Em entrevista ao Fantástico e a revista Veja , Suzane von Richthofen ensaiou lágrimas forçadas e frases prontas na tentativa de usar a mídia para construir uma imagem mais positiva. Mas quem acabou se dando bem foi a própria imprensa.
O Brasil indignou-se, na última semana, com a entrevista que Suzane von Richthofen concedeu ao Fantástico e a revista Veja. Diante das câmeras e gravadores, a tentativa dos advogados de Suzane, que buscavam usar a mídia para construir uma imagem menos negativa de sua cliente ante a sociedade, mostrou-se um fracasso. Na verdade, o efeito foi totalmente o contrário: no dia seguinte ela estava de volta à prisão.
Choveram ao mesmo tempo críticas e louvores à Rede Globo por ter levado ao ar imagens gravadas antes da entrevista que mostravam o advogado Denivaldo Barni instruindo Suzane a chorar e se mostrar arrependida diante das câmeras. A revista Veja deu ênfase ao comportamento ensaiado e às tentativas frustradas da entrevistada em demonstrar emoções sobre o ocorrido. A partir daí, as palavras “farsa”, “armação”, “circo” e similares inundaram todos os veículos de comunicação durante toda a semana. Em vez de compaixão, o resultado do teatro montado pelos advogados de Suzane só produziu indignação.
Mas o que interrompeu o “sossego” de Suzane e ainda aumentou a repulsa da opinião pública, não foram as entrevistas em si, mas as várias e ultrajantes tentativas de manipular as autoridades e enganar a sociedade ali notadas. Além disso, as matérias do Fantástico e de Veja levaram a público questões como a relação tensa entre Suzane e Andreas – o que fez com que o promotor Roberto Tardelli pedisse a prisão da moça, considerando-a uma ameaça à vida do irmão.
Manipulação da mídia
Contudo, embora Suzane tenha pagado um preço alto pelas lágrimas ensaiadas e pelo discurso emotivo forçado, a opinião pública parece ter passado por alto o fato de que a imprensa também tem responsabilidade nessa farsa. E muita. É lição básica do jornalismo de que nem tudo o que se apura é publicado ou veiculado. Se a informação não é legítima, não merece tornar-se notícia – a não ser que a imprensa queira transformar a tentativa do entrevistado de manipular deliberadamente a informação em notícia. E foi exatamente isso o que aconteceu.
Para Maurício Cardoso, diretor do site Consultor jurídico, em artigo para o site Observatório da Imprensa, a tentativa de usar a mídia por parte dos advogados de Suzane foi a oportunidade que a imprensa queria para usar Suzane. “Fica evidente que os advogados pretenderam usar a imprensa para construir uma imagem positiva de sua cliente. Se deram mal. Desconstruíram o que ainda poderia restar de positivo na figura que defendem. Estão sendo cobrados por isso. A imprensa se vingou e usou a farsa montada com sua conivência em proveito próprio. Deu capa na revista e ibope alto na telinha. Para ela, ficou de graça.”
Suzane sempre sofrerá as conseqüências de seu ato brutal e incompreensível. Nunca terá vida normal. Será odiada e proscrita pela maioria das pessoas, onde quer que esteja. E ao consentir em promover uma encenação grosseira – que subestimou a inteligência de milhões de pessoas – apenas fez com que seu caráter bizarro ficasse mais exposto e seu nome cada vez mais sinônimo de vendagem e ibope.
*Texto originalmente publicado na coluna Canal da Imprensa em O Regional (18/04/2006). |