muitos a dúvida que sustenta o seu trabalho: a má intenção dos líderes políticos.

A sua tentativa de provar a existência de um Estados Unidos oportunista e uns árabes inocentes, mais a preocupação com os neoconservadores europeus, tudo isso usando documentos oficiais e até sigilosos, tem agitado o mundo, ao ponto de se levantar uma discussão entre os seus concidadãos sobre o fácil acesso que Meyssan tem à informação.

Fraude ou não, os vários sites que propagam as críticas da Rede Voltaire continuam a receber cerca de 900 mil leitores por mês. Os seus argumentos não deixam de ser convincentes nem de abalar, nem que seja um pouquinho, a credibilidade dos políticos que atacam. E, acima de tudo, a Rede Voltaire se mantém como uma das líderes na manutenção e propagação das teorias da conspiração.