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Religiosamente pautado

Giancarlo Sorvillo

Você morreria por sua religião? Trocaria sua casa, alimento ou família por causa de sua fé? Sofreria perseguição por ela? Por incrível que pareça, muitos fizeram e fazem isso. Foram queimados em fogueiras, lançados aos leões e torturados por acreditarem na Bíblia. Mas a morte dessas pessoas foi apenas um claro apelo para que outros pudessem fazer o mesmo. Incrivelmente, a imprensa, um dos maiores e mais influentes poderes do planeta, atendeu o chamado. A revista Veja se encarregou de tomar a dianteira nessa importante missão de sacrificar os princípios básicos do jornalismo pela “fé religiosa”.

Tal como nas cruzadas medievais, onde a religião foi usada para matar inocentes e se apossar das riquezas e da Terra Santa, a religiosidade está sendo usada para competir no capitalismo selvagem pelo qual o pós-modernismo submeteu a sociedade atual. Nesse sistema econômico, a regra é a lei da oferta e da procura, assim, torna-se necessário atrair o cliente através de um produto que o agrade. O que atrai e agrada mais o ser humano do que a religião? Desse modo, nota-se uma mudança tanto na imprensa quanto na própria religião, vista, nesse caso, como produto.

Uma das maiores características do pós-modernismo é a relativização dos conceitos absolutos, assim, a fé em vez de ser algo fundamentado no raciocínio da Bíblia, transforma-se apenas em “sentir-se bem”, ou seja, um foco mais emocional. Isso ocorreu principalmente com o movimento pentecostal, que modificou consideravelmente a face da religião cristã. A mídia tornou-se vital para tais denominações que, acima de tudo, buscam manter seus fiéis nas igrejas. O marketing transformou-se numa “inspiração divina” para os pastores, que fazem amplo uso dos meios de comunicação de massa e da publicidade.

Já com a imprensa, os princípios do compromisso com a verdade, clareza, objetividade e imparcialidade, foram mudados para “faço qualquer coisa, mas comprem meu jornal ou revista”. Veja é um exemplo claro desse fenômeno. Ao invés de se manterem na sua linha editorial de resumir e aprofundar a noticia, ela passou a investir em reportagens sobre comportamento e a propor dicas para soluções existenciais de seus leitores. Por isso, a religião tornou-se uma ótima pedida para o cardápio prático e pós-moderno da revista.

O pós-modernismo iguala o sagrado e o profano, além de não promover o compromisso com um estilo de vida mais conservador. Nas reportagens da Veja, é notório que ela compartilha da mesma visão. Suas reportagens têm enfatizado a mistura do sagrado e o comum na vida e nos cultos neopentecostais e o enfoque de celebridades que se converteram ao cristianismo, mas nem por isso deixam de esbanjar dinheiro em luxo e interesses pessoais. Alem disso, o sincretismo religioso entre católicos e evangélicos, aliado ao misticismo oriental, também é destacado. Já na filosofia pós-moderna, o que vale é “sentir a Deus” e não importa o caminho que leve a essa sensação. Para Veja, o que realmente importa é agradar seu público-alvo e sobreviver no mercado, mesmo que para isso necessite se “converter”.