De repente a campainha tocou. Mais um pai buscando o seu filho na Escola de Educação Infantil Base, no bairro Aclimação, zona sul de São Paulo. Ayres, como era conhecido o nissei Icushiro Shimada, colocou a mochila nas costas do menino, a lancheira nos ombros, segurou sua pequena mão e desceu até o portão de entrada para entregar a criança aos pais.
Ao descer as escadas de cimento, o homem, pensava no futuro da pequena empresa que há 26 anos mantinha no centro da cidade e, nos investimentos, reforma do prédio, compra de equipamentos para a escola e tudo que envolvesse o amanhã daqueles inocentes garotos.
Mas o tempo de pensar cessou. Ayres pára diante da porta, que dava para a calçada, e ouve o alvoroço que se reproduz lá fora. Assustou-se ao sair. Foi recepcionado por uma multidão de umas 50 pessoas aglutinadas na frente da escola e que não lhe pareciam muito simpáticas. O homem mal percebera as viaturas da Polícia Civil, alguns investigadores e curiosos de praxe, quando um dedo indicador cumprido e incriminador surgiu na sua direção. Era uma mulher de aproximadamente 30 anos e de descendência oriental que o acusava de abuso sexual de crianças.
O caso Escola Base, nome dado a irresponsabilidade dos pais e a complacência da imprensa, não encontrou obstáculos para tomar espaço na mídia. Todos os veículos de comunicação trataram de enviar seus repórteres para uma notícia, que lhes parecia, de grande impacto. Não demorou muito para que a informação, de que crianças de classe média estariam sofrendo abusos sexuais por responsáveis por uma escolinha na zona sul, mergulhasse no “emergencialismo” da cobertura sensacionalista.
A imprensa trabalhou mal e acabou prejudicando pessoas, negócios, famílias e reputações. Os jornalistas apuraram o fato como deveria ser em quaisquer casos de relevância social. Basearam-se em fontes oficiais (polícia e laudos médicos) e em pessoas próximas às crianças (pais de alunos). Mas o pecado do repórter se deu pelo calor da hora, pelo imediatismo do presente e pelo furo de reportagem.
A irresponsabilidade manifestou-se em coberturas como o do jornal Notícias Populares, "Professor ensinava a transar". O SBT, no programa Aqui Agora, já extinto, chegou a pedir a pena de morte aos acusados. E inúmeros outros veículos, que ampliaram o caso com títulos e reportagens de puro cunho sensacionalista, como, “Perua escolar levava crianças para orgias no maternal do sexo”, “Uma escola dos horrores”, “Tias torturavam crianças na escola do sexo”, “Quatro crianças são violentadas pelos monstros da Aclimação”. Um escândalo sexual que jamais existiu.
Pecadores
O trabalho do repórter é corrido e executado sob pressão. Embora isso não justifique os erros, suaviza a culpa dos repórteres que invariavelmente possuem chefes. Ficam na redação editores, diretor de redação, chefes de reportagem, pauteiros e seus auxiliares todos a analisar e exigir informações. É na mente desses profissionais que a reportagem começa a nascer. Eles decidem o que merece ser publicado, o repórter a ser enviado, a importância da matéria na seção, se possuirá fotos ou não, matérias de apoio, enfim, muita gente palpita numa reportagem além do seu “autor”.
Se toda essa gente tivesse realizado um trabalho sério e compromissado, sete pessoas não teriam sua honra manchada por acusações fragilmente sustentadas e denúncias inconsistentes. Assim como fez o único jornal que não entrou na cobertura: Diário Popular. Editores e diretor de redação perceberam as falhas da versão contada pela polícia e preferiram não publicar o suposto escândalo, mesmo que a decisão pudesse favorecer a promoção de seus concorrentes.
Mas o jornal não é o mentor do crime. Cúmplice das fontes (pais de vítimas, laudo médico e versão policial), presumidas como qualificadas e responsáveis, a mídia afundou-se num delito chamado de falta de profissionalismo da imprensa brasileira. O verdadeiro jornalista deve saber que, na maioria das vezes, as fontes querem receber prestígio e atenção particular no espaço público. Geralmente, elas querem se beneficiar do processo informativo, distorcendo, se possível, os dados a seu proveito próprio. É por isso que a imprensa comprometida deve investigar com insistência e disposição o público, os dados e as versões.
No caso da “escolinha do sexo”, sempre existiu uma única verdade: sete inocentes e uma culpada. O entretenimento produzido pela imprensa durante a semana santa, de 1994, arrancou a atenção dos cidadãos para uma mentira suja e escachada. Nos rostos dos acusados ficaram as cicatrizes indissociáveis da suspeita e no retrato da imprensa a culpa insolúvel da irresponsabilidade.
Ética jornalística não se alcança nos bancos da faculdade, mas no compromisso de ver e rever as informações de um fato, que poderá levar a fama de uma personalidade. O verdadeiro jornalista abraça-se à verdade e não à fama. |