home |
 

Atos inconseqüentes

Milenna Vieira

É consensual o fato de que a imprensa comete erros. Poderíamos citar inúmeros fatos, alguns históricos, nos quais ela teve participação decisiva ao divulgar notícias contra ou a favor de algo ou alguém. Mas, vamos falar aqui de um caso internacional, no mínimo misterioso, que ocorreu entre 1950 e 1953: o casal Julius e Ethel Rosenberg.

Você já ouviu esses nomes ou sabe de algo a respeito? O caso é meio complicado, pois os detalhes referentes ao crime e ao julgamento que atribuem culpa ou inocência aos Rosenberg aparecem praticamente na mesma medida. E a preocupação com o caso era grande, pois a sentença, anunciada em 1951, foi a cadeira elétrica, a maior e mais cruel condenação.

O julgamento dos Rosenberg aconteceu no auge da Guerra Fria, quando a espionagem tomava conta dos Estados Unidos. Desde 1949, quando os soviéticos detonaram sua primeira bomba atômica, até o começo do julgamento dos Rosenberg, em 1951, os norte-americanos foram informados de inúmeras revelações apavoradoras.

Sendo assim, o senador Joseph McCarthy sugeriu o combate a todo e qualquer tipo de ação anti-americana e de pessoas simpatizantes do comunismo. Hoje as vítimas do preconceito nos Estados Unidos são os muçulmanos; naquele tempo eram os comunistas e os judeus. Com esse pensamento, a culpa acabou sobrando para Julius e Ethel, dois jovens cientistas filhos de trabalhadores imigrantes judeus, com ligações com o partido comunista.

Mesmo sem provas fundamentadas, o casal foi condenado à morte por supostamente terem traído o próprio país ao revelar à União Soviética (URSS) o segredo da bomba atômica, o mais bem guardado segredo militar norte-americano. Historiadores atribuem o resultado desse caso ao sistema político da época e à tentativa de disfarçar uma provável falha na inteligência norte-americana.

As únicas provas da culpa de Julius e Ethel eram a declaração incriminatória de David Greenglass, irmão de Ethel e ex-funcionário do Centro de Energia Atômica de Los Alamos, e uma escrivaninha da casa dos Rosenberg que a acusação afirmava ter vindo da URSS, e que serviria para guardar provas de sua ligação com o comunismo internacional.

O partido comunista e entidades simpatizantes proclamaram a inocência dos Rosenberg e acusaram o governo americano de forjar uma trama contra o casal. Já o American Jewish Comittee (Organização de Ajuda Social Judaica) não deu qualquer apoio aos Rosenberg. Ao contrário, repetia a certeza a respeito da culpa e a confiança em um processo justo, que incluía a pena de morte.

Pelo AJC e sua revista Commentary, o editor Robert Warshow, criticou as cartas que os Rosenberg escreviam da prisão enquanto aguardavam o julgamento. Nelas, eles se declaravam inocentes. Warshow não acreditava que merecessem simpatia ou compaixão, pois eram mentirosos, indecentes e não possuíam princípios.

Durante o processo, várias provas contra o casal foram falsificadas pelos agentes do FBI. O advogado do casal, Emmanuel Bloch tratou de desmantelar todas as provas contra os acusados. A carta denúncia de Greenglass comprovou-se ter sido escrita sob ordens do FBI. Quanto à escrivaninha, descobriu-se ter sido comprada em Nova Iorque, por 21 dólares.

Mesmo assim, veio a sentença. Um abuso de autoridade do juiz Kaufman, que declarou o seguinte: “Considero seu crime pior do que o crime de assassinato... Um assassino mata apenas a vítima... quem sabe quantos milhões de pessoas inocentes ainda pagarão o preço da sua traição?” O juiz Kaufman deixou-se tomar pelo preconceito, o que tornou impossível realizar um julgamento neutro e justo.

Diante da condenação aparentemente injusta, o mundo se solidarizou com o casal. Famosos, intelectuais como Albert Einstein, Chaplin bem como anônimos se manifestaram em favor da inocência deles com pedidos de libertação dos Rosenberg. A Casa Branca recebeu centenas de cartas e telegramas de protesto.

De nada adiantou. Na noite de 19 de junho de 1953, Julius e depois Ethel foram executados na cadeira elétrica, na prisão de Sing Sing, em Nova Iorque. Antes, porém, os funcionários ainda deram uma última chance de eles salvarem a própria vida, se revelassem tudo o que sabiam. Mas eles nada declararam.

Os Rosenberg foram os primeiros civis norte-americanos executados por ordem de um tribunal civil, por espionagem contra o país. É também o primeiro casal já executado por uma ordem federal. E Ethel Rosenberg é a primeira mulher executada por um delito federal.

A história não parou aí

Durante décadas a inocência dos Rosenberg foi generalizada e incontestável. Eles foram até considerados mártires. Porém, cinqüenta anos depois a verdade mostrou-se ser bem outra. Documentos secretos da URSS e dos arquivos Venona (nome da operação que decodificou os códigos soviéticos), guardados pelos Estados Unidos, foram liberados para publicação.

Os documentos provaram que Julius Rosenberg, com a cumplicidade de sua esposa, chefiava uma das muitas redes de espionagem soviética em operação nos Estados Unidos no pós-guerra. Ele estivera diretamente envolvido no roubo dos segredos militares industriais, como os da bomba atômica produzida em Nova Iorque.

O mais irônico de tudo é que o governo dos Estados Unidos não queria executar os Rosenberg. A promotoria e o FBI não pediram a pena de morte, e o presidente Dwight Eisenhower estava disposto a mudar a sentença para prisão perpétua. A ameaça da pena de morte era uma tentativa de fazê-los confessarem e revelarem outros envolvidos.

Os Rosenberg estão nos filmes, na ficção, e livros e artigos sobre seu julgamento continuam a ser publicados. Novas informações e revelações continuam surgindo. Por falar em mídia, onde ela estava nessa história toda?

Pois é, não há muito o que falar. Talvez porque o seu maior erro e falta de compromisso tenha sido ficar praticamente omissa diante de tantas farsas, acusações e julgamentos precipitados cometidos pelos juízes e pelo governo norte-americano. Investigar a verdade, buscar o fundamento dos fatos e das evidências de forma neutra, para então divulgá-las, foram esforços poupados para outros assuntos, outras notícias.