Imagine uma estrada de terra vermelha na imensidão esverdeada do campo. Ao olhar para trás, vê-se apenas uma nuvem de poeira. À frente, lá no horizonte, percebem-se o contorno de uma igreja e uma pequena escola, ambas de cor branca. Ao se aproximar, é possível notar o gramado, o piso vermelho da pequena calçada e escada, o hall de entrada da igreja. Por dentro, o assoalho e bancos de madeira escura. Paredes verdes, cortinas brancas de renda, vasos de flores brancos e azuis e a inscrição “Deus é amor” no púlpito.
É dessa forma que a formanda no curso de Jornalismo, Cléia Kattwinkel dos Santos, descreve o cenário que compõe a Igreja Adventista de Boa Vista do Guilherme, cuja história tem se perdido com o tempo. Como não há menção detalhada na história da Igreja Adventista do percurso desta comunidade no Brasil, Cléia, com o objetivo de resgatar os momentos históricos dessa congregação, escreve o livro reportagem Boa Vista do Guilherme: a conquista de uma terra, e o florescer de novas vidas . Um trabalho peculiar que reúne fatos, documentos e relatos de uma igreja fundada há mais de um século.
Preocupada com a preservação das fontes e contextualização do leitor, Cléia mantém as citações dos documentos na íntegra, por isso a grafia parece estranha. É possível interagir facilmente com as histórias relatadas no livro. A descrição que a autora apresenta de cada cena faz com que o leitor imagine o momento em que a mesma ocorreu. Cléia retrata com fidelidade a história desta igreja, cujos pioneiros emigraram da Alemanha para o Brasil em busca de melhores condições de vida.
Friedrich Wilhelm Kümpel, juntamente com sua esposa Helen Pongs Kümpel, seus sete filhos e Otto Kattwinkel, já convertidos ao adventismo, chegam ao Brasil. No mesmo vapor que a família Kümpel, veio também a família de Joseph Lindermann. O livro apresenta evidências de que estas foram as primeiras famílias adventistas a chegarem ao Rio Grande do Sul. A família Kümpel manteve-se em São Pedro até que, após dois anos, Friedrich encontra terras na região que mais tarde foi denominada Boa Vista do Guilherme, hoje pertencente ao município de Lagoa dos Três Cantos.
É nesta região que Friedrich constrói seu lar, a lavoura básica para a sobrevivência e uma atafona, indústria artesanal de farinha de mandioca. Outras famílias também se estabeleceram na região entre o final do século XIX e o início do século XX: Reis, Kattwinkel e Nowack. Essas famílias se misturaram por meio de casamentos e foram os pioneiros da Igreja Adventista de Boa Vista do Guilherme, então conhecida como Igreja de Não-Me-Toque.
Como ainda não possuíam um local apropriado, as famílias reuniam-se na casa de Friedrich, onde estudavam a Bíblia. A visita de pastores não era freqüente, portanto, eles mesmos dirigiam os estudos sem, contudo, desanimarem de sua fé. Finalmente, por volta de 1900, o templo estava construído. A partir de então, o crescimento ocorreu rapidamente. Quando os pastores visitavam a igreja, várias pessoas eram batizadas. Os departamentos foram organizados, como a Liga Juvenil, por exemplo. A animação dos jovens era tremenda e a liderança dos mesmos promovia congressos, reuniões, cursos e excursões. O movimento chamava a atenção dos vizinhos, que acabavam freqüentando o local. Além disso, a congregação possuía uma qualidade musical invejável e uma preocupação constante com a educação da sua juventude.
Com o tempo, muitas famílias mudaram-se para outros lugares. Hoje, cerca de 30 membros congregam na igreja, dentre os quais permanecem as famílias pioneiras, Kümpel e Nowack. Boa Vista do Guilherme é uma obra que reflete e reconhece a importância das famílias que trabalharam em prol da comunidade adventista na região.
|