Formado em Jornalismo pelo Unasp em 2004, Fernando Torres é um exemplo de que os caminhos da vida profissional estão aí para serem encontrados. Nessa entrevista, ele fala um pouco sobre as dificuldades do mercado de trabalho (principalmente para os recém-formados), a importância dos estágios dentro e fora da faculdade e sobre os preconceitos que o jornalista deve quebrar para amadurecer profissionalmente.
Canal: Descreva as dificuldades do mercado de trabalho para o recém-formado?
Torres: O mercado de trabalho está realmente muito saturado. Mas esta não é a maior dificuldade. A meu ver, o grande problema é a desvalorização da profissão. Além da velha história de acharem que qualquer pessoa está apta para redigir uma reportagem, os salários são muito baixos para quem está começando. E como a maioria das pessoas se sujeita a isso, ou você aceita o jogo ou pegam sua vaga. Ainda nesta linha da desvalorização, existem muitos caloteiros, “empresários” que querem mão-de-obra gratuita, prometem pagar após as publicações e depois te deixam a ver navios. Hoje, aprendi: não escrevo uma linha sem um contrato previamente assinado.
Canal: Você acredita que estava preparado para o mercado quando saiu da faculdade?
Torres: Sim, eu me senti preparado ao sair do Unasp. Mas o resultado da faculdade depende muito do aluno. A grade curricular é satisfatória, mas não é o suficiente. A meu ver, mais importante que o quadro-negro é a experiência em estágios dentro da própria faculdade (e viva o CANAL !!!) e em veículos externos.
Canal : A universidade deve assumir responsabilidades em relação à vida profissional do aluno?
Torres: É bom que a faculdade se preocupe em estabelecer conexões entre a sala de aula o mercado de trabalho. Além de essas parcerias facilitarem a vida do aluno – indicações são fundamentais para o ingresso no mercado –, a própria faculdade cresce com isso, pois cria uma identidade entre os aspirantes à profissão. Como exemplo, cito a Universidade de Sorocaba (Uniso), que tem um projeto de parceria com a TV TEM (afiliada da Rede Globo em Sorocaba), em que quatro alunos selecionados do 4º ano trabalham lá por meio período ao longo de um ano (remunerado). Ora, se o estudante for bom, ele pode conseguir uma vaga na rede, em Sorocaba mesmo ou nas retransmissoras espalhadas pelo interior de São Paulo. O Centro Universitário de Maringá (Cesumar) também tem essa preocupação, mantendo ligações com a Fashion House (agência de assessoria de imprensa em moda) e algumas revistas e jornais locais.
Canal: O que é utopia e o que é realidade fora da faculdade (em relação ao que aprendemos)?
Torres: Na minha experiência, uma das utopias foi a questão do respeito com seus princípios e crenças pessoais. Hoje, as pessoas estão muito abertas a diferentes formas de pensar. O diferencial a que o Unasp acostumou seus alunos é visto como algo positivo e não cafona. Mas esta é a minha experiência. Sei de alguns amigos que tiveram dificuldades nesse sentido.
Canal: Como o mercado avalia o nome “Unasp”?
Torres: O mercado ainda não avalia o nome Unasp, simplesmente porque ele não é conhecido. O curso é muito recente para criar uma marca entre as empresas de comunicação. Destaco, no entanto, que alguns profissionais com quem tive acesso já se manifestaram em relação à qualidade da faculdade, a partir de determinados conteúdos que discutimos. Cabe a nós, recém-formados, estarmos criando a “fama” do Unasp. Outra coisa: aqui no Paraná, pelo menos, vê-se com bons olhos uma graduação no Estado de São Paulo.
Canal: Conte suas “peripécias” para encontrar trabalho. (Onde foi, com quem falou, micos que pagou, etc..)
