Tudo escuro. Silêncio. De repente, surge uma luz do alto, algo singelo, mas que diante da platéia calada transforma-se num gigantesco retângulo branco. Os olhos dos homens permanecem fixos na tela na espera de quaisquer movimentos, sons, cores e imagens. A partir de agora, tudo é surpresa.
Imediatamente algo cai no chão aveludado. Um objeto tão sutil que passa inaudível pelos espectadores, mas que é acompanhado por outro e mais outro e outro. São várias pipocas e elas caem em todos os cantos, formando pequenos flocos brancos sobre as poltronas, o chão e a própria platéia hipnotizada pelo ver e comer.
Mais adiante se ouve um pedido de silêncio no fundo da sala. Todos se acomodam, ajeitam o refrigerante e a pipoca e certificam-se que os celulares estão desligados. Alguns ainda tecem seus últimos comentários com os amigos, namorada ou família e por fim preparam-se, pois o filme vai começar.
Inteligência à parte, cinema é excitante, atraente, animador, incendiário, fascinante e surreal. É uma forma intensa de crer no fantasioso "felizes para sempre". Na verdade, uma maneira de fugir das mazelas da realidade e viajar num mundo mágico, onde tudo dá certo.
Discretamente, a Globo Filmes insere as maravilhas do seu mundo nas mentes e nos corações de milhares de brasileiros. Famintos por pipoca e imagens, o povo ri e chora com as graças e desgraças dos seus próprios patrícios.
A Globo Filmes, nasceu embalada pelas produções de grande sucesso da casa, que cresceram das telinhas para os telões. De certa forma, essa estratégia lucrativa de crescer protegeu o conteúdo nacional. Perspicaz como é, a Globo abraçou essa idéia qual manto humanitário de preservação à tela verde e amarela. E hoje, desfila majestosa como padrão de produção do cinema nacional.
A Globo investe em novas produções cinematográficas dispensando o auxílio das leis de incentivo, enquanto planeja abocanhar a maior e mais gorda fatia do bolo do mercado. Gulosa ou não, ela já registrou seu nome naquilo que é bom. Não foi fácil, mas a gordinha suou a camisa. Viu pela frente a necessidade de se reestruturar e foi à luta.
Três títulos da cartela de lançamento da produtora apontados para a temporada de 2006/2007 serão realizados com recursos próprios da Central Globo de Produções. No segundo semestre de 2006 estréiam "Sítio do Picapau Amarelo", a versão telona do seriado infantil de Monteiro Lobato; e "Muito gelo e dois dedos d'água", uma comédia louca e romântica com deliciosos toques de humor. No início de 2007, é a vez de "A grande família" aparecer nos telões, "muito unida e também muito ouriçada".
Os filmes "Sítio do Picapau Amarelo" e "A grande família" terão versões inéditas para o cinema e resultarão da combinação de investimento próprio e capital privado. Carlos Eduardo Rodrigues, diretor executivo da Globo Filmes, explica que os dois filmes serão realizados com recurso e infra-estrutura da Globo, investimentos do mercado publicitário, além de adiantamento de distribuidoras associadas, ou seja, parte dos recursos investidos terá que ser recuperada na bilheteria.
"O Auto da Compadecida" (2000) e "Caramuru - A invenção do Brasil" (2001), ambos dirigidos por Guel Arraes e sucessos recentes da produtora, também foram produzidos sem o apoio governamental. Mas os riscos eram menores, pois os filmes eram edições compactas dos respectivos programas da grade da emissora - ou seja, chegaram aos cinemas com custo baixo.
A Globo Filmes já levou mais de 50 milhões de brasileiros às salas de cinema, mas sua meta é ainda maior para os próximos anos. A empresa pretende produzir uma média de 10 filmes por ano. No entanto, a carência de rede de cinemas no Brasil fere a meta globista. Hoje, apenas 6,5% dos municípios brasileiros têm um cinema. Para a Globo isso é péssimo, mas para os brasileiros o fato é sinônimo de liberdade. Liberdade de ver e ouvir com autonomia e razão. Viver no mundo de "Tiago", "João", "Maria", não no País de "Marinho".
Mas os tentáculos desse gigante não param de se mover. Desta vez abraçou os mercados asiático e australiano, através da Globo Internacional, com o novo canal disponível para a Austrália. A emissora também oferece um catálogo de novelas de conteúdo estratégico para um de seus principais clientes no exterior: a Rússia e os países da antiga União Soviética - que já compraram mais de dez mil horas das novelas da Globo, desde 1992.
O império não cessa de avançar com suas tropas armadas de som e luz. Telinhas ou telões projetam a vida de quem se entrega, ou a morte de quem desafia. Depois de olhar o globo e perceber as proporções do engano em que ele afunda, surge a mesma pergunta do escritor Jean-Claude Bernardet: "Como essa estranha máquina de austeros cientistas virou máquina de contar estórias para enormes platéias, de geração em geração, durante já quase um século?" A resposta é estarrecedora: mente superior domina mente inferior. |