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Além da fechadura

Franciele Mota

Uma onda de programas que mostram de forma simulada a realidade tomou conta da TV brasileira. Primeiro foi o programa No Limite da Rede Globo exibido em 2000, que trazia uma disputa entre doze participantes numa região retirada dos grandes centros urbanos. Um jogo de sobrevivência na disputa de um prêmio bem considerável, algo em torno de 500 mil reais. Muito? Depende do ponto de vista.

Já em 2001 desencadeou os reality shows urbanos, Casa dos Artistas , Big Brother Brasil e O Grande Perdedor , totalizando até o ano de 2006, onze edições. Urbanos porque herdaram algumas características do formato original europeu. Os participantes ficam confinados aproximadamente três meses dentro de uma casa bem estruturada, equipada com sistemas de câmera por toda a parte vigiando cada situação vivida.

Esses programas, campeões de audiência, também são produtos de ponta da cultura globalizada. Movimenta um volume enorme de capital, ameaça à teledramaturgia porque o telespectador não satisfaz mais com a ficção, ele quer o novo, real e diferente dos mesmos temas abordados nas produções, e mais do que isso, os reality shows fazem parte de um novo gênero de programação de TV que tornam numa infinidade de outros produtos

Eles vieram pra ficar, com um “currículo” brilhante, registraram nas duas emissoras que os programas foram exibidos, recordes no faturamento publicitário e altos índices de audiência. Mas como nada é para sempre, depois de tantos sucessos, eles podem declinar até acabarem como foi o caso do programa global No Limite que só chegou a três edições e Viagem ao Fim do Mundo exibido no SBT com uma edição apenas.

Na guerra pela audiência entre Big Brother Brasil e Casa dos Artistas , o mais prejudicado foi o programa da emissora paulista. Os dois programas, que eram semelhantes, só mudavam de endereço, eram recheados de palavrões, baixarias e sexo. O que levavam vinte milhões de espectadores acompanharem o cotidiano de algumas pessoas confinadas numa casa gozando de luxo? Esperavam que algo extraordinário acontecesse ou a satisfação de ser deus e decidir o futuro do jogador na disputa do montante também considerável?

Mas a casa do homem do Baú foi acusada de plágio. Enquanto os participantes curtiam seus dias de glória dentro da mansão no Morumbi, a Rede Globo acusava o SBT de plagio contra o programa holandês Big Brother . Silvio Santos defendeu-se afirmando que não podia copiar um programa de outra emissora se este ainda não tivesse ido ao ar.

Para provar que existia plágio, a Rede Globo proprietária dos direitos de exibir o programa no Brasil, apresentou na justiça uma fita de 20 minutos comparando o programa do SBT com o original produzido pela Endemol. Ainda na defesa, Silvio Santos alegou que todos os programas do gênero reality show teriam o mesmo formato e características. Com isso todos os apelos foram ganhos e não houve confirmação de plágio. Daí então começa a baixaria.

Edições de tapas e beijos

No começo a jogada foi esperta. Silvio Santos colocou dentro da casa pessoas com diferentes personalidades, eram atrizes, atores, cantores e modelos. Gente bonita, famosa e não muito educada. A convivência na mansão caracterizou alguns participantes pelo comportamento que eles apresentaram dentro da casa, como a imagem rebelde de Alexandre Frota, titulado como vilão manipulador, Núbia Oliver, mesmo com uma personalidade forte, foi a líder da casa durante as quatro semanas que esteve ali e Mari Alexandre que chorava dia e noite com saudades do namorado. Essa primeira edição também rendeu ficha limpa para Supla, filho do senador Eduardo Suplicy. O roqueiro popularizou seu cd “Charada Brasileiro”, mostrou valores diante de tanta baixaria e conquistou o coração da atriz Bárbara Paz vencedora da primeira edição.

Na segunda edição, o SBT usurpou o “padrão Globo de qualidade ” e apostou em pessoas mais famosas, com mais crédito na mídia, já que foi criticado por encaixar na casa artistas poucos reconhecidos na mídia. Abusou do bom humor espontâneo, regrado com curvas bem exploradas mulheres em alta na época. Joana Prado preocupada com a saúde e a beleza física dedicava todo tempo que tinha na academia da casa.

A casa ia bem não fosse o momento da superlotação. Silvio Santos viu seu programa perder audiência pela casa global e jogou pimenta na competição. Convidou uma que se diz princesa do povo. Carola entrou na casa e botou fogo em tudo, criticou os participantes, desrespeitou a produção, xingou a cantora Syang, por fim foi expulsa da casa pelos próprios moradores que suportaram-na 48 horas.