Torres: Peripécias?! Olha, são muitas viu. Depois que me formei, fiquei muito cara-de-pau. Isso é bom. Não costumo entregar currículos na recepção: sempre procuro falar com o editor responsável - além de isso não ser muito difícil, as chances de rolar alguma coisa são muito maiores. O que eu faço, geralmente, é ligar antes, já com o nome da pessoa responsável e marcar um horário. Cresci muito em termos de jogo de cintura. Já consigo vender o meu peixe bem melhor que no começo do ano.
Um mico?! Bom, eu tenho uma pequena dificuldade com relação à pontualidade. Certa vez, marquei uma entrevista para as 9h da manhã. Só que era muito longe e tudo aconteceu no caminho. Acabou que eu cheguei lá às 10h30, uma hora e meia de atraso. O editor já tinha ido embora. Não preciso contar o que aconteceu, não é?!
Canal: Você está trabalhando para quem agora?
Torres: Atualmente sou repórter das revistas ZAZ , na área de comportamento, e Mídia e Saúde , de Maringá, e do jornal house-organ da Santa Casa de Maringá. Além disso, faço algumas reportagens como free-lancer para a Vida e Saúde , da Casa Publicadora Brasileira (CPB), e escrevo sobre literatura para a revista TRY , do Rio de Janeiro. Mas já rodei um pouquinho, viu! Em Tatuí, cidade dos meus pais, fiquei um tempo como repórter de cidades e do suplemento de agronegócios do jornal O Progresso de Tatuí . Em Sorocaba, trabalhei por um mês como redator da página de Brasil (política e economia) do Diário de Sorocaba . Depois que vim para Maringá, por causa do mestrado, trabalhei por seis meses como repórter e editor das revistas Ingá Noivas e Ingá Formandos .
Neste sentido, considero vitoriosa minha experiência este ano. Por trabalhar com tantas áreas diferentes, quebrei muitos preconceitos e aprendi a lidar com diferentes tipos de público – das plantações rurais do suplemento de agronegócios às descrições de vestidos e maquiagem da revista de noivas, é um longo caminho, não?! Pasmem: adoraria que meu próximo desafio fosse nos campos de futebol. Tem muita coisa a explorar nesse segmento.
Canal: Você continua estudando. Qual a importância do suporte teórico para o jornalista?
Torres: Um dos meus objetivos é a área acadêmica. Então, tenho que investir nesse suporte teórico, em mestrado, doutorado, enfim... Agora, se o recém-formado visa mais ao mercado de trabalho, uma especialização lato-sensu é mais conveniente. Agora uma coisa: você tem que se valorizar.
Canal: Fale para os formandos deste ano a respeito de o que eles devem estar preparados para enfrentar. Deixe uma mensagem para os alunos do curso.
Torres: Bem, quem sou eu para dar conselhos?! Mas vamos lá! Muitos torcem o nariz pra certos segmentos da imprensa. Nada mais preconceituoso e retrógrado. O bom jornalista é aquele que sabe escrever sobre tudo, desde política, cultura, economia, polícia, turismo, moda, esporte - bom, vai, até celebridades (esse preconceito eu ainda tenho... preciso quebrá-lo!) Isso não significa que nós temos que ser versados em tudo. Sempre vai haver uma área com que nos identificamos mais. Mas o verdadeiro jornalista é eclético, generalista e sabe lidar com suas fontes e traduzir o que elas estão dizendo em palavras acessíveis e palatáveis a seu público.
Agora, entenda a diferença entre aceitar trabalhar com qualquer coisa e aceitar qualquer coisa. Não! Você tem um preço, a sua faculdade custou muito caro, tanto em termos financeiros quanto intelectuais. Aceitar fazer qualquer coisa, por qualquer quantia não é a melhor forma de entrar no mercado de trabalho. Sujeitem-se, sim, mas estabeleçam o quanto vale o seu trabalho. Lembra daquela história de mais-valia pregada por Marx? Cabe a você e não ao seu patrão lembrar-se do quanto ela é verdadeira. (E não acreditem no que ouvem. Façam contratos!!!)
Pra encerrar, agora não dá mais falar em desistência. Então , agarrem-se aos contratos e bem-vindos ao mundo real. |