home |
 

Aperte o botão

Danúbia Guimarães

“E sem dúvida o nosso tempo... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... O que é sagrado para ele, não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que para ele o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado”.

(Feuerbach, prefácio da segunda edição de A essência do cristianismo)

Não há explicação mais lógica para se entender o que leva milhões de pessoas a correrem para frente da TV ao primeiro toque do RPM na abertura do Big Brother Brasil, do que as palavras do filósofo alemão Ludwig Feuebach. Na sociedade pós-moderna, a palavra de ordem é ter ao menos a ilusão de ser “pop star”. O cidadão dessa sociedade acredita que sua vida real é pobre e não tem a mínima graça. O “barato” mesmo, é ser famoso, é ter a ilusão de poder aparecer na Globo em horário nobre e isso se torna uma aspiração além de unânime, quase que sagrada.

Para o pensador francês Guy Debord, na sociedade do espetáculo, os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real, uma vez que não podem alcançar o patamar de ser celebridade. É nesse cenário patético que, a indústria cultural, que não é nada boba, se aproveita e oferece um produto aos moldes da necessidade da massa, surgem então os Realities Shows .

Garantia de audiência estratosférica, as fórmulas semi-prontas introduzidas pelos ianques trazem praticamente a mesma composição. Como em uma receita de bolo, os programas como Big Brother Brasil, Casa dos Artistas, Casamento a Moda Antiga e cia apresentam pouca variação de conteúdo sem a mínima outra finalidade senão o entretenimento vazio.

Como não podem alcançar o estrelato, o público simplesmente contempla as “estrelas” criadas que vivem em seu lugar. As imagens tornam-se a expressão da realidade. Para Debord, a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem. Enquanto na sociedade anteriormente o “ter” era sinônimo de ser, no espetáculo chegou-se o reinado soberano do aparecer.

Alienação não declarada

Enquanto a dona Maria acompanha os perfis estereotipados do troglodita bonitão, a moça sarada, a pobre sem-teto com filha doente, e o gay bonachão, dos Realities Shows, o mundo a sua volta continua em frangalhos. O político corrupto é absolvido, a deputada debocha e faz “dancinha” para comemorar a absolvição do comparsa, os índices de desemprego e analfabetismo atingem o terceiro céu, enfim, e a dona Maria sem o menor conhecimento disso tudo.

Informar e propagar o mesmo conteúdo. Boa estratégia esta da Indústria Cultural, que nas palavras do filósofo alemão Theodor Adorno, deixa bem claro a situação atual da sociedade: "A civilização atual a tudo confere um ar de semelhança". Ainda em seus estudos sobre a Cultura de Massa, Adorno defende que essa Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente principalmente, daqueles que são formadores de opinião.

Uma maneira simples e indolor de manipular a massa, que, aliás, chama-se massa justamente por isso, porque pode ser amassada, moldada, enquadrada e levada para onde seus “donos” desejarem. O mais preocupante disso, é que essa “praga” de massificação se dissemina por todos os meios de comunicação, em quase 100% de sua programação. O antídoto para essa alienação toda? O botão “desliga” de seu parelho televisor!