São Paulo, 25 de março de 1984. O cenário: Praça da Sé, centro da cidade. O povo brasileiro almejava a democratização, o direito de votar. A data do primeiro grande comício foi escolhida a dedo. Aniversário de São Paulo, porque a participação popular seria facilitada. Porém, ninguém imaginava que esse acontecimento iria travar uma outra luta: brasileiros X Rede Globo!
Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou ao Congresso Nacional proposta de emenda à Constituição prevendo o restabelecimento de eleições diretas para a Presidência da República em dezembro de 1984. Logo depois, o deputado Ulysses Guimarães também do PMDB, assumiu a liderança e lançou oficialmente uma campanha nacional com o apoio de partidos da oposição. O slogan foi “Diretas Já”.
Pelo país, alguns comícios eram realizados, porém a marca de 15 mil pessoas não era ultrapassada. A Rede Globo, optou por não transmitir esses “pequenos” comícios em rede nacional, e sim local. Com o passar dos dias, a adesão ao movimento pelas diretas cresceu. A notícia não poderia continuar a ser “local”. Foi aí que a Globo decidiu colocar em rede nacional o comício histórico de 25 de janeiro. Naquele dia, o Jornal Nacional exibiu reportagem de dois minutos e 17 segundos sobre o tema. Mas a matéria provocou e provoca polêmicas até hoje.
A Globo teria omitido que o comício era uma manifestação pelas diretas; em vez disso, teria dito que se tratava apenas de uma festa em comemoração aos 430 anos da cidade de São Paulo. A origem da confusão começou pela chamada da matéria lida pelo apresentador Marcos Hummel. “Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”.
O livro Jornal Nacional de Jorge Zahar (2004), reproduz na íntegra o texto que foi lido pelo repórter Ernesto Paglia. Ele cita quantas pessoas foram a São Paulo, os 50 anos da USP, 30 anos da Catedral da Sé, e no final do relato diz o seguinte: “... Mais à tarde, milhões de pessoas vieram ao Centro de São Paulo para, na Praça da Sé, se reunir num comício em que pediam eleições diretas para presidente. Não foi apenas uma manifestação política. Na abertura, música, um frevo do cantor Moraes Moreira...”
A irritação com a matéria feita pela TV Globo foi geral. Tanto da população, quanto dos organizadores da campanha. A ética da Globo foi questionada. E como não questionar? Como a Globo, que sempre pregou a imparcialidade, não teve vergonha de transmitir uma matéria com pouco mais de dois minutos e apenas “pincelar” a manifestação de 300 mil pessoas em favor das “Diretas Já”? A Rede Globo implantou o comício como parte do aniversário da cidade. No momento político e histórico que o país estava vivendo, o importante era a luta pela democracia, e não o aniversário da capital paulista.
Depois do ocorrido era comum nas manifestações que a Globo iria cobrir, ouvir a frase: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. A máscara da falsa ética caiu! A Rede Globo passava por uma grande pressão: de um lado a população pressionava para noticiar com mais destaque as manifestações pelas diretas, do outro, os militares pressionavam para simplesmente não cobrir os eventos.
Ainda no livro Jornal Nacional, José Bonifácio de Oliveira, o Boni confirma: “Naquele momento, a pressão sobre Roberto Marinho foi intensa. Foi uma frustração para mim e para toda a equipe de jornalismo, uma tristeza para o Armando Nogueira e a Alice-Maria, não poder fazer a cobertura de maneira adequada. Nós ficamos limitados pelo poder de audiência que a TV Globo tinha. Isso foi uma tristeza muito grande, mas entendo que naquele momento o Dr. Roberto não podia resistir”.
Em abril, quando a campanha empolgou o país definitivamente, houve um comício onde cerca de um milhão de pessoas se reuniram na Candelária, no Rio de Janeiro. A Globo cobriu com grande destaque o evento. Dedicando-lhe quase uma hora da sua programação. O assunto ocupou nove minutos do Jornal Nacional. Toda parte final do comício foi transmitida ao vivo, com os discursos de Ulysses Guimarães e Leonel Brizola. O que mais tarde, ocupou 16 dos 21 minutos do Jornal da Globo.
Se por um lado, conseguimos entender claramente que o Roberto Marinho cedeu às pressões políticas por ameaças de perder a concessão, ou até mesmo, ameaça contra sua vida, como foi o caso das Diretas, do outro, é praticamente indigesto saber que quando se trata de política, a própria Rede Globo se deixa levar por que no fundo devem a eles. Desde que mundo é mundo, existe politicagem, e a mídia está envolvida com isso. Com a Globo não é diferente, e não faz a menor questão de esconder de ninguém. O interessante é que todas as vezes que a Rede Globo não escondeu sua posição política, e foi antiética, mais tarde tentou se mostrar “imparcial” fazendo algo de bom. A história está aí para comprovar.
Quando vemos grandes monstros da comunicação, agindo sem ética profissional em troca de algum bônus, ficamos mais convictos que devemos levar a notícia à população a qualquer preço. Jornalismo e ética pode sim andar lado a lado. |