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Pautas de arte

Tiago Cabreira

31 de março de 1964. Censura, terrorismo, tortura e guerrilha. Duas décadas de liberdade acuada e cativa, sem voz, sem palavras. Só gritos e gemidos sob a mordaça, marcados por confrontos sociais e políticos. A pior de todas as fases da história brasileira: anos que se sobreviveu ao regime militar.

A única saída, para um povo preso pelo terror, era imprimir na " Folha " todas as ansiedades de uma sociedade civil que se organizava para restabelecer o Estado de direito e a democracia. Pinceladas e riscos, na maioria das vezes, inacabados pela censura. "Folhas" brancas em oposição, ou carregadas de emoção e consternação. O papel tornou-se uma espécie de porta-voz da dor de um povo invadido pela repressão.

Eis que surge uma cumplicidade entre o "povo-autor" e a " Folha ". Papel e tinta se misturaram as mãos a fim de cavar buracos na cela imposta pelo regime. Assim, retrata-se a Folha , sempre disponível a uma sociedade civil que risca e rabisca seus ideais democráticos. Na verdade, uma tela transparente na qual a informação pode ser vista pelos seus dois lados.

Soldado da liberdade

No final dos anos 50 e início dos 60, a Folha adotou a imparcialidade como política redacional. A época, regime militar, não era propícia, mas a sua ousadia fortaleceu a voz da opinião pública, e desempenhou um papel que o regime jamais esperara.

Durante os vinte anos de regime militar, a Folha dispôs de maneira determinada e corajosa o acesso à mídia de pessoas aterrorizadas pelo Exército. Ambos os lados - governo e imprensa - utilizavam a mesma arma de batalha: censura. Embora o governo pudesse censurar os meios de comunicação, o jornal não permaneceu no silêncio e cobriu de elogios às páginas opinativas e as passeatas estudantis do Rio de Janeiro; pregou eleições diretas para Presidência e atacou o governo militar.

A liberdade de imprensa começou a alargar-se. Os alicerces do regime começaram a rachar. O tombo era inevitável e o fim inaceitável. Os militares viram-se diante da alternativa de censurar a Folha . Em setembro de 1977, o jornalista Lourenço Diaféria foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional devido a um artigo que publicou duas semanas antes de sua prisão. O exército considerou a publicação ofensiva a seu patrono, o Duque de Caxias.

A resposta veio cedo. Na manhã do dia 16 de setembro daquele ano, os leitores receberam o jornal com uma longa coluna em branco, de cima a baixo, no canto direito da última página da "Ilustrada". No alto, como de hábito, estava escrito o nome do colunista. No pé, depois de mais de 40 cm sem nenhuma letra impressa, uma Nota da Redação esclarecia: "A crônica diária de Lourenço Diaféria deixa de ser publicada em virtude de o cronista ter sido detido às 17h de ontem pela Polícia Federal, conforme noticiamos na Primeira Página".

A Folha apoiara editorialmente, treze anos antes, o movimento militar. O jornal sustentara a deposição do governo constitucional de João Goulart, na virada de março para abril de 1964, porque considerou ter havido esquerdização do governo. No entanto, nos anos 70 se engajou na redemocratização do país.

Em virtude de sua posição, o veículo sofreu com a força do fogo e a crueldade do regime. No dia 21 de setembro de 1971, quatro militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional) incendiaram duas camionetes da Folha . Nada novo para o jornal que em dezembro de 1924 foi proibido de circular, após ter apoiado o movimento tenentista.

Mas a verdadeira destruição veio seis anos mais tarde com o título: "Político derrotado nas urnas, pensa que vencerá pelas armas". Na noite do dia 24 de outubro de 1930, a multidão que comemorava a deposição do presidente em São Paulo destruiu as instalações da Folha . As máquinas de escrever e os móveis foram jogados na rua e queimados.

Folha -"Já"

No período em que o descontentamento popular com relação ao regime ditatorial atingiu seu ápice, e a campanha em favor das eleições diretas para presidência se consolidou, o jornal abre suas páginas para o debate de idéias que fervilhavam na época. A Folha percebe a carência da sociedade por mudanças e decide fazer campanha para a redemocratização do Brasil.

