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Fábrica de “sueños”

Tiago Cabreira

Depois de um longo dia de atividades, o pai chega em casa cansado. O trabalho insiste em ser acompanhado pelo mau humor dos colegas, as cobranças da diretoria, os clientes chatos, o trânsito congestionado, o chefe insatisfeito, a gravata apertada, o computador arcaico e todas as outras mazelas do cotidiano da sobrevivência que exigem um repouso à alma. No final do dia em meio a ruas já escuras, o homem consegue avistar seu lar.

Um lugar de paz revelado por um sorriso saudoso naquele rosto cansado. Lembranças de alegrias proporcionadas pelos filhos - embora adolescentes e difíceis de agradar -, do carinho da mulher - mesmo que noite passada o tenha obrigado a dormir no sofá -, do sabor do jantar e do conforto de sua poltrona.

O chefe da família está cansado das agruras da vida. Por isso, quando chega ao aconchego de sua morada, deseja mergulhar no mar do entretenimento. A mãe angustiada pela rotina do lar, também espera uma nova receita ou um pouco de drama para acreditar que há famílias piores. O filho, imerso na sua infância ingênua, almeja sorrir do óbvio ou do surreal para fugir dos deveres que já lhe são impostos. A irmã, insatisfeita com a verdade refletida no espelho e preocupada com a aceitação das amigas, anseia conhecer a fórmula mágica das modelos e celebridades.

Enfim, a família quer escapar da crueldade do real. Viajar num mundo em que todos são lindos, apaixonados e ricos. Uma ficção onde o caos e o desespero não fazem parte do repertório. Mas será que isso é possível? Sim. Basta um aparelho televisor, uma antena e um controle para navegar no mundo dos sonhos.

A TV Azteca é uma dessas fontes inesgotáveis de sonhos. Para cada horário um devaneio diferente. Se você quer lágrimas escolha La vida es uma Canción. Mas se preferir risos, ! Ay caramba! pode ser uma boa escolha. São várias as opções, tais como Hechos Noche, Va que va, Ventaneando, Animal Nocturno ou Sex and the City - escolha este caso preferira sonhos mais intensos.

Pode vir quente

“Caliente” como toda boa mexicana, a rede Azteca opera os canais Azteca 13 e Azteca 7 com um terço dos capitais anunciantes do país – quase 400 milhões de dólares anuais. A emissora possui mais de 250 estações repetidoras só no México. Mas a empresa é gulosa. Insatisfeita, ela investiu na internacionalização da companhia e hoje reproduz sua “programación” pelo Canal 4, da Costa Rica, Canal 12, de El Salvador, Canal La Red, do Chile, além de lançar seus tentáculos em direção a República Dominicana, Honduras, Nicarágua, Peru, Equador, Los Angeles e Chicago.

Estatal até 1993, a emissora Azteca é o principal oponente do maior grupo de comunicação de língua espanhola, o Televisa. Por meio de uma mudança na grade de programação e uma boa estratégia publicitária a TV Azteca conseguiu ferir o monopólio histórico da concorrência. A emissora subiu de 5 para 30 pontos de audiência em cinco anos, alcançando a segunda colocação na preferência mexicana.

A Televisa, apavorada com o crescimento descomunal da rival vendeu à Hugles Communications, os 7,5% que detinha da maior operadora privada de satélites de comunicação do mundo, a Panamsat Corporation. O grupo resolveu fazer jus àquele provérbio popular que aconselha entregar os anéis para preservar os dedos.

O sonho da princesa

Impiedosa, a TV Azteca ameaça derrubar o império Televisa e abocanhar os 70% de audiência dominados pela adversária. Ela almeja ser rainha. Para conseguir o intento veste seu manto humanitário bordado de obras e serviço público. Entre seus projetos estão o Azteca Beca , programa de bolsas de estudos; Fundação Azteca, encarregada de lutar por um México melhor; e Estabelecimento Azteca, órgão responsável em dar oportunidades de melhorar o nível cultural da população.

O suposto “sueño” – ideal - da TV era participar da construção do futuro do México por meio da transformação da televisão mexicana. Entretanto, desviou-se dos trilhos com programinhas como Sex and the city ou Con sello de mujer. Acreditaram ser estes os materiais necessário para a construção de um México “melhor”.

É claro que se pode mencionar feitos significativos do grupo para a sociedade. Programas antidrogas, valorização da mulher e incentivo à educação são apenas alguns dos trabalhos sociais realizados nos 13 anos de TV Azteca.

No entanto, o grupo perdeu o foco num espaço de tempo muito pequeno. Esqueceu-se de seu “sueño” ao carregar seu conteúdo televisivo de Reality Shows e apelos sexuais. A emissora teve um início glorioso quando se propôs em construir um México para o povo, mas fracassou ao desejar ser rainha. Esqueceu-se que numa sociedade ideal não há diferença de classes, nem rei nem plebeu.

A TV Azteca tornou-se uma fábrica de “sueños” que paralisa as mentes, resseca as idéias e destrói opiniões.