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Precisamos de Jornais

Paulo Mondego

Não é novidade que vivemos num mundo capitalista. Tampouco é novo que as produções industriais - sejam elas de entretenimento ou necessidades básicas - giram em torno da lógica de mercado e todos os termos que apontam para o significado de capitalismo. Lamentavelmente no jornalismo, as coisas não são diferentes. Vivemos numa era de marketização da notícia, da estetização das reportagens e da globalização da informação. Essas são características de mutações das quais os meios de comunicação, sobretudo a imprensa, sofrem de forma brutal e consciente.

Diante desta situação, é inevitável o questionamento que perturba os grandes magnatas da comunicação, que não estão preocupados em outra coisa a não ser o lucro. Para onde vai o compromisso social do jornalismo enquanto tribuna do povo? Sobretudo de que maneira os jornais priorizam os valores éticos que todo veículo de comunicação deveria ostentar?

Não é difícil encontrar respostas para esses questionamentos. Hoje o que tem prioridade numa redação é o que vende mais. De acordo com o jornalista Leandro Marshall, em seu livro Jornalismo na era da publicidade (2003) "o jornal moderno virou um veículo sem palavras, já que prioriza a cor, as letras garrafais e a foto hiperdimensionada em detrimento do conteúdo da informação". É a esse tipo de linguagem jornalística que a sociedade moderna está exposta. Seja leitor, usuário, consumidor, cliente, dono, anunciante, etc.

A imprensa vive hoje um paradoxo: ser elemento-chave da produção industrial capitalista e ter de desempenhar a missão de apresentar a verdade e defender o interesse público. Por isso aquela que deveria ser o reflexo da sociedade e, logo, a imagem da verdade, "falsifica informações mediante produções distorcidas, manipula os fatos, inventa elementos fantasiosos e forja acontecimentos ou depoimentos. No fundo, esses exercícios de falseamento demonstram um objetivo básico: favorecer interesses sejam eles dos jornalistas, da imprensa ou do poder econômico ou político".

Contudo, não podemos negar a dependência financeira que um jornal, assim como grande parte das instituições pós-modernas, tem nos dias de hoje. È preciso dinheiro para sobreviver no mundo do “capitalismo selvagem”, porém é necessário mais do que ética para não se vender às ofertas do mercado. Sobre o manto da dependência financeira devem estar os valores éticos da imprensa. O jornal que publica matéria sem priorizar o compromisso com a verdade não pode ter espaço no cotidiano da sociedade. O jornal depende do dinheiro, mas não existe por causa dele.

Em conseqüência do “jornalismo de mercado”, aqueles que mais deveriam primar pelos valores éticos do jornal se vendem em busca do lucro escuso. "O jornalista pós-moderno vira refém de uma lógica avessa ao interesse da informação, mas simpática aos interesses da empresa e do mercado", afirma Marshall. Pior que isso, anula o senso crítico e a capacidade de reflexão, permitindo-se o ato de submeter o lead e a pirâmide invertida à lógica de mercado. Um verdadeiro absurdo.

É inadmissível que jornais, ou qualquer periódico que se julgue jornalístico se venda a publicidade e esqueça o compromisso com o povo. Um jornal existe para servir a sociedade, publicar a verdade e manter-se politicamente pelos princípios éticos inerentes a razão da existência do jornalismo. Caso contrário não é jornalismo. Precisamos de Jornais, não de uma coletânea de anúncios.