O erro tem inúmeras conseqüências. Por exemplo, uma menina adolescente de 16 anos de idade engravida, obviamente, sem intenção. Aquele momento de descuido, ou falta de atenção vai caminhar com essa garota por muito tempo e até por toda a sua vida, principalmente no início. Outro exemplo talvez fosse o das multas. O indivíduo sofre uma multa de até um salário mínimo por uma infração no trânsito, que sequer causou prejuízo a terceiros. Enfim, a punição, ou conseqüência seguinte ao erro cometido é, muitas vezes, proporcionalmente maior do que o próprio erro por si próprio.
Porque então no jornalismo deveria ser diferente? Ora, um erro de informação, de apuração que é publicado a milhares ou até milhões de pessoas, no mínimo deveria ser retificado na mesma proporção. Talvez até mais. É ridícula a publicação de notas pequenas para um erro impresso em espaço três vezes maior.
Nesse aspecto, o Correio Braziliense deu um banho de ética com o ato de humildade. No dia 4 de agosto de 2000, o jornal da capital federal, sob a direção de Ricardo Noblat, publica a manchete “O Correio Errou”.
O contexto: no dia anterior, a matéria principal do jornal da capital, feita pelo jornalista Alexandre Machado, tinha como título “O grande negócio de Jorge”. O conteúdo da reportagem: várias denúncias de corrupção envolvendo o ex-secretário do Palácio do Planalto, Eduardo Jorge, que iria depor no Senado do mesmo dia 3. No dia 2, Machado recebeu um telefonema e marcou um encontro com a tal “fonte”. Essa pessoa afirmou que Eduardo tinha recebido 10% das ações da DTC por ter favorecido a empresa em um projeto cujos valores chegariam a R$ 3 bilhões. O negócio envolvia, além da DTC, as empresas DBO Direct e o Banco do Brasil. Um grande furo que se tornou a maior furada.
O próprio diretor de redação, Ricardo Noblat, afirmou no domingo, dia 6, em Carta ao Leitor, assinada por ele, que “salvo o nome Banco do Brasil, grafado corretamente, tudo o mais na reportagem estava errado”. Nem mesmo a sigla DBO estava correta, pois é BDO. A empresa não ficava em Curitiba, mas em São Paulo e o contrato de sociedade entre Eduardo Jorge e a DTC, mencionado na matéria, nem tinha sido assinado. A DTC não mantinha contrato com o Banco do Brasil.
Disse o autor da matéria: “errei por ter confiado em uma única fonte, sem qualquer documento que garantisse a veracidade do que ouvi. E sem ter procurado checar por outros meios a história que me foi contada. Errei por ter me apressado a publicar o que ainda não tinha como comprovar. Por fim, errei ao levar o jornal a cometer erro tão grave. Peço desculpas aos leitores e a todos que involuntariamente prejudiquei”.
Reparar o dano de maneira inquestionável é respeitável, ético e uma atitude mínima. Pergunta-se: o que é lembrado mais, o erro ou a notícia? Alguém se “queimou”? O jornal? O ex-secretário do Palácio do Planalto? As empresas mencionadas? Nem quem cometeu o erro foi prejudicado. Ninguém. O jornal recebeu vários elogios e até ganhou credibilidade. Todos compreenderam que deveriam ignorar as informações da matéria anterior.
Errar é humano, normal. Mas não basta simplesmente errar. Deve-se convencer de que errou. É assim na vida, a conseqüência é maior. Se for cometido um erro de capa, absurdo é a justificativa ou retificação feita em página que não seja a capa. Mas é preciso enfatizar, ir além. É preciso convencer de que o conteúdo publicado de maneira equivocada deve ser ignorado. O Correio não publicou, simplesmente, uma matéria no dia seguinte mas, como foi escrito, outra publicação, no dia 6 do redator chefe.
Muitas vezes as conseqüências de um erro são maiores do que ele próprio e é preciso encarar as falhas e assumir as conseqüências de uma forma ainda mais ampla do que o equívoco. Convencer do erro assim como se convence da informação. Eis a missão de todo o veículo que “pisa na bola”. |