O jornal traça o plano de criar um jornalismo crítico, apartidário e pluralista. O primeiro passo foi pressionar o governador para que o movimento tivesse um caráter popular.

Em 1983, a Folha começou a fazer pesquisas de opinião pública, a fim de medir opiniões e intenção de voto de modo rápido e sem perda da precisão científica. Um ano depois, o departamento de pesquisa do jornal recebe o nome de Instituto Datafolha - hoje uma referência em pesquisas eleitorais no País.

Logo, as Diretas-Já percorreram o país, e as reuniões populares cresceram até chegar às grandes manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas as eleições para presidente só vieram em 1989. A democracia significou para a Folha que os desafios seriam outros.

Na mira da Folha

Durante as diretas, a Folha manteve-se independência em relação aos partidos. Entretanto, houve um editorial que criticou a espetacularização da política e as ilusões televisivas difundidas por Fernando Collor de Mello.

Menos de dez dias depois de tomar posse, Collor autorizou a Receita e a Polícia Federal a invadir o jornal. O pretexto da invasão era conferir se o jornal estava cobrando faturas publicitárias em cruzados novos ou na moeda recém-criada, o cruzeiro. Quatro meses mais tarde o presidente da república processou o diretor de redação e outros três jornalistas da Folha .

Assim, o jornal procurou direcionar seu foco em "fiscalizar o governo". O cumprimento da meta foi numa série de campanhas, entre as quais destacam-se a defesa do voto secreto, a construção de habitações operárias, o direito às férias, a regulamentação do trabalho para menores em fábricas e a ampliação da rede escolar.

Foi deste modo, que na manhã de 8 de agosto de 1986, uma sexta-feira, a Folha chegava às bancas com uma preocupante manchete: "Brasil prepara local de teste nuclear". O jornal revelava um segredo militar 16 meses depois de os generais deixarem o poder.

O jornal contava que o governo brasileiro estava construindo instalações subterrâneas para provas nucleares e armazenamento de lixo atômico na base aérea da Serra do Cachimbo, sul do Pará. Um dos poços, com 320 metros de profundidade, já ficara pronto e custara cerca de US$ 5 milhões.

No finalzinho de 1998, uma reportagem provoca o reinicio da investigações do caso PC Farias. Paulo César Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, morrera na madrugada de 23 de junho de 1996, na companhia da namorada, Suzana Marcolino da Silva. O laudo médico concluía que Suzana assassinara PC e, depois, suicidara-se.

O médico-legista Fortunato Badan Palhares, sustentava que Suzana e o tesoureiro mediam, respectivamente, 1,67m e 1,63m. A Folha resolveu checar as informações. Na primeira página do dia 24 de março: "Fotos derrubam laudo da morte de PC". As fotografias mostravam que Suzana era bem mais baixa do que o namorado. Tinha menos de 1,60m.

Em 1991, a Folha é o primeiro órgão da imprensa brasileira a pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, que renunciaria no ano seguinte. M ilhões de pessoas foram às ruas pedir o impeachment de Collor, em 1992. A Folha foi também.

Do mesmo modo, o jornal acompanhou o plebiscito que decidiu se o Brasil continuaria uma república presidencialista, a morte do papa João Paulo II, as CPIs do governo Lula e todos os fatos que marcaram a história dos brasileiros. Um jornalismo pluralista, crítico, moderno e independente a serviço do verde e amarelo.

Um grupo de arte

Mas o artista não vive só de papel. A Folha hoje, é um grupo de comunicação, não só de mídia impressa, mesmo dependente dela. Internet, novos jornais e gráfica de revistas diversificam as atividades do grupo.

Em 80 anos a Folha é muito mais que dois milhões de toneladas de papel e 26 mil toneladas de tinta. A Folha tem o domínio da arte de fazer um jornalismo de peso, que "aflige os satisfeitos e satisfaz os afligidos". E isso só faz quem sabe retratar a vida como ela é.