Um ambiente confortável. Uma platéia animada. Uma apresentadora simpática. Histórias emocionantes. Um público que opina e dá sugestões. Especialistas que dão conselhos sobre problemas com o cônjuge ou com os filhos, soluções extraordinárias. Para aquela pobre mulher que vive em casa e o marido passa o dia inteiro trabalhando, essa pode ser a chance de melhorar a sua vida. Ela se sente sozinha, passa o dia todo cuidando do lar, não tem tempo para conversar com as amigas, e o marido? Quando chega em casa está cansado, só quer jantar e dormir.
Então, numa certa tarde, aquela mulher assiste um programa, com temas do cotidiano e que, justamente naquele dia, a questão abordada é a falta de comunicação: “Meu marido não fala mais comigo”. No mesmo momento ela pensa que esta pode ser a solução para o seu problema. Se não pode ajudar a melhorar a sua condição financeira, pelo menos o seu relacionamento familiar vai ser transformado. Logo decide participar e vai discutir na frente das câmeras questões particulares que, teoricamente, deveriam ser resolvidas em casa.
É esta a visão que muitos brasileiros com baixa condição financeira têm de alguns espetáculos televisivos. Eles são vistos como a luz no fim do túnel. E as pessoas, na sua ignorância, procuram por eles tentando obter uma vida mais justa. No entanto, estes são programas que exploram as tragédias pessoais das parcelas miseráveis da população.
Um exemplo prático disso é o programa Casos de Família , exibido de segunda a sexta-feira no SBT. Apresentado por Regina Volpato, o principal objetivo é orientar e até solucionar os casos, com a colaboração de um profissional na área de psicologia e comportamento.
Mas de que forma um “espetáculo” deste nível pode ajudar a diminuir os problemas familiares? Ou ainda, os conjugais? Lavar roupa suja em rede nacional traz algum benefício para a família? Não seria esta uma forma de atrair polêmica para, quem sabe, alcançar uns pontinhos a mais no ibope? Casos de Família seria uma boa indicação de programa educativo para a sociedade brasileira?
Jogo da Vida , apresentado por Márcia Goldschmidt na rede Bandeirante, tem como objetivo reunir corações solitários. Veiculado até o ano passado, é outro exemplo de “baixaria familiar” na televisão brasileira. O programa, cujo tema central é relacionamento amoroso, é dividido em vários quadros que falam de sexo, amor, sedução, abandono, traição, separação, dentre outros. É desta forma que os casais revelam a sua vida íntima para o Brasil, algo sem necessidade alguma.
Um dos blocos do programa é o “Espelho, Espelho Meu”, que escolhe, dentre milhares de inscritas, uma mulher que vai passar por uma série de transformações estéticas correção visual, plástica, corte de cabelo e outras. A “nova mulher” é apresentada como resgatada da uma vida infeliz e frustrada. Mas e os problemas da vida? Eles foram resolvidos? E quando faltar o dinheiro para que seja mantida a transformação? Será que isto não serve apenas para enfatizar o conceito de beleza imposto pela sociedade? No entanto, o programa se diz bem humorado e divertido, levando boa auto-estima, sensibilidade e emoção aos telespectadores, além de mostrar o direito de lutar pela felicidade.
Pior do que não ter boas condições financeiras, é ter um espírito pobre. É concordar com um veículo que se aproveita disso e visa mostrar “barracos” na televisão brasileira como desculpa para aumentar a sua audiência. |