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Atualizações quinzenais às quintas-feiras
 
... não existissem os jornalistas ”?
Thiago Campossano

Só zueira?
Diones - Segundo grau – curtição e alegria. Não pensava em coisas tão sérias como profissão, casamento ou dinheiro. Gostava de música, futebol, meninas e de ver o Jornal Nacional. A única coisa que achava ruim eram os programas de televisão que cada vez mais apelavam para baixarias e sexo explícito. O terceirão terminou e o pegou de surpresa, mas como bom brasileiro resolveu as coisas aos trancos e barrancos. Achava muito legal ver Willian Bonner apresentar as notícias do dia e decidiu prestar vestibular para Jornalismo, queria ser como ele. E não é que ele passou?

A nova fase

A faculdade é assim: no começo tudo parece light, tudo de boa. Na verdade, é nela que o futuro e as responsabilidades se apresentam. Com nosso amigo não foi diferente. Aquele que era um garoto curtição se tornou no melhor da classe. Entregava todas as tarefas em dia e com alta qualidade. Queria ser um grande jornalista, reconhecido por todo o Brasil, mesmo sabendo que as pessoas cada vez menos assistiam aos jornais.

Os colegas de classe inúmeras vezes o excluíam das festinhas, pois não gostavam do seu jeito - inveja, é claro! Mesmo assim, lá estava Diones disposto a ensinar os que lhe pediam ajuda, por mais que soubesse que não estavam tão interessados assim. Cada apresentação de seminário era a chance de mostrar seu talento em oratória. E Diones , realmente estava conquistando a admiração dos colegas e dos professores.

O inverso

Paulo é o nome da fera! Também teve a juventude animada e muita bem aproveitada. A escolha de uma profissão também foi bem brasileira, aos trancos e barrancos. O engraçado que é o motivo que o levou a fazer Jornalismo se assemelha ao de Diones: a admiração pelo Jornal Nacional. Quer saber mais? Paulo era da mesma sala de Diones, só que era do outro grupo. Era quem liderava as bagunças e festinhas. Não fazia nenhum trabalho como o dedicado colega, mas sempre o procurava quando em apuros.

Mercado à vista

Os anos se passaram e o tão sonhado dia da formatura estava às portas. O mercado já era realidade para alguns da classe, menos para Diones. Eram parecidos. Estudavam de noite e trabalhavam durante o dia todo para ajudar a família, que sempre foi pobre. Nunca tiveram tempo para realizar um estágio, mas realmente gostavam da futura profissão.

Cadê a informação?

Diones - segunda-feira - 15:30 - em casa fazendo trabalho.
Paulo - segunda-feira - 15:30 - em casa fazendo nada.
Ambos com a televisão ligada.

A famosa e peculiar música do plantão da Globo toca e instantaneamente a atenção dos dois se volta para a TV. À espera de uma notícia da morte de alguém famoso, de um desastre ecológico ou de uma tragédia, eles vêem apenas uma tela preta e ouvem a voz de Willian Bonner. A notícia choca tanto que num período de 1 minuto deixa-os mudos e sem ação. É algo inacreditável.

Na hora do Jornal Nacional, o ibope já nem atinge marcas extraordinárias, o que já é comum. A multiplicação dos programas de palco cada vez mais apelativos ao sexo, captam a atenção da maioria dos telespectadores. Jornal é coisa do passado que ninguém mais quer ver. E essa é a única notícia do dia.

Uma decisão frustrante para Diones e Paulo, porém irrelevante e até esperada pela maioria dos telespectadores. Bonner continua a notícia anunciada naquele plantão da tarde. Revela os dados de uma pesquisa realizada em todo o Brasil a respeito do jornalismo. O resultado é que as famílias brasileiras não querem mais Telejornais, pois eles estavam tomando muito tempo da programação nas televisões. O apresentador esquece o texto, quebra o protocolo e com lágrimas nos olhos começa a falar:

- Durante toda a minha vida sempre trabalhei pelo jornalismo. Minha maior preocupação foi levar aos lares brasileiros as informações que elas precisavam saber. As corrupções no governo, as catástrofes do mundo, as vitórias do esporte brasileiro. Hoje, essas mesmas famílias retribuem dizendo não ao jornalismo. Hoje, eu abandono minha profissão, e nunca mais serei um jornalista.

Fenômeno em cadeia

O fato choca toda a classe jornalística. Eles, os que divulgam as informações, sabem como o jornalismo foi infectado pelo espírito capitalista. Sabem como as notícias ruins foram manipuladas e veiculadas para impressionar e atrair as pessoas. Eles, mais do que ninguém, sabem que o mais importante era vender os espaços publicitários cada vez mais caros. Agora, a população não queria mais essas notícias. As pessoas queriam as fantasias e ilusões que os programas lhes davam. A falta de compromisso com a essência da profissão levou todo um país à despreocupação social, a uma paralisação mental.

A exemplo de Bonner, vários jornalistas importantes abandonaram a carreira. Boris Casoy, Chapellin, Ana Paula Padrão. Em menos de uma semana todos os telejornais foram tirados do ar. As emissoras ganhavam imensas quantias de dinheiro com sua nova programação. As empresas não veiculavam mais seus produtos e nomes, assim todas as mídias os jornais foram perdendo força e importância.

O fato foi tão forte que os colegas de classe de Paulo e Diones nem quiseram receber o diploma. Jogaram os quatro anos de estudo fora. As faculdades eliminaram o curso de Jornalismo, anularam as provas dos vestibulares.

Era o fim do jornalismo. O fim da informação.

