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Pequeno Gigante

Angélica Maffi

Histórias de reis e princesas são lindas. Elas atraem, mesmo hoje, os amantes da literatura infantil. Esse mundo encantador de fábulas mistura sonho e realidade, tornando os fatos surpreendentes. Há os que negam a possibilidade de viver uma fantasia, outros, a concretizam fazendo disso o seu cotidiano. Os personagens de nosso conto darão vida à trama histórica a seguir. São eles: os fundadores do grupo Estado.

Em 1875, mais precisamente em 4 de janeiro, circulava pela primeira vez A Província de S. Paulo . O mais antigo jornal de São Paulo ainda em circulação. Fundado por 16 pessoas, garantiria o fim da monarquia e escravidão. A província nessa época encontrava-se em franco desenvolvimento. Era a chegada da ferrovia.

Com o grande avanço tecnológico, as estradas de ferro deram maior sustentação ao novo produto rentável: a comunicação. Então, o "bebê" gerado por nobres intelectuais, entre eles Manoel Ferraz de Campos, foi tomando corpo. Em 1875, existiam outros dois jornais: o Correio Paulistano , de 1854; e o Diário de São Paulo , de 1865, ambos atualmente extintos.

O nome O Estado de São Paulo surgiu em 1890, após o estabelecimento da nova nomenclatura para as unidades federativas da República. O que destacou o jornal foi seu engajamento com a ideologia republicana e abolicionista. Até então, nenhum outro assumira esse caminho. Seus textos fomentavam a idéia de um estado livre. Francisco Rangel Pestana e Américo de Campos foram os primeiros redatores.

Sua tiragem inicial era de 2000 exemplares. Um número bem significativo diante do número de habitantes, que nessa época chegava a 31 mil. O impresso contribuiu para desenvolvimento político do País e, por ser o principal veículo da maior cidade republicana brasileira, tinha maiores responsabilidades. Em 1888, meses antes da proclamação da República, Euclides da Cunha, um rebelde das forças do exército começa colaborar com O Estado fazendo uso de pseudônimo. Era visível o crescimento que atingia o "pequeno". Neste mesmo ano O Estado atingia a marca de 4 mil assinantes. Em menos de 2 anos essa tiragem dobrou. A evolução do jornal se estabilizou nos dez mil exemplares, estagnado não por falta de leitores, mas pelas limitações do equipamento gráfico.

A alegria torna-se completa com seu primeiro "brinquedo", ganho na Campanha de Canudos: uma nova máquina de reprodução. A tiragem pula para 18 mil exemplares, ansiosamente esperados pelos leitores, pois os impressos continham reportagens enviadas por Euclides da Cunha através do telégrafo.

A paternidade é assumida exclusivamente por Júlio de Mesquita em 1902, ele, que era redator desde 1885. Evento tão importante, quanto a inauguração da primeira usina hidrelétrica para o fornecimento regular de energia da cidade, que se deu em 1901. O jornal acompanhava proporcionalmente o crescimento da população, que agora duplicara desde a chegada da ferrovia. O ano foi marcado também pela primeira dissidência liderada por Júlio de Mesquita e Cerqueira César. O plano traçado designava uma linha de oposição aos governos estadual e federal.

Em 1930, o jornal apoiou a Aliança Liberal e a candidatura de Getúlio Vargas à Presidência. Neste mesmo ano atinge seus 100 mil exemplares, lançando um suplemento aos domingos em RotoGravura*, com destaque a ilustrações fotográficas.

O Grupo

O grupo Estado que até então contava apenas com o jornal O Estado de São Paulo , fortalece-se com o Jornal da Tarde , um diário com ênfase nos problemas urbanos. Ambos, dois anos mais tarde sofreram censura por seu perfil contrário ao do regime militar. O jornal resistiu bravamente à censura. Passou a publicar poemas de Camões e receitas culinárias no lugar das reportagens proibidas.

Em 13 de dezembro de 1968, O Estado é impedido de circular por ordem da ditadura militar. A arbitrariedade deu-se após um editorial escrito por Júlio de Mesquita Filho. Sem esmorecer o grupo cria forças através da implantação de novos meios. Em 1970, nasce a "Agência Estado". Em 1972, os "Estúdios Eldorado".

Para Júlio de Mesquita Neto, 1974, foi um ano glorioso. O jornalista recebeu em nome dos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde , o prêmio Pena de Ouro da Liberdade outorgado pela Federação Internacional de Editores de Jornais.

E por mais tempo que passe, o "menino", que antes parecia sem força, cresce e cresce. Através da repressão e censura, ainda assim, consegue ser um veículo reconhecido mundialmente por sua credibilidade. Indicado por associações como o maior e mais completo diário. Concorrendo com jornais europeus e norte-americanos.

A tradição de terminar histórias com "felizes para sempre" não será quebrada. O Estado , nosso pequeno gigante, desenvolve-se mais a cada exemplar, ganha confiança e permite ao povo brasileiro orgulhar-se de suas origens. Agora novos capítulos desse fascinante conto podem ser encontrados nas páginas dos livros A Guerra , de Júlio de Mesquita e São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole , lançados em 2002.

* Impressão apresentando o grafismo em baixo relevo .