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Por uma TV melhor

Larissa Jansson

A programação de qualidade duvidosa – ou baixaria - da televisão brasileira de tempos em tempos é tema de debates, pesquisas, protestos, estudos e outras manifestações. Os estopins dessas temporadas moralistas podem ser a exibição de modelos servindo de mesas onde atores comem sushis, ou um apresentador pouco competente disparando declarações homofóbicas, além de muitas outras bizarrices e absurdos. Depois a poeira baixa e tudo volta ao “normal”, até que algo destrua um pouco do aceitável e reacenda a polêmica.

O principal problema da repetição de episódios como os citados acima é a própria impunidade e esquecimento, como em tantos casos neste país. Esta ordem de coisas deixa o campo livre para que o desrespeito ao telespectador vire algo corriqueiro e dá a entender que as emissoras não possuem nenhum tipo de responsabilidade em relação ao que “jogam” no ar.

O professor do curso de Comunicação Social do Unasp Valdecir Lima, explica que isso acontece porque “a qualidade da programação está vinculada ao ibope. E muitas vezes a qualidade jornalística não está relacionada com a notícia, mas com o entretenimento, o que compromete o jornalismo”.

Ainda sobre a qualidade jornalística brasileira, Lima afirma, “infelizmente o jornalismo é moldado mais por uma vontade da população do que ser fiel a uma realidade, do que passar uma informação educativa, uma informação pura e simples ”.

É notório que todas as outras áreas televisivas não apenas o jornalismo, fiquem prejudicadas pela irresponsabilidade das emissoras e a busca somente por audiência, em detrimento da qualidade e moral.

Engajamento

No entanto, existem iniciativas de organizações que buscam combater este tipo de impunidade, lutar pela moralização da TV e o respeito aos que a ela assistem com o objetivo de conscientizá-los. As ONGs “Desligue TV” e “Ética na TV” são dois bons exemplos disso.

A organização não-governamental “Desligue a TV” divulga uma proposta interessante. O site da ONG (www.desligueatv.org.br ) informa que “ esse programa consiste em um esforço concentrado para que, em uma semana por ano, as pessoas não utilizem a televisão em suas casas. Acontece de forma organizada, na mesma data e em vários lugares do mundo. Na Semana do ‘Desligue a TV', vários programas são propostos e implementados .” Estes programas sugerem outras formas de entretenimento para substituir a TV durante o período da campanha.

A página da ONG disponibiliza material variado com entrevistas e declarações de especialistas das áreas de saúde, além de escritores, jornalistas e outros. As notícias são constantemente atualizadas e orientações são dadas para quem se interessa pela causa.

O “Desligue a TV ” nasceu nos Estados Unidos em 1994. Lá tem o nome de “TV-Turnoff Network” e desde a sua fundação espalhou-se pelo mundo em 84 países, envolvendo mais de vinte milhões de pessoas. Em 2005 chegou ao Brasil e a primeira campanha em terras tupiniquins será entre os dias 24 e 30 de abril de 2006.

Já a ONG “ Ética na TV” possui o lema “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”. É uma campanha de ação conjunta entre políticos e cidadãos comuns que visão preservar os direitos humanos e a dignidade dos cidadãos na mídia.

A ONG estuda e classifica os programas veiculados na televisão brasileira, oferece espaço para denúncias de programas que os telespectadores julgam ofensivos. Disponibiliza artigos, pareceres, notícias, projetos de leis. Mostra as várias parcerias com outras ONGs e entidades civis. Procura também conscientizar a sociedade, expondo leis e tratados que apóiam a campanha.

O site “Ética na TV” (www.eticanatv.org.br) expõe um ranking dos programas de televisão mais denunciados pelos cidadãos. No período de junho a novembro de 2005 o programa Pânico na TV da Rede TV! ocupava o primeiro lugar na lista com 3189 denúncias. As principais reclamações em relação ao programa são o vocabulário baixo, exposição de pessoas ao ridículo e supostas cenas de maus tratos a animais.

Em seguida estão os programas de João Kleber – fora das programações brasileiras desde 2005 e armando barracos com seus testes de fidelidade na TV portuguesa – e o Casseta e Planeta com votações mais modestas: 344 e102 denúncias respectivamente.

Mudança de hábitos

Apesar das reclamações é preciso reconhecer que este tipo de programação só existe porque o público assiste. Se assiste, é porque aprova. Logo, é importante buscar alternativas que criem um senso crítico mais apurado e exigente. A professora de educação infantil Taís Solange Caldeira, 29 anos, e estudante de pedagogia, diz que “a qualidade da nossa programação é péssima. Os programas são horríveis, cheios de ‘mensagens subliminares'”.

Segundo Taís, a solução para o problema não se alcança em curto prazo. E indica o hábito da leitura para a formação de mentes mais seletivas e críticas. “É necessário mais incentivo à leitura. Hoje está muito fácil. Ninguém mais gosta de ler porque sentam na frente da televisão e todo o entretenimento está ali. Mas quem gosta de ler geralmente não perde tempo assistindo programas ruins. A leitura estimula a criatividade e a mente. Mas é um hábito que precisa ser estimulado. Não é todo mundo que gosta”. Ela chama atenção para o papel dos meios de comunicação para o desenvolvimento do sendo crítico nos cidadãos. “Se a rede Globo, por exemplo, fizesse uma boa campanha de incentivo à leitura, mais pessoas passariam a ler, com certeza”.

A mídia não pode passar por alto o seu dever de oferecer programações com um mínimo de qualidade e respeito. E tem a obrigação de sempre contribuir para o progresso da sociedade, formando opiniões esclarecidas, baseadas em valores elevados. De outra forma não teremos uma sociedade crítica capaz de reivindicar seus direitos.