Os caminhos se cruzam

Diferentes em personalidade, semelhantes em paixões, Paulo e Diones caíram no mercado. Nunca ninguém teve tanta dificuldade para conseguir um emprego como eles, afinal, não havia mais profissionais nessa área. Os que resistiam morriam aos poucos sem anúncios publicitários e com a rejeição popular.  

É bem verdade que os dois colegas passaram quatro anos na mesma universidade, no mesmo curso, na mesma classe. Contudo, não eram muito amigos, apenas se conheciam. Uma coisa era comum aos dois: estavam formados, queriam ser jornalistas e não podiam conseguir isso. E o tempo não os esperava, a correria e responsabilidade da vida os engoliam a cada dia.

Num daqueles dias que o estresse consome o ser e é inevitável chutar o pau da barraca, Diones foi dar uma volta. Era mais ou menos 6 horas da tarde e a maresia acalmava seus ânimos. Pouquíssimas pessoas passavam pelo local. As noites sempre chegavam como o esquecimento do estresse diurno para os trabalhadores. Era o império televisivo sobre as mentes que um dia souberam pensar.

Sentado em um banco de frente pro mar estava Paulo. Assobiando uma canção alegre e fingindo não ter problemas. Ele sempre foi assim. Passava a impressão de que não tinha problemas. Naquele momento, porém, a vontade era de gritar e chorar.

Em sua caminhada, Diones percebeu o rosto conhecido e pensou duas vezes em cumprimentá-lo. Sabe quando você encontra uma pessoa que conhece, mas não tem intimidade? Sempre há uma tendência de virar a cara, né?
Paulo, que sempre foi pra frente, ao reconhecer o colega deu um salto de alegria e falou:
- Cara, há quanto tempo! Como você está?

Agora a caminhada era feita por dois e a conversa ganhou ritmo. O assunto? Jornalismo. Não fazia nem dois meses que toda aquela avalanche de novidades aconteceu. O tão sonhado diploma, o mercado de trabalho e logo em seguida sua extinção, a responsabilidade ainda maior perante a família e os irmão menores, a vontade de casar. Tudo era pauta para o diálogo.

O encontro com a razão

-Ei! Ou! Chiu...
Os dois pararam pra descobrir quem os chamava daquele jeito. Encostado no canto de uma mureta estava um velho barbudo, sujo, com uma sacola ao lado. Era um mendigo. O velho escutou um pedaço da conversa e resolveu chamá-los. Os dois não sabiam se chegavam perto para ouvir, mas foram constrangidos quando o homem novamente mandou que se aproximassem.
A luz era muito fraca naquele local e eles não conseguiam ver bem a fisionomia do miserável. Percebendo que eram jornalistas, ele perguntou:
- Vocês sabem quando o Brasil reconquistou a democracia?
- Claro, em ....
- Quem foi o campeão do brasileirão nesse ano?
- O Corinthians.
- Qual foi a última catástrofe natural?
- Tsunami, Katrina...
- Em qual pé Cicarelli tem 6 dedos?
- Hum, no pé...
- Como é o nome da sua mãe?
- Por que você quer saber? Responde Paulo com muita desconfiança.
- Qual seu maior sonho? Continua o mendigo.
- O que você está querendo, heim? Paulo fala com já saindo do local.
Uma última pergunta: Você sabe quem eu sou? Sabe por que estou aqui?
Não sei, e infelizmente não me interessa...
- Esse é o seu problema: você não sabe o que é ser jornalista! Na certa você chegou à faculdade achando que era o máximo. Deve ter escrito seu primeiro texto achando-o incrivelmente belo. Pensou que escrevia com a simpatia e beleza de Veríssimo, a sagacidade do Noblat e a confiança do Jabor.
O homem se levantou olhando bem nos olhos deles. Foi quando eles reconheceram o rosto de Tim Lopes. Admirados perguntaram:
- M... ma... mas você não morreu? É você mesmo?
- O homem lançou as mãos ao pescoço dos dois mandando-os se calarem. Com raiva nos olhos e baixinho ele disse:
- O que move o jornalista não é isso tudo que vocês responderam. Você precisa da verdadeira informação, e ela está nas pessoas, não no que elas têm, no que elas fazem, mas no que elas são. Se preocupe com as pessoas e se tornará num jornalista de verdade. Corra atrás dela! Corra atrás dela!

Os dois não conseguiam se livrar das mãos de Tim, o rosto já estava vermelho e estavam ficando sem ar quando de repente... Ruben acorda com seu próprio grito de socorro. Foi apenas um pesadelo. Ele havia apenas sonhado. Conseqüência da festa com os amigos de classes, os novos jornalistas do Brasil. Olhando no espelho riu de tudo o que sonhou.

Ao sair pra comprar o pão e o leite, viu na caixa do correio um pequeno papel. Lá estava escrito assim: “Na África todas manhãs uma gazela acordava sabendo que ela deveria conseguir correr mais do que o leão se quisesse se manter viva. Todas as manhãs o leão acordava sabendo que deveria correr mais do que a gazela se não quisesse morrer de fome.

Moral da História: "Não faz diferença se você é gazela ou leão, quando
o sol nascer você deve começar a correr! Bom dia..."

Ruben se lembrou das palavras de Tim Lopes no sonho. E realmente se convenceu de que precisava correr atrás da informação que Tim lhe falou, da verdadeira informação. Mesmo convicto disso, não sabia como. No mesmo momento, um carro buzinou pra ele e um homem lá de dentro perguntou: Olá, você poderia me dar uma informação?

Essa crônica louca é para você formando, que ainda não sabe que caminho seguir. “Não importa por onde andar, mas sim para onde andar.”