“Em um mundo cada vez mais globalizado, nosso compromisso, como grupo de comunicação,
se resume em uma premissa: servir ao povo todos os dias. Assumindo a função de
informar,opinar e entreter com a identidade e os valores que nos caracterizam.”
(Ernestina Herrera de Noble, presidente do grupo Clarín) Quem domina o mundo hoje? O dinheiro. Quem domina o dinheiro? Os bons investidores. Quem são os bons investidores? Aqueles capazes de prever os segmentos geradores de lucros e direcionar sabiamente seus investimentos por este caminho. Não é surpresa nenhuma afirmar que os empresários da comunicação se encaixam certeiramente neste perfil. Se o dinheiro é o que move o mundo, a comunicação, de certo modo, é o que move o dinheiro. Ela é o instrumento catalisador do mundo globalizado. É o elemento que dá liga a diversidade de culturas, de negócios.
Não é difícil perceber que a maioria dos empresários de importância no mundo, detém fatias grandes na área de comunicação. Investem em televisão, periódicos em geral, em entretenimento. Compreendem que dominar as massas é caminho certo de sucesso nos negócios. A América Latina tem exemplos claros de grupos de comunicação que se tornaram referência. Grandes grupos que a cada dia, impulsionados pelo negócio da comunicação, ampliam seu campo de atuação e conseqüentemente seu patrimônio, relevância e reputação.
No entanto, para chegar ao estágio em que se torna possível impactar a sociedade é necessário vencer o desafio de qualquer processo de comunicação. A conquista da credibilidade. O ato de comunicar só cumpre seu papel se o destinatário acreditar na mensagem. “O que somos hoje é resultado da preferência que conseguimos alcançar, como empresa, junto ao povo. Nos tornamos confiáveis, nos tornamos críveis”, declarou a presidente do grupo argentino Clarín, Ernestina Herrera de Noble. Os grandes grupos de comunicação latino-americanos têm muitas histórias, muito dinheiro e muito território para mostrar, mas tudo o que alcançaram ao longo dos anos é conseqüência direta da confiança que conquistaram junto a publico-alvo. Uma confiança nem sempre merecida.
Mais que comunicação Em 1929, Diego Cisneros, fundou uma pequena empresa de transportes na Venezuela. O negócio prosperou se tornando, em pouco tempo, a maior empresa de transportes de Caracas, capital do país. Cisneros, um homem de visão, passou então a investir em diversas áreas. Em 1940 comprou a franquia da Pepsi na Venezuela. Alguns anos depois, montou uma empresa de engarrafamento de refrigerantes. Os negócios se expandiram de forma tão surpreendente que na década de 60, Cisneros já possuía uma rede internacional de supermercados. É em 1961 que a primeira concessão de televisão é cedida à empresa e as transmissões são iniciadas.
Diego faleceu logo depois deixando a empresa nas mãos dos filhos. A Venevision, primeiro canal de televisão do grupo, ganhou espaço durante os anos e hoje é a emissora líder no país. Em 1982, Cisneros empreendeu uma iniciativa pioneira. Lançou a primeira emissora hispânica da televisão norte-americana. A Univision, como foi chamada, dominou o mercado de comunicação hispânico norte-americano e cresceu se tornando uma corporação gestora de mídias. Rádio, internet, televisão.
Mais tarde a Univision se associou com o grupo de comunicação mexicano, Televisa. Questionado sobre a iniciativa corajosa de enfrentar o mercado norte americano, Gustavo Cisneros, atual presidente do grupo, declarou: “Sempre tivemos total interesse neste mercado. O país que tem a maior renda per cápita de toda a América Latina é o país hispânico dentro dos Estados Unidos. Também tem maior estabilidade e capacidade de crescimento. É uma pena que muitas empresas ainda não se deram conta do dinamismo deste grande mercado”.
Hoje, o grupo Cisneros possui uma rede de companhias que se estende desde cadeias de televisão até redes de supermercados e iniciativas em telefonia celular. Seus negócios são conduzidos em diversos países americanos. Peru, Chile, Colômbia, Porto Rico, Republica Dominicana, EUA, e claro, Venezuela. “A única maneira de fazer negócios na América Latina é pensando em longo prazo. Os diferentes rumos que temos tomado através dos anos têm sido muito interessantes. Mas ainda há muito para fazer nos próximos dez anos. Ainda faltam, ‘dois' ou ‘três' segmentos para explorar”, afirma Cisneros.
O Clarín
O Clarín é o grupo de comunicação de maior expressão na Argentina. Também um dos principais no mundo hispânico. Gerencia mídias impressas, rádio, televisão, produções cinematográficas e portais de internet. Suas empresas empregam cerca de oito mil pessoas e possuem um faturamento anual de 1,85 milhão de pesos argentinos.
