Atire a primeira pedra quem nunca falou mal de alguém. Cá pra nós, até mesmo os mais puritanos alguma vez já cometeram esse deslize natural. E justamente pelo fato de reconhecer o prazer que o ser humano tem em saber e opinar sobre a vida alheia é que a imprensa cede aos caprichos de seu público e acaba cometendo muitas injustiças.
Não quer dizer que todos os jornalistas que existem na face da Terra são desprovidos de ética, e nem que eles são seres absolutamente cruéis. Mas na maioria das vezes, alguns jornalistas não perdem a oportunidade de manchar suas reportagens e notícias com sensacionalismo.
A imprensa tupiniquim a um longo tempo se deixa levar pelos desejos sedutores do alarde porque vêem que, se as informações não são abordadas desta forma, muitos não vão dar atenção. Uma das coisas onde mais o público morde a isca é quando se fala de mortes e violência.
Servem de exemplo os casos Escola Base e Bar Bodega. Mas o caso do ex-ministro Alceni Guerra também é um forte exemplo de deslize ético de profissionais que correm atrás de um furo como loucos e acabam fazendo uma cobertura superficial. Divulgam fatos querendo combater a concorrência e ignoram completamente as conseqüências.
Caso das bicicletas
Alceni, aos 43 anos, foi nomeado Ministro da Saúde. Por manter um bom relacionamento com Roberto Marinho e seus filhos, muitas vezes aparecia como bom moço na emissora global. A vida do ministro estava como um “mar de rosas”. O problema é que Fernando Collor até simpatizava realmente com Alceni. Mas era mais conveniente manter um bom relacionamento com Leonel Brizola.
Querendo unir as “parcerias” e óbvio, para favorecer seus interesses políticos e ideológicos praticamente, Collor jogou Alceni para cima de Brizola que, por sinal, não gostava do até então colega do ministro, o poderoso Roberto Marinho. A picuinha que havia entre Brizola e o imperador global, explica o medo de Alceni em se encontrar e, pior ainda, tratar de negócios com o governador.
Toda essa desavença se deve ao fato de, em sua campanha presidencial, Leonel resolver atacar as “meninas dos olhos” de Roberto Marinho que na época eram o jornal O Globo e a Rede Globo também.
Por parte de sua união com Brizola, Alceni sofreu várias pressões, inclusive de nomear João Mata Pires para cuidar das licitações da Fundação Nacional da Saúde.
Collor chamou Alcenir para uma conversa na qual ele pediu a Alceni não se candidatar a governador do Paraná e sim que procurasse manter boas relações com os ministros do Supremo Tribunal Federal e com os ministros militares para ser bem quisto por Antônio Carlos Magalhães. O que Collor pretendia era instituir o parlamentarismo em 1993 e Alceni imaginou que Collor o quisesse como sucessor no Palácio do Planalto.
Dois meses depois tudo deu errado e Alceni, que havia feito um contrato sem licitação com uma empresa paranaense para acompanhar a construção de uma empresa que não existia, mas que foi construída às pressas por amigos do ministro.
Toda essa confusão soou à imprensa como uma grande falcatrua e em dezembro de 1991 as acusações começaram com o jornal Correio Brasiliense falando que o Ministério da Saúde teria comprado bicicletas superfaturadas.
As bicicletas foram compradas por causa da grande epidemia de cólera que estava afetando os nordestinos e amazonenses, pois desta forma os agentes de saúde poderiam usá-las como meio de locomoção e ainda saírem de mochila nas costas com os seus devidos equipamentos.
O Correio descobriu que as lojas Ponto Frio estavam vendendo bicicletas a preço de banana para o Ministério da Saúde. Alceni alegou que a diferença dos valores era puro fruto da inflação e resolveu desafiar a imprensa a investigar se ele estaria mesmo fazendo alguma coisa errada.
E qual não foi a surpresa do ministro quando por ironia do destino, a imprensa vasculhou e realmente e encontrou mais de vinte outras irregularidades. Daquele dia em diante o ministro foi praticamente jogado na trincheira e fuzilado pela imprensa tupiniquim, que nada piedosa, colocou até mesmo Alexandre Garcia montado numa bicicleta segurando um guarda-chuva numa reportagem para o Jornal Nacional.
Alceni acabou sendo deposto do cargo que tanto almejava e ainda teve que ouvir Collor dizendo que os ataques da Globo poderiam ser apenas mais uma manifestação da rixa entre Leonel Brizola e Roberto Marinho. E o ministro, por sua vez, disse que o seu fracasso estaria completamente na teimosia de Collor em querer promover o encontro e trâmites entre ele e Brizola.
Esta história pode ter ficado mal resolvida nos históricos da imprensa. Podemos pensar também que não é possível que Alceni tenha sido tão ingênuo e submisso a Fernando Collor.
Independente de ser culpado ou inocente, ele foi mais uma das inúmeras vítimas da onda de denuncismo desenfreado. O maior dos pecados da imprensa não tem sido não divulgar rapidamente um fato, mas sim esquecer de sua responsabilidade social.
Ser vítima de um engano que chegou ao ponto de perder o emprego para uma imprensa que tanto prega a liberdade de expressão e constantemente luta pela democracia cai em contradição.
É por essas e outras histórias menos alarmadas que a tendência da imprensa é ir perdendo paulatinamente a sua credibilidade. Será que realmente as informações têm sido checadas? Ou será que simplesmente por ser mais fácil do que a investigação, o que tem sido usado são informações vendidas por assessores ou algo do gênero?
A imprensa tem que arranjar alguma forma de conciliar rapidez de informações com credibilidade. Isso pode parecer utopia, mas se formos permanecer no conformismo, muita gente ainda corre o risco de levar má fama sem ser realmente culpado, e pior: que o assunto seja deixado de lado e ainda mal solucionado. |