Imagine-se numa terra do Nunca, onde nunca, sempre será nada e onde tudo, permanece nunca. Um lugar em que a ausência do tudo é a presença do nada e a aparência de absoluto é a verdade obsoleta. Viver ali é ter a certeza da possibilidade de ser impossível. É abraçar o bandido e votar no carrasco.
Um País onde a sociedade endeusa sua própria imagem, refletida num imenso espelho d'água. O movimento da vida acontece entre um carnaval e outro, entre o orgulho de nada e o desejo de si mesmos. É o ardil da fé em crer que Narciso é o pai da psicanálise.
Lá mora um povo simples que, assustado pelas mentiras e castigado pelas promessas, canta e dança embalado pelo conformismo: “deixa a vida me levar, vida leva eu”.
Nessa terra, gigante pela própria natureza, o sol brilha, o cão ladra, o vento sopra, a macieira dá maçãs, o peixe nada e os homens também. Na verdade, o nada ainda é muito.
O homem nada, nada e nada faz, enquanto o azul da tela brilha em seu olhar. Enganados pela sensação, os brasileiros se embriagam com os produtos do maior complexo de entretenimento, o SBT .
Há muitos anos atrás, quando o homem ainda pensava que pensava, a emissora rivalizava o mercado com a Globo. No entanto, hoje o SBT engole a maior fatia desse segmento, repartindo o bolo dos canais abertos somente com a Rede TV e a Record .
A falência da Rede Globo se deu quando a corrupção deixou o exterior do homem para ocupar a sua alma. Eis, então, que morreu a filha de Marinho. Mas como nesse país o nada ainda é muito, a CNN ( Cable News Network ) , vestiu o português e passou a ser a menina dos olhos dos brasileiros, assim como todo o presente do Tio Sam.
Entretanto, a graça logo foi se transformando em desgraça, pois os brasileiros não estavam preparados para informação, informação e só. Afinal a falecida acreditava mais na falta de conhecimento do que na presença dele. Além disso, a CNN sempre foi muito parcial, valorizando mais os interesses de sua pátria-mãe aos ideais desta nação.
É claro que a CNN fez com que o jornalismo brasileiro crescesse significativamente. Ele deixou de ser “nacional” para ser individual. Cada âncora passou a ser um pouco mais Casoy, com informação, discussão e opinião livre e definida. Um trabalho impecável, a não ser pela mentira.
Novela Jornalística
Mesmo sem produzir novelas, a CNN não dispensou o diretor de teledramaturgia, utilizando o talento nativo para produzir e reproduzir o engano. A emissora não se envergonha de mentir. Na verdade, chama isso de técnica: a arte de enganar os mais fracos. Fotos falsas, imagem distorcidas, choro sem lágrimas, fatos omitidos ou até mesmo acrescentados. Um jogo em que vale tudo se o objetivo é fazer com que a “mãe” saía como a mocinha imaculada, ainda que para isso o jornalismo de opinião e formação seja manchado.
O jornalismo nacional com cara de menina mimada, que esconde a arte atrás da face inocente, perdeu sua identidade. Deixou de ser para simplesmente não ser. Entrou em depressão, sofreu desilusão e morreu de frustração.
Obrigados a digerir um jornalismo importado, sem prazo de validade, o povo brasileiro rejeitou a informação e optou pela diversão. Decidiu viver no mundo do riso, da sátira, do apelo sexual, do irreal, da desinformação e da alienação: entretenimento. Resolveu ser o que sempre sonhou em nunca ser, mas pouco importa, pois o nunca sempre será nada.
No entanto, se tudo sempre permanece nunca, ser nada nunca é permanecer tudo. O povo brasileiro perdeu Bonner, Bernardes e outros, mas ganhou consciência. Cansou de rir e começou a pensar. Percebeu que entretenimento não forma, nem norte-americano informa. Aprendeu a distinguir o que é louvável e o que é pecado. E sem chorar com as falhas e aventurou-se ao bem.
Elaborou um jornalismo natural repleto de sulcos e de cicatrizes, mas o que são as rugas, senão o crédito. O Brasil amassou o seu passado, listou suas metas e foi a conquista de si mesmo. Por intermédio de um jornal comunitário revelou os enganos da CNN e divulgou as ilusões do SBT. Lutou, investigou, informou, formou e transformou o não ter em ser.
Decidiu mudar o tema de seu país de Nunca para Sempre. Sempre confiante de que um dia o nada será tudo, pois nunca pode ser quase nada. |