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A notícia nua e crua |
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| Dayse Bezerra |
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Em 1991, às seis e meia da tarde o telespectador antenado nas informações do dia, senta na poltrona e liga no canal do SBT para ver o que foi notícia. Outro telespectador senta para dar boas risadas, no mesmo “bat-canal” e no mesmo “bat-horário”. O programa é o mesmo, o jornal Aqui Agora. O entretenimento jornalístico trazia como regra o padrão do bom jornalismo, apresentar as “duas faces da moeda”. Mas a pergunta que não quer calar: quem lhe inspirou a arte do bom sensacionalismo? O extinto jornal Aqui Agora surgiu inspirado em dois programas, um argentino As duas caras da verdade, e outro brasileiro exibido pela Rede Tupi em 1979, que mantinha a mesma linha policial, mas que não durou muito. O motivo na época foi semelhante ao do Aqui Agora: ressuscitar a audiência de emissoras endividadas. O diferencial foi que o SBT conseguiu erguer a audiência, ao contrário da Tupi que em 1980 morreu de vez nas telinhas. Mas o Aqui Agora não durou muito tempo e em 1997 perdeu a sua vez. Viveu seus tempos de glória e também de derrota. Fama e vergonha. Do presente às lembranças de um slogan atraente e de uma verdade transparente “da vida como ela é”. Uma espremidinha... O jornal transformava a vida como ela é de um jeito mais chocante, ousado e apelativo. Para os mais críticos um verdadeiro show de sensacionalismo. Totalmente fora dos padrões Globo de jornalismo, o programa ganhava o seu próprio estilo “quase amador”, acompanhado de imagens tremidas, repórteres com roupas coloridas, muitos jargões, cenário em cores “espreme que sai sangue”, locuções exageradas e improvisadas – nisso eles merecem destaque - e com chamadas hilárias. Para atrair a platéia de telespectadores, o Aqui Agora fazia uma mistura de seriedade e bom humor nas chamadas, com entonação de radionovela, narradas por Luis Lopes Correa. Ele que não poupava seu “ingrês” quando anunciava as notícias. “Pinga despacha irmão”, “Bate Coração: A volta do morto vivo”, “Carro bomba: vai explodir assim na pista”. Estas notícias exclusivas do jornal Aqui Agora, e ponto final . O time... Na estréia, o telejornal foi apresentado pela dupla, Ivo Morganti e Patrícia Godoy. As matérias eram lidas com dinamismo e ar de suspense. Os comentaristas eram Sergio Ewerton, Christina Rocha e Luis Lopes Correa. Estes que muitas vezes faziam comentários superficiais e pouco convincentes. Nas ruas, os repórteres Montes, Gerson de Souza, Célia Serafim, Jacinto Figueira Júnior e o inesquecível Gil Gomes, que praticamente foi a “alma do telejornal”. A começar por “Giiiil Goooomes”. O cronista policial que conquistou no Aqui Agora - juntamente com a harmonia de sua voz, a postura e a interpretação - a responsabilidade pelas coberturas das matérias mais impactantes do programa. Muitos podem não se lembrar mais de detalhes do telejornal, mas deste repórter é quase impossível esquecer, quando foi muito imitado, inclusive até por seus telespectadores. Mas “O Homem do Sapato Branco”, Jacinto Figueira Jr. também se tornou famoso no Aqui Agora. Além de seu insubstituível calçado, a sua especialidade era averiguar os casos mais sobrenaturais e incomuns do cotidiano, como o assunto do “Chupa-Cabra”, que rendeu grande audiência ao telejornal. Celso Russomano se destacou com as matérias em “defesa do povo”. Ele sempre buscava - com a produção - resolver os problemas mais inusitados, como consumidores insatisfeitos com os seus fornecedores, e em muitos casos de brigas verbais terminavam em agressões físicas. Com a popularidade que Russomano alcançou no jornal, logo ingressou na política. Pelo jeito o seu lema permanece, “estando bom para ambas as partes”. Quando a notícia pedia “lágrimas”, a jornalista com voz rouca, Magdalena Bonfiglioli, entrava em cena. Em muitas vezes, a repórter se deixou envolver no caso, quando caía no choro. Diferente de Wagner Montes que se tornou dentro do telejornal uma espécie de investigador em casos policiais, que farejava como caçador suas presas. A ousadia do jornal foi tanta que até o lutador de boxe Adilson Maguila ganhou o título de comentarista econômico. Seu bordão: “E o povo ó...” Em seguida mostrava as luvas de boxe