home |
 

Dá pra falar a verdade?

Franciele Mota

Graduado em jornalismo e direito pela USP, Doutor em Ciência da Comunicação (ECA-USP) e atual presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci é um dos grandes profissionais respeitados e admirados nos meios de comunicação. Comandando uma equipe de 1300 pessoas nas quatro emissoras de rádio, duas de televisão e um site de notícias, Bucci tem um currículo profissional invejável com passagens por grandes empresas de comunicação como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e uma vasta carreira na Editora Abril. Entre os cargos desempenhados na Abril, o jornalista foi colunistas da revista Veja , diretor de redação da Superinteressante e da Quatro Rodas e secretário editorial da Editora Abril.

Fora da redação lecionou ética jornalística na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo e escreveu os livros “O Peixe Morre pela Boca – Oito Artigos sobre Cultura e Poder” (1993), “Brasil em Tempos de TV” (1996), “Sobre Ética e Imprensa” (2000). O último analisa o lixo produzido pela má conduta ética desempenhada pelos profissionais da área de comunicação e por último, “Videologias”, escrito em parceira com Maria Rita Kehl, doutora em psicanálise pela PUC-SP (2004).

Em “Videologias” Bucci e Kehl unem a visão crítica e psicanálise para dissecar as relações entre mitologias, ideologias e televisão. Esse poderoso instrumento onipresente converte para a imagem as relações políticas, religiosas, culturais, sociais onde o acesso se dá através da captação da imagem. Engraçado, mas é exatamente isso que o brasileiro gosta. Afinal o Brasil só se conhece através da televisão, um país imenso, não se pode negar que a porcentagem de lares que possuem aparelhos de televisão é grande comparada com outros aparelhos domésticos.

A televisão impõe paradigmas que são absorvidos com tamanha rapidez que nem mesmo a publicidade acredita. São roupas, acessórios, músicas, vocabulário, comportamento, estilo de vida que são captados sufocando o jeito tradicional do povo brasileiro. Para Eugênio Bucci, se tirar a TV do Brasil, o País desaparece; “ela é o veículo que identifica o Brasil para o Brasil”.

São tantas as vantagens que até somem as desvantagens. Mas elas estão aí, e são muitas, entre as quais estão os pecados da imprensa. Pense bem, 2006, ano eleitoral, grande decisão política, depois de um mandato recheado de CPI, escândalos, desvio de dinheiro, caixa dois. O país quer acreditar ou voltar a acreditar que dias melhores virão. Daí então um engraçadinho em época eleitoral assessora um determinado político publicando notas e artigos de toda e qualquer natureza favorecendo seu candidato, tudo por um ganho extra. A população acredita com todas as forças no que lê, afinal a mídia não esta informando e até formando opiniões? Mas onde fica a ética e a responsabilidade social? Quem perde nessa história toda é o público.

E aí, dá pra falar a verdade sem machucar ninguém? Em outras palavras, ainda é possível fazer um jornalismo sério, na busca incessante pelo fato, noticiá-lo com clareza, sem se afastar da conduta ética? Pior que dá pra fazer, porque jornalista não é detetive, não é promotor público, não é cabo eleitoral, é responsável em passar ao cidadão informações com responsabilidade e ética.