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Comunicação & Saúde: A doença como espetáculo

Lêda Maria

A revista IstoÈ do dia 26/10 traz estampado na capa: “O risco da superepidemia”. A reportagem com o título “Gripe que assusta o mundo”, apresenta a gripe do frango e deixa qualquer um de cabelo em pé. No texto fala-se em avanço do vírus aviário, morte humana e até ameaça de crise global. No lead a proposta já fica evidente: “Mais um medo ronda o planeta. Aos terremotos, desastres climáticos e ameaças terroristas se junta a gripe aviária, doença causada por um vírus que vem se alastrando pela Ásia e recentemente pela Europa”. Sensacionalismo da IstoÈ, ou apenas a política editorial do jornalismo em saúde?

A comunicação para a saúde pretende ser democrática, transparente e identificada com os interesses da maioria, mas para a jornalista Alessandra Silvério, a mídia perdeu esse foco há algum tempo. “Diante do atual contexto, em que o capitalismo dita as regras da economia, tudo passa a ter valor mercadológico, inclusive a saúde”, comenta Alessandra. A saúde é o maior patrimônio do ser humano, por isso notícias que abordam o tema chamam a atenção da população e produzem impactos gigantescos.

Wilson da Costa Bueno, jornalista e professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Umesp assegura que a mídia mantém o foco na doença e apresenta caráter fatalista ao informar sobre o tema. Segundo ele os veículos desviam a atenção da ausência de políticas de saúde, deixando de entender o processo pelo qual se criam condições para a emergência de epidemias ou para o retorno de velhas enfermidades. Wilson afirma ainda que os comunicadores da saúde “elegem os microorganismos como vilões, sem indicar que a causa maior das moléstias e patologias é a precária infra-estrutura de atendimento, a ausência de um programa de saneamento básico, o despreparo de profissionais, a mercantilização da medicina e a miséria da população”.

O diagnóstico

As críticas ao jornalismo em saúde são muitas. Entre elas está, a priorização da doença ao invés da saúde, o sensacionalismo, a escassa abordagem da prevenção, além da relação promíscua da comunicação da saúde com os interesses das empresas fabricantes de produtos ou prestadoras de serviços na área.

Wilson Bueno diagnostica que a cobertura de saúde na mídia padece de uma doença difícil de ser tratada: a chamada patologia da fonte. Os sintomas são a desqualificação da informação e o domínio dos interesses comerciais. E a cura pressupõe um tratamento longo e doloroso, que inclui uma postura ética e política frente às pressões das fontes e uma capacitação dos comunicadores da saúde.

O professor Wilson alerta ainda que “mais do que em outro campo de cobertura, a medicina e a saúde se prestam à produção de matérias espetaculosas, prometendo curas e desvendando os mistérios do corpo e da mente. Em muitos casos, a informação se confunde com releases emitidos pela indústria da saúde, sem que o receptor seja avisado dos interesses do produtor da informação”.

Informar com responsabilidade

Alessandra Silvério diz que a notícia como mercadoria pode e deve ser tratada dentro dos princípios da conduta ética e profissional. Deve ter como objetivo cunho social, preventivo e informativo. A jornalista acredita que ter ética em jornalismo, no que se refere à saúde é ter um compromisso firmado com a manutenção e preservação da vida dos cidadãos. É ter o objetivo de informar em prol do bem estar social. Promover mais que informação, qualidade e respeito à vida.

A conduta profissional do jornalista, no exercício da profissão, é antes de tudo, uma atividade de natureza social, com finalidade pública. Por meio do jornalismo, é possível divulgar a realidade da situação da saúde no país e reivindicar melhoras no setor. O comunicador da saúde pode mostrar a angústia de milhares de pacientes que aguardam anos, por um transplante, e com isso incentivar as doações de órgãos e conseqüentemente diminuir o número de mortes durante a espera nas filas de hospitais.

Não basta ser vitrine, é preciso ser funcional. Jornalismo com qualidade é informativo, preventivo e de utilidade pública, com intuito de prevenir e educar a população. Pessoas bem informadas se cuidam mais. Com o acesso à informação, há uma preocupação maior com a qualidade de vida.

Na comunicação da saúde até a linguagem deve ser cuidada. "É deprimente vermos indivíduos que se intitulam jornalistas, atentando contra a moral e os bons costumes das pessoas, sejam elas anônimas ou celebridades", declara Alessandra. Ela diz que é inadmissível que essas pessoas se refiram a quem quer que seja de maneira discriminatória e pejorativa. Uma coisa é usar termos como portador de HIV, homossexual, deficiente físico e negro, outra bem diferente, é se referir a estas pessoas como aidético, veado, aleijado, preto ou crioulo.

A jornalista lembra que a ética e a responsabilidade social são quesitos indispensáveis no exercício da profissão. "Deve-se levar em conta que pessoas não são índices, números representados em estatísticas, mas que têm sentimentos e carecem de respeito", finaliza.