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O Brasil fala globês

Rizza de Matos

Em 1993 foi lançado pela BBC de Londres o polêmico documentário “Brazil: Beyond Citzen Kane” (Muito Além do Cidadão Kane) produzido por Simom Hartog, que conta a história da TV Globo e sua influência no cenário político social brasileiro.

Em 1994 uma cópia do documentário chegou ao Brasil e seria divulgado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Mas foi proibido pelo então Presidente da República, Itamar Franco. Logo depois Roberto Marinho conseguiu por meio de “decisão judicial” a proibição da reprodução e o documentário foi censurado no Brasil.

Muito Além do Cidadão Kane é dividido em quatro partes e conta com depoimentos de personalidades como Chico Buarque, Washington Olivetto, Leonel Brizola além de professores de comunicação diretores de TV, políticos, etc.

As duas primeiras partes retratam o surgimento da TV. Relembram que as empresas de telecomunicações em nosso país sempre tiveram um relacionamento estreito com o governo. Simom conta detalhadamente o surgimento da TV Globo, que foi após um ano do golpe militar de 1964. O favorecimento político em relação ao financiamento que a emissora fez com o grupo americano Times Life (considerado ilegal pela lei brasileira). Relata sobre o regime militar, o AI- 5, a chamada “revolução democrática” e o papel de “Porta Voz” do poder que Roberto Marinho exerceu durante a ditadura.

Na época da ditadura militar a TV era o meio de comunicação mais usado pelo o governo. Isso fez com que o magnata das telecomunicações se unisse ao governo, veiculando propagandas e matérias que favoreciam os militares em troca de mais espaço. Hoje a TV globo se defende ao dizer que também foi censurada. Certamente, não só ela mais qualquer meio de comunicação daquela época. Mas também foi a emissora que mais defendeu o regime e que teve o menor número de problemas com o sistema. Exemplo dessa parceria foi não ter divulgado a morte do diretor da TV Educativa de São Paulo, o jornalista Vladimir Herzog, que foi capturado pelos militares.

A terceira parte do documentário descreve minuciosamente a relação Globo - poder e a vocação governista da emissora. Descreve quatro exemplos de momentos da história nos quais a Globo manipulou os fatos em favor de seus interesses. O apoio à tentativa de fraude nas eleições de 1984. O celebre caso das “Diretas já”, enquanto mais de meio milhão de pessoas na Praça da Sé gritavam por democracia e voto livre, o jornal nacional noticiava a manifestação, como sendo aniversário da cidade. E o épico e mais importante exemplo: a edição do debate entre os o candidatos à Presidente da República, Lula e Collor, em 1989. Foram seis minutos, que mostraram os piores momentos de Lula e os melhores de Collor.

Mesmo depois de 13 anos, Muito Além do Cidadão Kane retrata fielmente a condição que a grande mídia brasileira se encontra. Entrelaçada com o estado, mantendo relações ilícitas com o poder, negando seu papel social em detrimento de sua obrigação jornalística que é a imparcialidade dos fatos, a neutralidade diante dos acontecimentos e entretendo não para diverti, mas para manipular.

Mais do que tratar sobre a Rede Globo, o documentário revela como os meios de comunicação funcionam no Brasil, nas mãos de poderosos com interesses políticos, o que dificulta a democratização da imprensa. Tudo está errado, começando pelas leis que auxiliam para que as concessões de rádio e TV estejam nas mãos de quem está. E os mais prejudicados são os cidadãos. Pois são submetidos a 24 horas de alienação. Simplesmente as pessoas se esqueceram da realidade e consomem uma falsa idéia de que tudo está bem.

A TV no Brasil não foi criada com a intenção informar, muito menos de ser um meio com cunho jornalístico. No entanto, as pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros só recebe informação através da telinha. Isso é preocupante porque o povo esquece de pensar e aceita o sistema sem fazer perguntas. A situação é assustadora. Alguém alheio ao que acontece no país e que só se preocupa em não perder o capítulo da novela. Diante dessa situação muitos perdem a esperança de um país onde os cidadãos sejam libertados das algemas da incapacidade racional.

Talvez a situação não mude porque tem muita gente interessada nessa alienação popular. Por isso as pessoas devem criar uma resistência ao que lhe é imposta. As casas são invadidas e os brasileiros transformados. De seres pensantes que falam português, se tornam em seres alucinados que se comunicam em “globês”. É um tanto perigoso dar credibilidade a uma emissora que há mais de 40 anos tenta manipular e ludibriar o povo. Resistência, essa deve ser a atitude demonstrada pela massa. Porque Roberto Marinho construiu a algema e a oferece, mas quem se encarrega de colocá-la e fechá-la são os próprios telespectadores.