Tudo começou em 1945 quando Roberto Noble, jornalista e advogado, fundou o jornal diário Clarín em Buenos Aires. Devido ao novo estilo ágil e direto e a seu formato tablóide, em 1950 o jornal já estava entre os mais procurados da capital argentina. Durante a década de 60 o jornal alcançou a liderança nas vendas e o grupo lançou a primeira revista semanal do país. Em 1969, com a morte de Roberto Noble, sua esposa Ernestina Herrera de Noble assume a presidência da empresa. O parque gráfico foi adquirido em 1976 e na década de 80 o Clarín se tornou o periódico mais lido do mundo hispânico.
No início dos anos 90 o grupo começa sua ascendência horizontal. Adquire rádios, concessões televisivas, mais tarde se insere nos segmentos da internet. As produções impressas também se desenvolvem. Periódicos relacionados a esportes, moda e ao público infantil são produzidos. “Hoje, somos o mesmo de ontem, gente da comunicação. Primeiro no impresso, depois no rádio, na internet, na televisão, cada dia com novas tecnologias visando nos integrar como povo e visando a integração com outros povos”, declara Ernestina Noble. Segundo ela, o objetivo do grupo é primar pela veracidade da informação e edificar uma relação de confiança com o leitor. “O respeito para com o público é nosso compromisso”, conclui.
Exportando novelas
O grupo Televisa, do México, é um dos conglomerados mais importantes da América Latina em âmbito audiovisual. Sua atividade se concentra na produção e transmissão de programas de televisão e rádio, distribuição internacional destes programas, publicação e distribuição de revistas e discos, promoção de eventos esportivos e portais na internet.
Emilio Azcárraga Vidaurrueta recebeu, em 1955, a concessão do canal que chamou Televimex S.A.. Logo depois se uniu com outros dois empresários donos de concessões transformando esses três canais no Telesistema Mexicano. Alguns anos depois, por falta de programação e cansados da competição, o Telesistema Mexicano e o canal Televisión Independiente de México , pertencente ao grupo Alfa Monterrey, decidiram se unir. Dessa união surge então a Televisión Vía Satélite S.A., ou Televisa.
A expansão da Televisa começou nos anos 80 com a exportação massiva de telenovelas e programas humorísticos e de variedades como, Chaves . Durante os primeiros anos a rede seguia o perfil cultural educativo. No início da década de 90 mudou seu perfil, se tornando comercial. Foi nessa década também, que a Televisa ampliou seus segmentos. Internet, televisão à cabo, gravadoras de discos. Um pouco depois iniciou uma parceria com o grupo Cisneros no canal hispânico dos EUA, o Univision. Nesta mesma época a rede sofreu uma crise de credibilidade, pois assumiu partido político e manipulou informações. Isso deu chance de crescimento a sua concorrente, a TV Azteca. Foi necessária uma reestruturação da rede. Hoje a Televisa é a maior cadeia de televisão em língua espanhola do mundo. O formato de seus programas é freqüentemente copiado em diversos países, inclusive no Brasil.
Azteca
A TV Azteca pertence ao Grupo Salinas que é dirigido por Ricardo Salinas. Começou suas transmissões em 1993 com o objetivo de criar uma programação com nível para concorrer com a emissora líder até então, a Televisa. Hoje, é uma rival a altura de outros canais mexicanos. Sua programação incluiu noticiários, muitas novelas, programas de fofocas, atrações infantis e programas humanitários. Em 2000, o canal criou uma campanha social que se assemelha ao Criança Esperança, mas direcionada aos dependentes químicos, Vive sin drogas. O projeto viajou por diversas cidades mexicanas e ajudou mais de dez mil jovens dependentes de drogas.
Em 2001, a TV Azteca entrou no mercado norte-americano com a rede de televisão Azteca América. Também expandiu seus negócios se inserindo em outras mídias. Rádio, internet, impresso. Um ano depois passa a transmitir o reality show Academia, conhecido no Brasil como Fama.
Idealismo e hipocrisia
Milhares de pessoas são atingidas a cada dia pela política desses grupos. Sua linha editorial, suas posições políticas, seus interesses são repetidos incansavelmente todos os dias por meio das mídias que dominam. Esses grupos fazem dinheiro fácil vendendo sua filosofia, aproveitando-se do domínio que exercem sobre as massas.
Em seus princípios falam de idealismo, mostram teorias bonitas, pregam a vontade de servir ao povo, mas na ânsia de aumentar o patrimônio, sempre pecam ao manipular a confiança que os elevou ao nível de grandes grupos de comunicação. A confiança que o povo deposita neles. A confiança que lhes dá audiência e, por conseguinte, anunciantes, dinheiro. Mas uma coisa se comprova: a comunicação se tornou um caminho seguro para as minas do rei Salomão. E é nessa hora, na hora que o dinheiro está em jogo, que a comunicação muda de lado e o idealismo bonito se transforma em pura hipocrisia. |