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Libelo da mentira

Angélica Maffi

O mês de setembro no Brasil nos lembra da primavera. Momento onde o sol resplandece uma linda aurora combinada, sutil e perfeitamente com a harmonia das flores. Mas enquanto uns gozam das belezas naturais, outros trabalham pela manutenção econômica e política da nação.

Mais especificamente em uma sexta-feira do lindo mês de setembro de 1993, por meio de um furo jornalístico, abre-se as portas para o inicio da CPI do Orçamento. O repórter Pilicarpio Jr., da redação de Veja em Brasília, após uma semana de insistentes tentativas, conseguiu entrevistar José Carlos Alves dos Santos, ex-assessor da comissão Parlamentar Mista de Orçamento do Congresso Nacional. A entrevista aconteceu enquanto José Carlos estava preso na delegacia em Brasília. Ele fora acusado pelo homicídio de sua esposa, Maria Elizabeth Lofrano.

Suas declarações citaram por alto um esquema envolvendo sete deputados e um senador em fraudes ao Orçamento Geral da União. Em instante algum o nome de Ibsen Pinheiro foi mencionado. Ele que acabara de deixar a presidência da Câmara e, lançado como pré-candidato à presidência da República. Esse momento fora sonhado por durante um ano, antes visto como o ásis no deserto árido do Brasil. Seu espaço a muito custo havia sendo conquistado, pois o favoritismo pertencia a Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de dois meses, as investigações incluíram o nome de Ibsen Pinheiro na máfia dos parlamentares. O documento usado para incriminá-lo era um cheque assinado pelo ex-deputado Genebaldo Correia, depositado em sua conta. Mais do que depressa a assessoria de Ibsen encarregou-se de esclarecer que tal transação deu-se pela compra de uma camionete. De fato, o valor do documento conferia com o processo de transferência do veículo. Mas as circunstâncias não aplacou a necessidade de apurações.

Outra “prova” que levou a ruína de Ibsen era uma foto tirada durante um jantar numa ilha grega. A imagem trazia Ibsen cercado por cinco dos sete anões do Orçamento.

A essa altura nada mais seria necessário. A fotografia e o cheque foram suficientes para sustentar acusações gravíssimas sobre o político. Os jornais, mesmo desarticulados, mantinham a forte postura contra Pinheiro. Já que os mesmos não contavam com provas favoráveis a ele. Ibsen contava apenas com o apoio de seus amigos, estes juntaram forças para desmentir as acusações. Sua credibilidade colabora nesse processo, já que durante dois anos fora interlocutor da República. Nesse contexto armou-se um dos mais conhecidos erros jornalísticos do nosso tempo.

A farsa

Novembro de 1993. Na redação de Veja, o telefone toca para Luis Costa Pinto. Uma voz ofegante relata: “tenho uma bomba para você”. Era o assessor parlamentar Waldomiro Diniz, companheiro inseparável dos deputados José Dirceu e Aloízio Mercadante. Um sujeito esperto e sagaz. Em poucos instantes estaria as portas da sucursal brasiliense da revista onde se encerrava os trabalhos de edição da capa, que até então não contavam com maiores novidades. O processo terminaria em menos de duas horas para que pudesse ser enviados a gráfica de São Paulo.

“Pegamos Ibsen”. A frase emanou do sorriso de Waldomiro. Possuía nas mãos sete boletos de depósitos bancários, que segundo ele fechavam uma soma de US$ 1 milhão da conta de Ibsen Pinheiro para uma agência do Banco Banrisul. “Nenhum político, com seu salário, sustentaria uma poupança dessas”, afirmou subtendendo corrupção.

Os olhos do jornalista Luis Costa encontraram nessas palavras o sucesso da revista para aquela semana, sem questionar, apenas aceitou a versão. Não checou sequer uma informação. Sua única reação foi ligar para São Paulo avisando aos editores que sua versão contra Ibsen seria ainda mais permissiva.

“Lula”, como é chamado Costa Pinto, contava com a contra versão do ex-presidente da Câmara, mas preferiu acreditar nas “provas” que possuía. E a manchete de capa daquela edição foi “Até tu, Ibsen?”. O ícone, tratando-se de jornalismo, tornara-se libelo acusatório do homem que liderou á um ano o impeachment de Fernando Collor de Mello.

A verdade vem à tona

Aquela noite seria triunfal, não fossem os toques incessantes na casa de “Lula”. Era Silvania Dal Bosco, colega da redação de Veja. Ela trazia as “más novas” sobre a edição da matéria de Ibsen. O chefe da equipe de checagem da revista, Adam Sun descobrira que a dolarização feita por Waldomiro estava equivocada. E, ao invés de US$ 1 milhão, a conta era de mil dólares. O dilema sugerido por Paulo Moreira, editor-executivo de Veja, seria encontrar quem sustentaria a versão de US$ 1 milhão. Tão logo que haviam sido impressas mais de 200 mil capas da edição. Prejuízo irreparável.

Por tratar-se de política ninguém arrisca ficar fora de um bom boato. Então o deputado Benito Gama, sem a maior preocupação se dispôs a manter a história dos tais “US$ 1 milhão”. E garantiu que tal contestação poderia ser assinada em seu nome. Estava consumada a tragédia na vida de Ibsen Pinheiro.

Uma pergunta que perturba, mesmo depois de tanto tempo: o que realmente pretendiam os jornalistas quando insistiram nessa mentira? A quem queriam enganar? Ou, toda versão fora sustentada para venda promissora de Veja?

Em quem confiar? Quantas vidas mais serão despedaçadas até que todos tenham consciência da ética. Seja ela jornalística ou pessoal. Ibsen, com certeza nunca foi a mesma pessoa. Deveu a vida toda, a si mesmo, resposta a essas indagações. “Porque eu?”. “Queria, quem sabe, apenas poder apreciar em paz a primavera da vida, hoje.”