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A lenda “Clarín”

Joelmir Melo

Conta-se uma lenda muito popular de um “grande comunicador”, ou melhor, o “maior comunicador” que já existiu na Argentina. Uns juram ser verdade, outros duvidam e outros arriscam não acreditar. Aí está a crença, na íntegra:

A “criança” nascida no dia 28 de agosto de 1945 já tinha um propósito forte e social. Seu pai, Roberto Noble, que era também advogado, jornalista e político, tinha um sonho de criar uma nova e confiável fonte de informação no contexto pós-guerra da Argentina. Aposta tudo no filho, que nasce quando ele (Noble) completava 43 anos. Muito bem “mimado” pelo pai e “educadores”, aos cinco anos de idade, Clarín, nome do filho de Roberto Noble, também chamado de diário, veículo ou jornal, ganha a simpatia do público com seu jeito ágil e direto.

Aos vinte anos de idade, muito bem nutrido e maduro, se torna o mais cobiçado em Buenos Aires, levando grande orgulho a Roberto “Pai” que, antes de morrer em 1969, vê ainda o nascimento da Fundação Noble, que até hoje trabalha para o “cumprimento da função social dos meios de comunicação, promovendo educação, cultura e incentivando a solidariedade”. Dois anos antes da morte de Roberto Noble, Clarín tem seu primeiro “filho”: é o primeiro diário a lançar uma revista semanal.

Órfão de pai aos 24 anos, Clarín, filho único da família Noble, tem agora sua mãe Ernestina Herrera de Noble (que assume a liderança do diário). Dizem os narradores que ela exerceu forte influência sobre o filho no restante de sua vida até hoje.

A viúva de Roberto Noble prova ser uma excelente executiva e nas três décadas seguintes inicia uma série de investimentos de expansão vertical, ou seja, Ernestina tem em mente tornar o jovem Clarín importante tanto na argentina, como no mundo de língua espanhola. Consegue. O parque gráfico é inaugurado em 1976 e em 78 se inicia a produção Papel Prensa, a primeira fábrica argentina de papel para jornais impressos, da qual o Clarín é sócio. E em 1985, Clarín é o mais lido no mundo hispano.

Agora, adulto e bem conhecido mundialmente, Clarín, com 45 anos de idade, por recomendação da mãe, adota seu primeiro filho: a Rádio Mitre, principal freqüência de Buenos Aires, em 1990. Inicia-se o plano de expansão horizontal do Grupo Clarín. No mesmo ano, animado com a rádio, uma “irmã” de Clarín, Artear (empresa do Grupo), ganha, por concurso, a licitação do Canal 13, um dos quatro canais de TV aberta da capital argentina e tão querido pelo quarentão Clarín.

O Grupo dá um passo importante para a popularização do veículo em 1991, ao iniciar na participação de produção e transmissão de eventos esportivos. Mas as “adoções” não param em 1990. Em 92 Clarín ingressa no mercado de televisão a cabo com a “adoção” do Multicanal, que ganha cobertura em vários pontos do país. Em 93, Artear, lança o TodoNotícia, canal informativo 24 horas, e o Volver, dedicado a “difundir conteúdos audiovisuais argentinos de todos os tempos”, como explica o site oficial www. gupoclarin.com.ar. Os primeiros filhos da irmã.

Aos 49 anos, o vaidoso Clarín resolve fazer uma plástica, encarando um forte redesenho integral. Em 1995, mais uma conquista para o Grupo: a irmã Artear inicia na produção de cinema. Com tantas adoções e sucesso, a festa de aniversário do, agora, cinquentão Clarín foi de um glamour e tanto. No espetáculo é apresentada oficialmente a declaração de propósitos do Grupo Clarín.

No ano seguinte, nasce mais um membro da família Noble. O Clarín.com com atualizações e recursos de multimídia é o site mais visitado no país de Maradona. Clarín, que surgiu como jornal impresso, não tinha ainda um filho legítimo, de raça e sangue impresso, diário. Isso até 1996, quando nasceu o grande sucesso e orgulho do pai: Olé, o primeiro diário esportivo da Argentina.

Até 1999, surgiu ainda a Empresa Prima, encarregada do conteúdo digital do grupo e a revista Genios, que foi lançada em 98 e se tornou a revista infantil mais lida do país. Ainda em 99, já velho e cansado o Clarín, com sua irmã e outras empresas, se constitui sociedade anônima. O banco Goldman Sachs se torna sócio minoritário com um investimento de 500 milhões de dólares.

Hoje, aos 61 anos de idade, velho e cansado, o Grupo Clarín é formado, pelo diário Clarín e conta com uma “família” enorme. Fazem parte do grupo as empresas Prima, Artear, Pol-ka (associada ao grupo), Patagonik (empresa em sociedade com Disney e Telefônica), entre outras. O Grupo possui várias revistas ( Pymes, Enseñar, Ñ, Viva, Elle, etc.), diários ( Clarín, Diário de Arquitetura, La Nación, Correo de Espana, etc.), canais de televisão ( Canal 13, TodoNotícia, Volver, Multicanal, etc.) e sites ( Clarín.com, Ciudad Internet ). Além disso, atua fortemente no mercado de conteúdos audiovisuais.

O Grupo Clarín não para de crescer. Em 2002 o faturamento foi de um bilhão e 482 milhões de pesos. Em 2004 foram dois bilhões e 150 milhões de pesos. Trabalham diretamente na S/A Clarín 7.791 pessoas e indiretamente, 22.963. As empresas que provêm serviços e bens ao grupo somam um total de aproximadamente 21.700. Informações do próprio site do Grupo.

Quanto ao final a lenda se divide. Uns afirmam que o grande comunicador vive em algum lugarzinho de Buenos Aires, mas a maioria diz que ele pode ser visto em todos os lugares da Argentina.