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| ... fundadores das organizações Globo e grupo Abril ainda estivessem vivos? | |||||||
Thiago Campossano |
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Por dois anos é nesse ambiente que essa figura encontra refúgio para seus maiores medos. A degradação de seu império já era vista há mais de quinze anos e, encurralado pela ganância de seus subordinados, Roberto Marinho se via cada vez mais falido intelectualmente. Foi em agosto de 2002... Os finais de tarde em sua casa eram caracterizados por sua chegada apavoradora. Gritos, objetos lançados ao chão, portas esmurradas e sempre o ruído final. Os empregados já sabiam, Marinho estava caído ao chão chorando desesperado. Ele sempre dizia: “O que houve? O que eu fiz de errado?” Como que vendo uma porta se abrir deixando a luz penetrar o escuro túnel em que se encontrava, naquele dia em especial o visionário recebe a notícia dos lábios da fiel empregada: “Sei de alguém que pode ajudá-lo”, ela sussurra. “Todos pensam que ele está morto, mas eu sei onde ele está. O nome dele é...” Marinho sente uma esperança se fortalecer no peito ao ouvir o nome Victor Civita, fundador do Grupo Abril. Marinho não titubeou e quis logo saber onde o encontraria. Ele, mais do que ninguém sabia que Civita já havia completado doze anos no caixão, porém, sabia mais do que ninguém o que as pessoas são capazes de fazer para proteger sua imagem. Tudo o que Marinho recebeu foi um pedaço de papel rasgado com as seguintes inscrições: “civita@hotmail.com”. A empregada saiu e não voltou no outro dia, nem no outro, nem no outro depois do outro... Um passo difícil... As decisões eram tomadas a cada dia nas redações, escritórios e diretorias de seu fabuloso império Globo. Seis meses passaram como águia rasgando o céu e o segredo de Marinho era guardado em uma pequena caixa no fundo de seu guarda-roupas. Até que num dia, ao chegar em casa, liga o computador. Não era uma coisa muito comum, pois os empregados só o viam assim quando realmente precisava. Conexão banda larga, Marinho decide entrar no mundo da vida virtual. Suas mãos suavam e tremiam, mas continuavam. Após alguns minutos, depois de todo processo de cadastro virtual, Marinho abre aquele programete azul claro, o MSN. Nenhum contato, nenhum e-mail, ninguém. Olha para o lado e vê o guarda-roupas. Vai até ele, abre sua porta, pega a caixa e retira o papel. Agora, mais eufórico, senta-se em frente ao computador novamente e adiciona Civita à sua lista de contatos na esperança de realmente encontrá-lo ali. Que triste! Tudo o que vê alguns minutos depois é um bonequinho cor rosa avermelhado ao lado do nome do amigo. Civita está off-line... E assim prossegue. Marinho abre seu MSN todos os dias ao chegar em casa na esperança do reencontro. Para quem conhece, quando um amigo se conecta ao MSN um som é lançado nas caixinhas pelo próprio programa e - naquela noite de maio - Marinho já dormia quando o som ecoou. Assustado levantou-se e abraçou seu travesseiro. Não entendendo de onde o som havia saído ele se esgueirava na cabeceira. Olhou para a tela do computador e sentiu que havia algo diferente. Desceu da cama e chegou perto. O mesmo bonequinho agora tinha a cor verde. Passou o mouse em cima e viu “on-line”. Não sabendo como se comunicar com seu amigo, entre lágrimas Marinho começa a bater no teclado, na tela e tudo o que via pela frente. De repente outro som surge e pisca algo alaranjado. Não demora muito e a alegria do reencontro já se faz presente... What happened? Civita diz que o tempo para eles conversarem é curto e por isso Marinho precisa apenas ler. Victor Civita conta que está escondido, pois havia perdido o controle da Abril e que está muito contente de reencontrá-lo. Revela que as coisas no país todo se encaminham para um trágico fim e que ele precisa fazer algo enquanto pode. Marinho lê atentamente, mas sem entender bem ao certo. Já se despedindo Civita diz que Marinho precisa ter em suas mãos o controle da Abril também. “Amigo, tenha força e coragem. Faça o que deve ser feito. Nos encontramos em breve...” Revolução? O dia amanhece e Marinho se dirige para sua nobre função. Anuncia uma reunião com todos os diretores de todos os setores de seu imenso império da comunicação. Não importando o que aconteça todos devem comparecer no dia seguinte para a reunião. Chega o dia, os dirigentes também e a reunião começa. Pelo fato de uma reunião repentinamente ser anunciada, todos se preocupam com seu destino. O plano de Marinho havia sido arquitetado durante todo o dia que se passou e sem rodeios ele vai direto ao ponto. - Precisamos dar um basta nesse