simulando um soco. Outro ícone do Aqui Agora era o quadro da previsão do tempo apresentado por Felisberto Duarte. O Feliz encenava as temperaturas e o clima. Exemplo: quando tempos de chuva, ela caia sobre a cabeça. Se fosse ensolarado, com óculos de praia. Para encerrar sua aparição sempre dizia "piririm, pororom e tempos felizes!". Contudo, foram tempos difíceis para o repórter João Leite Neto. Sua fama cresceu depois do caso “Danielle Lopes” (1993), quando encenou um pedido aos pais da jovem para a filha não se matar. Ocorre que ela já estava morta e o repórter estava ciente do suicídio. A emissora foi condenada judicialmente e João Leite partiu para o rumo da política. Lembranças... No início do telejornal, tudo parecia a salvação da emissora. Em 1992, com o Ibope nas alturas, o Aqui Agora ganhava uma segunda edição depois do TJ Brasil , batendo de frente com o Jornal Nacional . Até 94, o programa só ganhava novos adeptos e personagens. Em 1993, Cristina Rocha e Liliane Ventura dividiam a apresentação do programa. No ano seguinte foi a vez de Silvia Garcia, Sérgio Frias e o Feliz. Com uma equipe peculiar e o teor jornalístico de puro sensacionalismo, o resultado foi o sucesso em audiência para o SBT nos fins de tarde. Despreocupados com as conseqüências que o telejornal poderia provocar na análise-crítica e o comportamento social e individual de seus telespectadores – a maioria de classe C e D – a emissora parecia informar as notícias de maneira intencional as emoções do público. “Este é o receituário do jornalismo que exacerba emoções e transforma alguns jornalistas em policiais, juízes e, às vezes, executores da sentença” critica o jornalista Heródoto Barbeiro, âncora do Jornal da CBN , para o Jornal da Unicamp. Em 1995 o Aqui Agora perdeu seu prestígio e passou para a 13h30, deixando de ser exibido em muitas regiões do Brasil. Em seu lugar ficou o SBT Notícias. Mas a mudança durou apenas um mês e o Aqui Agora logo voltou ao seu horário costumeiro. Com a mudança do SBT para o Complexo Anhangüera (1996), o Aqui Agora e os demais telejornais da emissora receberam novos cenários e equipamentos. Em dezembro de 96, Eliakin Araújo e Leila Cordeiro, do SBT Notícias, passam a apresentar o telejornal Aqui Agora, incluindo a primeira edição ás 13h30. Além dos picos de audiência devido ao teor das reportagens e das melhorias estruturais, consequentemente ocasionaram a crescente violência dentro e fora dos estúdios, ou seja, “a causa e efeito”. A decadência do Aqui Agora começou quando o excesso de inspiração saguinolenta ultrapassou a ética permitida, após a exibição ao vivo do suicídio de um homem que se jogou do alto de um prédio. A partir daí o telejornal começou a morrer lentamente. Nesta ocasião, o Aqui Agora deixou de simplesmente noticiar, para ser noticiado. Tudo porque não soube frear as suas palavras, imagens e pautas jornalísticas. De acordo com o doutor em Filosofia da Educação da USP, Luiz Ferri de Barros, o sensacionalismo estimula a violência em virtude da banalização a que os fenômenos da criminalidade são submetidos, porque eleva ao estrelato os criminosos, que se vêem como figuras públicas de grande projeção e destaque. Para o articulista Danilo Angrimani, o sensacionalismo coloca uma espécie de lupa sobre um determinado fato e o amplia, "sensacionalizando" aquilo que nem sempre é sensacional. Isto explica o sucesso que o Aqui Agora teve, em respeito as suas matérias exclusivas, dramáticas e exageradas. Em 1997, o Aqui Agora ficou ao comando de Sergio Ewerton e Silvia Garcia. Passou um tempo fora do ar, mas deu seus últimos suspiros quando retornou em outubro sob o comando de Ney Gonçalves Dias, com duração de apenas meia hora. Como despedida, no ultimo mês de exibição o telejornal já se apresentava sem qualquer tipo de identificação, vinhetas e cenário. O jornal foi substituído pelo programa infantil Disney Club , que tinha outro público nada semelhante ao telejornal. O Aqui Agora desapareceu das telinhas, mas deixou sua herança genética de programas policiais de fim de tarde, com o surgimento do Cidade Alerta, da Record e Brasil Urgente, da Band. O Aqui Agora pode não ter sido o melhor exemplo de ética jornalística, mas serviu de inspiração para mostrar a verdade nua e crua, “da vida como ela é”. |
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