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“A TV não é o único meio que liga as pessoas ao mundo”

Paulo Mondego e Thiago Campossano

 

Uma semana com a TV desligada (e isolada com fita de proteção e tudo!): essa é a proposta da "Semana do Desligue a TV". O projeto, que ocorre dos dias 24 a 30 deste mês em mais de cem países, conta, pela primeira vez, com a participação do Brasil. Idealizado pela ONG estadunidense TV-Turnoff Network em 1994, a semana está sendo promovida no país do Faustão, Gugu, João Kleber & Cia pela organização sem fins lucrativos Instituto Alana.

Quem explica o projeto e comenta sobre a TV brasileira é o advogado e coordenador da campanha Marcos Nisti. Para ele, o mais importante é salientar que o "Desligue a TV" não é uma campanha para demonizar a telinha. O objetivo é conscientizar o brasileiro (que assiste mais de cinco horas de TV por dia) dos perigos da convivência exagerada com essa mídia. A preocupação do projeto é, em especial, com as crianças. "A única coisa que a criança brasileira faz mais do que assistir televisão, é dormir", critica.

Cerca de oito milhões de televisores foram desligados durante a "Semana do Desligue a TV" do ano passado. E a expectativa para este ano é que o número aumente. A grande estratégia da semana em 2006 é oferecer alternativas à população: "A televisão não é o único meio que liga as pessoas ao mundo. Existem livros, praças, museus, bibliotecas, teatros (...) você tem uma família pra conversar, tem um vizinho pra conhecer melhor, tem um filho pra brincar, enfim, tem uma vida para viver". E aí? Vamos desligar a TV?

Canal da Imprensa -
Por que só agora a semana do "Desligue a TV" é realizada no Brasil?

Marcos Nisti – Houve movimentos na internet há uns dois anos, mas talvez por falta de estrutura e organização maior, a proposta não encontrou o eco que realmente precisava. Mas agora está bem constituído no Brasil. A divulgação da campanha se fez justamente quando foi divulgada a pesquisa que revela o brasileiro como o povo que mais vê televisão no mundo. Chegamos um pouco tarde – mas antes tarde do que nunca. E agora vamos promover esse debate!

CI - Como avaliar o conteúdo da TV brasileira hoje?

M.N. – Embora o programa "Desligue a TV" faça parte de um grupo chamado "Ética na TV", a avaliação sobre o conteúdo da telinha brasileira não é feita por nós. O projeto "Desligue a TV", sozinho, não tem como atividade principal avaliar o conteúdo televisivo. Nossa preocupação é com o tempo que o brasileiro está gastando com a televisão.

CI - A TV está presente na maioria dos lares brasileiros como o centro de atrações da casa. Diante desse contexto, quais as conseqüências da TV ser a principal fonte de informação do brasileiro?

M.N. – Hoje, 98% dos lares brasileiros têm televisão, enquanto 94% têm geladeira. Para se ter uma idéia, o brasileiro, hoje, é o campeão mundial em tempo gasto na frente da televisão. Ele assiste em média cinco horas e sete minutos por dia – só as crianças assistem mais de quatro horas. A única coisa que a criança brasileira faz mais do que assistir televisão, é dormir.

No entanto, o "Desligue a TV" não é contra a televisão. Reconhecemos que ela é fundamental em uma sociedade pobre como a nossa e é um instrumento fantástico que possui capacidade para levar informação a todo País e, se possível, levar educação também.

O que defendemos diante da sociedade é a conscientização de que a telinha não é o único meio que liga as pessoas ao mundo. Existem livros, praças, museus, bibliotecas, teatros. E mesmo que não se não tenha acesso a nada disso, todo mundo tem uma família para conversar, um vizinho para conhecer melhor, um filho pra brincar, enfim, uma vida para viver. A proposta do "Desligue a TV" é que o indivíduo realmente assuma o papel de ator na sua vida e não só de espectador.

CI - De acordo com o estudo realizado na Universidade da Califórnia e publicado na revista Journal Pediatrics em 2004, a sexualidade precoce de adolescentes e crianças norte-americanas é resultado direto de influência da TV. De quem é a culpa: dos pais, das crianças ou da TV?

M.N. – Geralmente se fala que a culpa é dos pais. Atualmente, os pais estão inseridos em uma sociedade moderna na qual ambos, pai e mãe, trabalham. Isso provoca a dificuldade de não saberem dizer "não" ao filho, em função do pouco tempo que passam com eles. Nesse ponto, a culpa é dos pais.

Agora, é muito, mas muito difícil mesmo, você lutar contra uma empresa de bilhões de dólares! É quase impossível você lutar contra anunciantes que alimentam essa indústria e querem vender seus produtos. No fim das contas, acho que os pais de hoje estão cada dia mais incapacitados para tentarem resolver esse e qualquer outro problema provocado pela TV.

CI - Você acha que o telespectador brasileiro tem um bom senso crítico?

M.N. – É óbvio que a primeira resposta que vem a mente é "não". Mas acredito que essa não seja uma característica típica da população brasileira. Quando se está massificando a informação através da TV, o senso crítico do telespectador passa a ser questionado em vários países do mundo. O "Desligue a TV" não é um movimento brasileiro, ele é internacional. Nasceu há 11 anos no Canadá, se oficializou nos Estados Unidos, e atualmente está em mais de 80 países. É muito difícil criar um senso crítico quando uma indústria tão rica tem tanto poder sobre você, sua casa e seu filho.

CI - Como você avalia as tevês destinadas à divulgação de conteúdos culturais ou educativos? Elas estão desempenhando seu papel satisfatoriamente?

M.N. – Se você for ver hoje a TV brasileira e comparar com o resto das tevês no mundo, a do Brasil pode ser considerada uma das melhores. E as educativas também são de excelente qualidade. No entanto, hoje existem várias televisões educativas se rendendo ao mercado até para sobreviverem. Algumas delas se vendem por anúncios. Parece que o poder público não tem mais vontade de sustentar uma TV educativa, que é extremamente importante em outros países. Quando isso acontece, deixa-se de ser dono do seu conteúdo e passa a adequá-lo ao interesse dos seus patrocinadores. Mesmo assim, elas alcançam seus objetivos. Exemplos disso são a TV Educativa em São Paulo e a Futura, que deveriam ser mais assistidas. Contudo, ainda assim elas não deveriam ser assistidas mais que duas horas por dia – esse é o limite aceito internacionalmente para uma pessoa.

CI – A TV é mais perigosa quando se torna principal fonte de informação ou quando é o principal meio de entretenimento?

M.N. – Se usarmos esse termo, eu acho que nos dois aspectos a TV é perigosa. Porém, a questão da informação é a que traz resultados mais prejudiciais. Nós já passamos por essa experiência aqui no Brasil. Recebemos informações de uma fonte só e acabamos elegendo um Presidente da República por causa disso. Já a televisão como instrumento de entretenimento apresenta perigos como distúrbios alimentares, obesidade, apatia, problemas de aprendizado.

CI - Parafraseando Rita Lee: a TV nos deixa burros demais?

M.N. – Quando não há controle no ato de assistir à televisão, você passa a ter uma única fonte de informação, como dissemos no início da nossa conversa. Ter uma única fonte de informação e opinião é algo extremamente aborrecedor. Nesse sentido, o excesso de televisão deixa a pessoa bastante burra mesmo.

CI - O que fazer por uma TV melhor?

M.N. – Escolha o que você vai ver. È a melhor maneira. Selecionar o que assistir é a única forma e de não ser meramente um expectador passivo dos programas.