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Bater para depois assoprar
 

Por natureza, somos resistentes às críticas. É bem verdade que somos mais inclinados a fazê-las do que a recebê-las. Todavia, como estamos num processo de eterno aprendizado, algumas advertências sempre são oportunas. Ao acompanhar alguns processos acadêmicos de avaliação, principalmente as bancas de trabalho de conclusão de curso, tenho refletido sobre qual é o método mais construtivo de se criticar.

Primeiramente, creio que é importante que ambos, avaliador e avaliado, tenham a consciência de que o objeto da discussão é o trabalho e não o seu autor. Portanto colegas, os apontamentos que farei não são pessoais, mas técnicos. Em segundo lugar, uma crítica se vale em destacar os aspectos negativos e positivos, e, na medida do possível, em oferecer algumas sugestões de aperfeiçoamento. Acredito que dessa forma, mais do que conquistar a simpatia dos companheiros de redação, poderemos construir nesse espaço um diálogo produtivo para a prática profissional.

Gostaria de começar “batendo”, para depois “assoprar”. Penso que o tema abordado na primeira edição da série Grupos de Comunicação é complexo, por envolver muita pesquisa histórica e “diagnóstico” ideológico dos veículos. No entanto, alguns artigos deixaram um pouco a desejar no quesito conteúdo. Isso fica um pouco menos “desculpável” pelo fato de muitos desses temas já terem sido pesquisados em sala de aula no ano passado, quando foram solicitados como requisito acadêmico pelo professor Allan Novaes.

Para especificar um pouco, gostaria de citar exemplos. No artigo “Poder global”, penso que era preciso detalhar melhor a trajetória da produção cultural da TV Globo . Creio que mais dados sobre o surgimento, a evolução e o atual panorama de gêneros televisivos da emissora, como programas infantis, minisséries, talk shows , programas humorísticos, reality shows , enriqueceriam a pauta. Por sua vez, no artigo “Império das ideologias”, acho que o articulista pecou em não identificar, mais claramente, o posicionamento da Globo em relação a dois momentos contemporâneos importantes: a eleição de um presidente petista e a política anti-terrorista americana. Destaco também as matérias “Comunicação gaúcha” e “Grupo eclético”. Ambas também não foram tão específicas na identificação da linha editorial dos veículos por elas analisados.

Como último exemplo no quesito conteúdo, citaria o artigo “Credibilidade acima de tudo”. Para a articulista, o Estadão é um jornal que prima pela autonomia de pensamento dos próprios leitores. O problema é que ela usa os textos das peças da própria campanha publicitária do Estadão para justificar a sua opinião. Penso que esse é um argumento dos mais questionáveis para identificarmos a idoneidade da linha editorial de um veículo.

No artigo “Preceitos parciais”, vejo, talvez, um deslize na apuração. A articulista escreveu que a revista Veja se mostrou favorável à eleição de Lula para presidente. Penso que foi exatamente o contrário. Uma rápida olhada nas capas de Veja que antecederam as eleições de 2002, demonstrará que “a menina dos olhos” da Abril questionava a capacidade administrativa de Lula e estereotipava o possível governo esquerdista, de radical e perigoso. Já na matéria “Pautas de arte”, senti que o texto está desconexo cronologicamente. Parece-me que o articulista tenta estabelecer uma relação de causa e conseqüência entre a postura da Folha em relação ao governo Collor e o posicionamento da Folha em relação aos testes nucleares em 1986. Se entendi corretamente, tal construção é incoerente, pois o mandato de Collor se deu na década de 1990 e não antes de 1986.

Penso que essas críticas precisavam ser mais específicas, já que são mais significativas. Outras, de ordem ortográfica e de estilo, são mais pontuais. Logo, é mais produtivo que tratemos dessas na nossa reunião interna quinzenal de avaliação. Quero encerrar os “puxões de orelha” com uma dica que não me deram quando eu era articulista do Canal , mas que acredito ser muito útil. Por falta de experiência profissional e bagagem acadêmica, os alunos tendem a ser extremados em suas avaliações, quer sejam positivas ou negativas. Quando não pendemos para a “demonização” de certos veículos ou profissionais, caímos na “glorificação” dos mesmos. Portanto, busquemos o equilíbrio em nossas adjetivações e, na medida do possível, abalizemos nossa argumentação, a fim de fugirmos do senso comum.

Bom, e os pontos positivos? Alguém pode estar perguntando. Vamos a eles. Começo pelo oportunismo da editoria chefe em transformar um tópico relevante de uma disciplina do curso em uma pauta pertinente, mas raramente discutida. Acredito também que a estrutura em que o tema foi dividido facilitou a compreensão do mesmo. Considero felizes as escolhas da maioria dos títulos e intertítulos. Destaco os artigos “Império de papel” (Abril); “Topa tudo por dinheiro” (SBT) e “ a.C. e d.C.: Antes de depois de Chateaubriand” (Diários Associados). Parabenizo também a matéria “A Folhárvore ”, pela criatividade com que foi escrita, ao utilizar trocadilhos e analogias.

Talvez alguém chegue à conclusão de que eu mais “bati” que “assoprei”. Se o critério para tal dedução for o espaço destinado aos aspectos negativos, em detrimento aos positivos, essa afirmativa é lógica. Porém, acredito que nem toda edição seguirá essa proporção. Pelo contrário, ainda que seja utópico, trabalhamos por uma edição que só mereça aplausos. Até lá, temos que aprender a lidar com as vaias também. Por isso, despeço-me aqui, com a certeza de que melhoraremos a cada edição.

E quanto às sugestões? Bem, essas serão discutidas com mais calma nas nossas reuniões de “lavagem de roupa suja”. Mas é claro, se você quiser que as suas opiniões estejam na pauta dos nossos encontros, é só enviar-nos!

Até a próxima!