movimento! Começa com forte tom de voz. O império Globo precisa se purificar das corrupções, da ganância, dinheiro, fama e poder! Os programas nunca foram tão abusivos, sexuais e pervertidos. O jornalismo nunca foi tão capitalista. A educação nunca foi tão comercializada. A partir de hoje todos irão passar por testes e novas entrevistas. Se não podemos cortar o mau pela raiz começaremos pelos galhos grandes, vocês! Além disso tudo, vamos comprar o Grupo Abril! Quero ter o domínio da comunicação impressa que essa organização detém no país. Precisamos de uma reforma! A ruína se aproxima... As semanas passam e Marinho segue avante sua reforma. O grupo Abril também sofre fortes alterações de comando com sua direção. Paralelo a essa revolução, um enorme grupo dentro do novo império se une para fazê-lo parar. A reforma começa a sofrer resistência. Até seu corpo apresenta sinais de cansaço a cada dia que passa, pois os reencontros com Civita tornam-se comuns em todas as noites. O desespero só aumenta no coração de Marinho por ver seus esforços afundarem. O fim do ano se aproxima e Marinho desespera-se cada vez mais. Sem ter pra onde correr, naquela quarta-feira (6 de agosto de 2003) decidi ir para um local de onde possa comandar seu império sem correr riscos físicos. Seus subordinados se assustam ao receberem a notícia que agora seriam comandados virtualmente. Marinho daria as ordens e eles deveriam seguir à risca. E assim se fez... Mesmo assim, Marinho sente no fundo um medo inexplicável. Parece que está tudo bom demais pra ser verdade. Parece que algo de errado acontece por baixo disso tudo... É nesse momento que voltamos ao início da história. Roberto Marinho está mesmo conversando com Civita. Civita está mesmo conversando com Roberto Marinho. Do lado de Roberto Marinho existem várias cadeiras jogadas, mesas viradas, equipamentos cinematográficos velhos, fotos rasgadas, fios e cabos espalhados e o velho logo da TV Globo empoeirado no canto. O que aconteceu é que Marinho foi infectado pelo grande vilão atual, a internet. Ao ver seus esforços de 50 anos atrás se perderem nos prazeres fúteis da população, Marinho achou seu “refúgio” na vida virtual que a tela do computador lhe proporcionava. Não sabendo o que fazer, seus familiares o internaram numa clínica secreta, feita apenas para pessoas com essas características: idosos, ricos, revolucionários para o bem, porém, fracassados. E a mídia? Declarou-o como morto, o que não deixa de ser verdade. E do outro lado? Ao lado de Civita existem praticamente as mesmas coisas. A diferença é que ao invés de fios e cabos há revistas rasgadas; do logo do TV Globo está o da Editora Abril; etc. Os lendários nomes da comunicação brasileira estão separados fisicamente apenas por um biombo de escritório. Roberto Marinho é apenas um novato nessa clínica onde vários outros já passaram ou ainda estão, como Civita. Os prazeres fúteis de uma rica população também movimenta e corrompe a indústria Abril. O que era pra educar e desenvolver o país, hoje, em muitos famosos periódicos, apenas o mantém num nível baixíssimo de conhecimento. E Civita também foi vítima do transtorno mental do qual Marinho agora sente. Afinal, o que é verdade nessa história? O nascimento... A infância... A juventude... O crescimento profissional... As conquistas... A vida desses lendários homens da comunicação brasileira! Ah, há outras coisas que são verdade também: A corrupção... A ganância... A fama... O dinheiro... O sexo, assassinato, mentiras e ilusões que entraram ao longo dos anos em seus corajosos projetos! É o fim? O verdadeiro método de educação consiste em o instrutor dominar o máximo possível das habilidades de entrar no mundo do aprendiz, e fazê-lo compreender tudo que sabe. O objetivo geral da educação é “ensinar&aprender”, havendo aqui uma questão a se ponderar: não é tarefa apenas do educador alcançar o objetivo, nem apenas do aluno. É dos dois! Tal objetivo também devia ser alcançado na comunicação brasileira – produtores (comunicadores) e reprodutores (população). A diferença é que cada um quis tomar para si porcentagem maior do que lhe cabia no processo de “ensinar&aprender” sem ao menos saber a que lado pertenciam nesse fenômeno. Talvez se Roberto Marinho e Civita ainda estivessem vivos a luta pelo alcance desse objetivo resultaria na ficção proposta. Ou pior, talvez eles também seriam infectados pela confusão de responsabilidades desse processo. Pode ser por isso que não estejam mais entre nós. O problema é que com eles ou sem eles o objetivo ainda não está sendo alcançado, ou melhor, apenas está sendo pervertido. |
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