Foi uma cartada da produção do programa, afinal a vida monótona dos participantes já não rendia audiência. Corpos malhados, beijos molhados e carícias quentes debaixo dos lençóis já não era novidade. Além dos romances que estavam desenrolando-se na casa, Silvio apostou num barraco, já que os inquilinos estavam vivendo lua-de-mel em pleno bairro Morumbi. Carola Scarpa foi escolhida porque era uma pessoa polêmica, não tinha medo de expor o que pensava. Foi convencida de que era peça importante para o bom ou mau funcionamento da casa. Nos dois dias que esteve ali só azucrinou a vida dos participantes, ganhou fama de barraqueira e sujou sua imagem.

Como se não bastasse, a ex de Chiquinho Scarpa volta pra casa na terceira edição, só que como convidada de honra, com direito a fã. Mesmo assim seu ibope continuou baixo, foi eliminada na segunda semana, sem muitas brigas. Também na edição anterior pegou o bonde andando, já sabia de todos os babados escondidos e fez questão de trazê-los à tona. Praticamente foi contratada para infernizar a vida dos participantes e já previa seu futuro.

Outros cinco artistas também entraram na Casa dos Artistas 3 e dividiram o mesmo teto com seus fãs. O barraco dessa vez ficou por conta do cantor Agnaldo Timóteo, um cara sossegado e cheio de manias que incomodavam os outros moradores. Mas a baixaria não ficou só nas brigas, os absurdos foram os relacionamentos “calientes” entre os participantes. Solange Frazão teve sua conduta reprovada pelo público com relação ao namoro com o modelo Flávio Mendonça. A personal trainer deixou no lado de fora da casa seus filhos que acompanhavam as cenas quentíssimas da mãe com o novo namorado.

Uma casa no anonimato

A Casa dos Artistas Protagonistas de Novelas não rendeu a emissora o esperado, não conseguiram transformar os participantes em estrelas nem na época que o programa foi ao ar. As baixarias que eram expostas, que chamavam a atenção do público não foram tão exploradas quanto nas edições anteriores. Mesmo as intrigas e brigas entre participantes não eram suficientes para render audiência. Se antes era “um sucesso” ver Carola brigando com a galera, Agnaldo Timóteo emburrado porque foi escolhido pelo grupo para sair da casa, curvas bem definidas na piscina e corpos se esfregando debaixo dos edredons, é sinal que o SBT não conseguiu dar 15 minutos de fama para seus inquilinos anônimos como a concorrente fez.

A audiência das três edições mostrou que ainda a população gosta de bisbilhotar a vida alheia pelo buraco da fechadura e quando o clima esquenta a competição fica ainda melhor. O fracasso da quarta edição do programa de Silvio Santos se deu pelo desvio do interesse popular. Até o apresentador não agüentava mais as chatices da rotina dos participantes.

O SBT trouxe para dentro da casa pessoas anônimas e deixou a fama para quando saíssem de lá. Não jogaram da mesma forma que a produção da casa carioca que todo momento tratavam seus participantes com glamour e já consideravam como famosos. A Rede Globo transformou o Big Brother na novela da vida real. Essa foi a intenção do SBT na três primeiras edições, perderam o foco quando começaram controlar seus participantes na quarta edição. A decadência foi grande que nem fora da casa os participantes tiveram tanto retorno do que viveram dentro da mansão.

O fracasso se deu também pela qualidade de produção e nível cultural que as quatro edições apresentaram para o público. O programa chamava atenção pela curiosidade de saber o cotidiano de pessoas famosas idolatradas pela mídia, era a estratégia de acompanhar o desenvolvimento da vida social, da comunicação entre os participantes, o espírito competitivo e a preservação da privacidade.

Eles foram além, sentiram-se tão a vontade na casa e donos do saber que desenvolveram comportamentos não apropriados para o público que acompanhava, que era um entretenimento para todas as idades. Seus valores não foram bem definidos, os momentos de estresses, intrigas e raivas não foram reavaliados como parte da pressão que o grupo estava sofrendo. Todas as ações eram frutos do raciocínio emocional. A moral foi deixada de lado em nome da audiência. Se o povo assistia é porque gostava ou era a falta de opção?

Entre outros lamentos, a televisão foi usada nesses reality shows para expor somente a baixaria. Não são programas de informação nem chegam a deformar, mas acabam transformando e incentivando o comportamento do telespectador, seja na linguagem e vocabulário podre, nos relacionamentos sem compromisso ou traições e comportamentos reprovados pela sociedade. A televisão carrega a responsabilidade da formação do seu telespectador, programas como os reality show reservaram-se muito mais para a baixaria e futilidade do que educar e informar.