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“Censura” sim

Joelmir Melo

“O poder corrompe”, dizem muitos. “O poder revela”, dizem outros. Outras pessoas dizem que, para se conhecer realmente um homem, basta analisá-lo jogando futebol, ou participando de uma competição. O homem é competitivo e o que ele faz durante a competição é o que ele é.

O caso. O dia sete de setembro de 2003, o programa Domingo Legal, do apresentador Antonio Augusto Liberatto, o Gugu, levou ao ar uma entrevista com supostos membros, encapuzados, do PCC, organização criminosa chamada Primeiro Comando da Capital. Na ocasião, os entrevistados fizeram ameaças aos apresentadores José Luiz Datena, Marcelo Rezende e o comentarista Roberto Godoy. Descobriu-se que a entrevista foi forjada pela equipe do SBT, e a exibição do Domingo Legal de 22 de setembro foi suspensa por ordem judicial. Gugu responde processo criminal por crimes de ameaça e notícias falsas. Censura?

Bom, se Gugu foi corrompido quando ganhou ou conquistou a atenção de uma parcela significativa da população, isso já é mais do que ridículo. Se ele se revelou ao utilizar os meios mais ilegais possíveis, como um “carrinho por trás”, no futebol; ou uma falta desleal, no basquete para sair na frente no “jogo” da audiência, isso é mais reprovável ainda, pois se trata de uma questão de caráter, e seus privilégios devem ser retirados dele.

Ninguém, de boa fé e honesto, vota e elege alguém que é mentiroso tendo ciência disso. Nenhum indivíduo – repito -, de boa fé e índole nobre, se coloca frequentemente na presença de pessoas que vivem dando “mancadas”. Isso é consensual. Ora, se alguém vota em quem rouba em sã consciência e sobriedade, essa pessoa terá um benefício desse ato ilegal, por isso o elege. Nenhum jovem ou adolescente andará com colegas que contem seus segredos, que falem mal dele, ou que o faça de idiota. Essa idéia é comum. É premissa.

Se muitas pessoas te ouvem, logo, você tem poder. Para transformar isso em uma segunda premissa basta argumentar com dois casos. A Rede Globo, com o poder da edição, favoreceu Fernando Collor de Mello, que foi eleito. No caso Escola Base (ver edição Deslizes éticos da Imprensa), as pessoas envolvidas foram fortemente afetadas, patrimonialmente e psicologicamente.

Outra premissa: alguém só tem poder se exercer influência, seja ideológica ou física. Logo Gugu e muitos outros têm poder. Não é por acaso que a publicidade vale ouro e a chamam de “alma do negócio”.

Há duas maneiras de se acabar com o “abuso de autoridade” que indivíduos com esse poder exercem. Uma é por lei, estilo ditadura, que cá pra nós, não pode ser chamado de censura, mas de bom senso, pelo menos neste caso. No Brasil, talvez, isso seria perigoso. O outro é por meio de uma espécie de revolução, estilo Gandhi.

Escreveu a colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, “qualquer um de nós que tenha acesso à internet, ao cinema e à TV a cabo leva um susto, quase um soco no estômago, quando se depara com a programação da TV aberta num dia qualquer”.

Você liga a TV num canal e está passando um “enlatado” desses de quinta categoria e péssima tradução. Muda para outro e fica escandalizado com um programa de mau gosto sobre sexo, recheado de erros de português. Tenta um terceiro e dá de cara com aqueles seriados orientais em que todo mundo esfaqueia, surra e mata todo mundo. Como alternativa que tal um culto pentecostal? Um horror!

A conclusão é óbvia: quem tem mais dinheiro, mais educação e mais auto-proteção se vira com a TV a cabo; quem tem menos dinheiro, menos educação, menos acesso a informação (e, portanto, é mais vulnerável à baixaria) é jogado com o aval do Estado numa TV que, em vez de educar e construir, pode deseducar e destruir à vontade.

A TV, pois, é um dos mais poderosos instrumentos para aprofundar o fosso social no Brasil. Em vez de universalizar o bom e o bem, discrimina quem pode e quem não pode, concentrando o mau e o mal em quem menos pode se defender, e continua, “na Suécia, por exemplo, a publicidade de brinquedos e produtos para crianças só pode ser transmitida à noite. Por quê? Porque crianças não têm discernimento para separar joio e trigo, engolem qualquer coisa como bom produto. A publicidade sueca, portanto, é dirigida não aos filhos, mas aos pais. E ninguém fala em censura.”

Desliguem a TV! Se você não gosta de andar com quem só “dá mancada”, aí estão várias grandes mancadas. Tornar uma notícia sensacionalista é “mancada”. Exibir mulheres seminuas e acabar com a infância das crianças e, consequentemente do futuro, é “mancada”. Impor termos ridículos de um português pobre é “mancada”. Padronizar um estilo desestimulando a criatividade e originalidade é “mancada”. Porque então todos “caminham” e apóiam essa baixaria. Por que atribuir poder a esse tipo de pessoas e canais?

Quando se ouve e assiste, o indivíduo fica extremamente exposto à programação. Não dê credibilidade. A idéia é: desligue. Fale mal do conteúdo (ou falta de conteúdo) desses programas baixos e, alguns, até ilegais. Censure sim.