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Anjo e demônio

Milenna Vieira

No dia 6 de agosto de 2003, o Brasil perdeu u ma figura importante do meio jornalístico brasileiro, o empresário e jornalista Roberto Marinho. Como todo grande personagem, foi amado por muitos, o diado por alguns, porém, era sem dúvida um homem de inteligência ousada e empreendedora. Construiu o maior império de comunicações do Brasil a partir de um jornal vespertino herdado de seu pai, o jornal O Globo . Roberto também testemunhou e protagonizou momentos da história do País.

Quando questionado sobre o motivo de seu notável crescimento no meio empresarial, Roberto afirmava ser fruto de muito trabalho e alguma sorte; mas, sobretudo, devia-se à sua ousadia e otimismo. "No trabalho, na vida, o que faço é convencido de que vai dar certo", dizia Roberto. Para descrever Roberto Marinho, foi necessário analisar 98 anos de histórias e acontecimentos que geraram diferentes, e às vezes contraditórias, opiniões e idéias sobre ele. E várias dessas opiniões puderam ser comprovadas na ocasião de sua morte.

O Presidente Luis Inácio Lula da Silva o descreveu como "um homem que veio ao mundo para prestar serviços à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil". Porém, em 1987, Lula atribuiu parcela de culpa pela situação ruim do País. "Nós hoje somos um País com praticamente 20 milhões de crianças abandonadas... 16 milhões de analfabetos... onde a história é contada pela Rede Globo de televisão porque o senhor Roberto Marinho não faz outra coisa a não ser mentir para o povo", declarou Lula.

Já a atriz global, Cristiane Torloni disse: “É uma perda lamentável... quando precisamos tanto de bons exemplos”. Neste caso, vem à mente o caso em que a Rede Globo manipulou claramente o debate entre Lula e Collor, quando passou a apresentar Collor sempre de forma positiva. E que mudou seu enfoque quando ele foi acusado de corrupção. Segundo o sociólogo Sérgio Domingues, crítico da imprensa e do jornalismo especulativo, na votação de seu impeachment em 1992, a Globo abriu mão de cerca de R$ 66 milhões em exibição de comerciais para transmitir às 6 horas de votação que resultou na condenação de Collor . Caso semelhante aconteceu com Roseana Sarney em 2002.

Sensibilidade

Nascido em 3 de dezembro de 1904, no humilde bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, Roberto Pasini Marinho parecia ser mais um jovem destinado ao anonimato. Apesar da vida simples e modesta que vivia com os pais e mais quatro irmãos, seu pai, Irineu Marinho, incentivou e influenciou os filhos na escolha da profissão. As maiores heranças que Irineu deixou para os filhos foram à capacidade de sonhar alto e coragem para realizá-lo.

Roberto era um apaixonado por pintura, literatura, música clássica, cinema e esportes. Admirava todas as expressões criativas do homem que ia desde a arte de filosofar até trabalhos manuais. Foi amigo de Portinari, que o inspirou a montar sua própria pinacoteca, exposta no Museu Nacional de Artes na Argentina em 1987. No esporte, foi várias vezes campeão de hipismo, sendo seis consecutivas, e em 1945 bateu o recorde brasileiro de salto em altura, no hipismo.

Com 41 anos de idade, casou-se com Stella Goulart e teve quatro filhos: Roberto Irineu, João Roberto, José Roberto e Paulo Roberto. Após vinte e seis anos de casado, se separa de Stella e casa com Ruth Marinho. Em 1991, casou-se pela terceira e última vez com Lily Monique de Carvalho, aos 84 anos. E com ela viveu os últimos e “intermináveis” anos de sua vida.

Foi O Globo que, em 16 de agosto de 1953, festejou pela primeira vez o Dia dos Pais no Brasil. Foi publicado o seguinte: “... copiamos dos Estados Unidos... Pensamos em 16 de agosto porque é dia de São Joaquim, pai de Nossa Senhora.” No primeiro ano foi festejado dia 16 de agosto, mas depois o comércio sugeriu que fosse no segundo domingo de agosto.

Mesmo com 90 anos jamais deixara de pensar no futuro, investindo sempre na expansão de seus negócios. Ele convenceu a todos que não havia motivos para que ele vivesse menos de cento e trinta anos. Quem o conheceu intimamente afirma que "seria assumir o fim". Para se ter uma idéia, Roberto era um homem que não admitia a condição de os seres humanos serem meros mortais e chamava o tempo de inimigo.

Roberto: jornalista

A carreira do homem tido como o mais poderoso do Brasil se iniciou com uma demonstração de humildade. Ao tornar-se dono, ao invés de mandar, decidiu primeiro obedecer. Isso porque se considerou ainda inapto para tal responsabilidade. Somente após seis anos aprendendo como fazer um jornal, assumiu o comando tornando-se o diretor mais jovem da história da imprensa.

Sua humildade o fez ganhar gradualmente liderança e respeito de seus subordinados. Totalmente disciplinado, no trabalho era sempre o primeiro a chegar, às quatro da manhã. Fazia isso para dar bom exemplo e poder cobrar rendimento de uma redação. Gostava de ser chamado, acima de tudo, de jornalista, mesmo com o reconhecimento de empresário bem sucedido.

Transformou O Globo no segundo jornal mais vendido no Rio de Janeiro e em um dos maiores jornais do país, elevando cada vez mais a imprensa escrita brasileira. Com 40 anos de idade, fez com que essas palavras escritas fossem ouvidas com a inauguração da Rádio Globo. Sua primeira transmissão foi a partida decisiva do Campeonato Brasileiro de Futebol entre as seleções carioca e paulista, em 3 de dezembro de 1944.

Aos 60 anos, sonhava em fazer algo ainda maior. Quando muitos já pensavam em aposentadoria, Roberto queria trabalhar mais e mais. Conseguiu uma concessão para criar uma emissora de TV e a partir de 1965, criou a TV Globo no Rio de Janeiro, em São Paulo , Belo Horizonte e Brasília. Consolidou a idéia de rede nacional de televisão fazendo com que a Rede Globo tivesse hoje 113 emissoras, entre geradoras e afiliadas, que transmitem, de segunda-feira a domingo, uma programação em que o jornalismo se alterna com o entretenimento e a educação.

Roberto Marinho teve um relacionamento próximo com todos os presidentes do Brasil, desde Getúlio Vargas. Ele se encontrou com todos eles várias vezes, em muitas sendo procurado, outras procurando-os. Mas tinha o seu modo de exercer o poder. E, tornando-se cada vez mais bem-sucedido como empresário de comunicação do século XX, já com um patrimônio extenso - jornais, revistas, emissoras de rádio, TV e TV por assinatura - preparou seu grupo para os desafios do terceiro milênio, liderando o investimento também na internet.

Homem fora do comum

Após ler vários artigos e tentativas de biografias sobre Roberto Marinho, pode-se perceber que alguns conceitos tomam rumos totalmente opostos. Nem o próprio Roberto conseguiu escrever seu livro de memórias, cujo título seria “Condenado ao êxito”.

Roberto Marinho uniu vida e trabalho, jornalismo e política, amizade e negócios, elogios e críticas... Percorreu na história um longo e árduo caminho para chegar aonde chegou. Após a morte do presidente da Globo, o jornalista, Pedro Bial, escreveu o livro intitulado Roberto Marinho . Nele, Bial compara Roberto com uma “entidade sobrenatural. Para alguns, divina; para outros, demoníaca .