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Paixão Nacional

Iale Azevedo

Aos 40 anos de idade e em boa forma, a Rede Globo é modelo em todo planeta. Ela é considerada a quarta maior rede de televisão do mundo, ficando atrás apenas das três norte-americanas NBC, ABC e CBS. Possui 113 emissoras, entre geradoras e afiliadas, e cobre mais de cinco mil municípios.

Nestas quatro décadas, a Globo com o seu padrão de qualidade, já emocionou, irritou, mobilizou, alegrou, entristeceu e ditou moda. Sua programação tornou-se referencial. Quando se pensa em um telejornal, Jornal Nacional é o favorito. Quando se fala em telenovelas, a TV Globo lidera. Durante toda a semana, no horário entre as 18 e as 24 horas, concentram-se os programas mais visto do País. São os líderes de audiência, jornais, telenovelas e entretenimento. O chamado "horário nobre", onde, os grandes anunciantes, pagam pequenas fortunas por 30 ou 45 segundos de propaganda.

Das 24 horas diárias no ar, a maior parte da programação é criada e realizada nos estúdios da própria Rede Globo. Para isso, conta com cerca de oito mil funcionários. Metade destes profissionais está envolvida diretamente na criação dos programas. São autores, diretores, atores, jornalistas, cenógrafos, figurinistas, produtores, além de técnicos nas mais variadas especialidades. No período de um ano, a Globo grava e exibe diversas novelas, minisséries e programas humorísticos, o que a coloca na posição de maior produtora de programas próprios de televisão do mundo.

Muitas dessas produções são exportadas. Com elas, vai o jeito de falar, a beleza e a cultura brasileira. Mostra que apesar de sermos um país de terceiro mundo, somos os primeiros em algumas áreas. E nisso, a Globo contribui muito. Com a apresentação de um país bonito, a curiosidade de ver que o Brasil não se resume a "favela da rocinha", cresce e, conseqüentemente, o turismo também. Novelas como Pecado Capital, A escrava Isaura, Pai Herói, Roque Santeiro, Vale Tudo, O Salvador da Pátria, Renascer, Terra Nostra, O Clone, Mulheres Apaixonadas, Laços de Família, já foram vistas em grande parte do planeta.

Nessas produções, além de lançar moda, a Globo sempre procura discutir temas atuais. Ciência, política, ou mesmo violência e criminalidade. Um exemplo claro disso aconteceu na novela O Rei do Gado, quando o Movimento dos Sem-Terra entrou para a trama dois meses após a morte de 19 integrantes do grupo em Eldorado dos Carajás (PA). Na época o presidente do MST, João Pedro Stédile, disse: "A novela ajudou a fazer as pessoas nos olharem de maneira diferente. Nos deu status de cidadãos".

"Não é brinquedo não", "stop salgadinho", "e o salário ó", "vem cá, te conheço?", são alguns dos muitos bordões que invadiram a "boca do povo". A primeira novela a lançar moda foi Dancin'days, em 1978, ao difundir as discotecas e popularizar as meias "lurex". Depois disso, vieram os cortes de cabelos channel, os blazers enormes, lenços no cabelo imitando a "viúva Porcina". Em "O Clone", Jade, a personagem de Giovanna Antonelli, fez as vendas de anéis e pulseiras quadruplicarem. A tendência para o verão/2006, veio com a trama Belíssima. O modelito da personagem Vitória, está em todas as vitrines de shoppings.

Mas não é só de entretenimento e novelas que a Rede Globo de Televisão vive! Há um grande espaço para os telejornais. Onde tem notícia, a Globo está ali para buscar informações e apresentá-las aos telespectadores. O Jornal Nacional foi o primeiro telejornal a ser veiculado em todo o território nacional, e, até hoje, é líder de audiência nessa categoria. Atrás dele veio Jornal Hoje, Jornal da Globo, Fantástico, Globo Repórter e outros.

Grandes acontecimentos na história tiveram a cobertura do jornalismo da Globo. Entre eles estão: a queda do muro em Berlim, Guerra do Golfo, Rio-92, morte de Tancredo Neves e Ayrton Senna, morte do Papa João Paulo II, todas as eleições presidenciais, o caso PC Farias, atentados ao World Trade Center, as copas do mundo, sem mencionar as séries de reportagens que são produzidas com investigação e denúncia e o jornalismo comunitário. No livro Jornal Nacional a notícia faz história (Jorge Zahar, 2004), o diretor executivo de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, afirma que "quando acontece alguma coisa, a Globo é sempre a primeira a mostrar e, a partir daí, os jornais fazem suas pautas".

Mesmo tentando sempre mostrar a "imparcialidade", a Rede Globo várias vezes tomou rumos que a fez alvo de muitas críticas. Algumas delas interferiram na opinião do povo. Talvez, o caso mais conhecido, tenha sido o debate entre Collor e Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 1989. A emissora editou o debate selecionando os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. A TV não omitia o apoio a Collor na disputa presidencial, levando a população a votar nele. Em 1992, a Globo tentou se "desculpar" sendo favorável ao impeachment.

Roberto Marinho muitas vezes colocou e tirou ministros. Antônio Carlos Magalhães e Maílson de Nóbrega, por exemplo, assumiram o Ministério das Comunicações e o Ministério da Fazenda, respectivamente, a mando do dono da Rede Globo. E o que dizer da ditadura militar? Não foi à toa que em 1972, o presidente Médici disse: "Fico feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz". Um estudo da pesquisadora Susy dos Santos, da Universidade Federal da Bahia, mostrou que pelos menos 40 afiliadas da Globo pertencem a políticos locais. Os Magalhães, na Bahia, os Sarney, no Maranhão, os Collor, em Alagoas.

Por outro lado, a Globo também se preocupa com o lado social do País. Entre os projetos e ações sociais desenvolvidos, está a campanha Criança Esperança realizada há 16 anos. Além de arrecadar fundos para o Unicef, tem como objetivo conscientizar e mobilizar a população e as autoridades para a situação da maioria dos jovens do país e divulgar os direitos da criança.

O Globo Serviço é um selo permanente que assina peças de campanha nas áreas de educação e saúde, como a de amamentação, segurança no trânsito, vacinação, alerta contra a violência familiar. Também, abre espaço gratuitamente para campanhas que ajudam hospitais, bancos de sangue, creches e sociedades que se dedicam às populações carentes. Foi a Rede Globo que liderou a primeira campanha pública contra a Aids. Em sua preocupação com o serviço social, as Organizações Globo criaram a campanha de incentivo à leitura inserida no intervalo das transmissões esportivas, além de outras como Amigo da escola, Ação global, Globo e a universidade.

Após 40 anos como líder da televisão no Brasil e em plena "idade da loba", a Globo se tornou uma paixão nacional. Claro, há quem não goste, quem critique. Mas, para poder criticar a programação desta emissora, é necessário assisti-la! Para alguns, o que a Rede Globo diz tem credibilidade. Para outros, a Globo só chegou aonde está, graças a essa "politicagem" que faz de peito aberto e a barganhas políticas. Em alguns momentos esqueceu que uma emissora não pode se posicionar a favor ou contra, e sim, veicular a verdade. Mas também não faltam motivos para tratá-la como agente modernizador e orgulho nacional. A Rede Globo de Televisão tem uma grande dívida com o Brasil. Mas o Brasil também deve muito à Rede Globo.