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Sob os olhos da águia

Larissa Jansson

Todos os componentes das diferentes culturas (idioma, tradições, valores, dentre outros) sofrem direta ou indiretamente o poder adulterador dos diferentes impérios e nações que governaram o mundo desde a alvorada dos tempos. Durante toda a história, culturas e civilizações foram reduzidas a pó sob os pés de diversos conquistadores.

No decorrer do século XX a descaracterização da cultural mundo afora, e a implantação já não tão disfarçada dos valores estadunidenses em diferentes sociedades ocidentais – “amigavelmente” ou à força - ocorreu de modo mais profundo e duradouro do que qualquer outro poder anterior.

Até o começo do referido século, a sociedade brasileira era influenciada pela Europa, principalmente a França. Especialmente as classes abastadas absorviam a conduta e o pensamento europeus, o que obviamente influenciava seu comportamento e mentalidade. E assim foi também com a imprensa da época.

Essa influência passou a diminuir enquanto a nação estadunidense foi ganhando forças, e finalmente tornou-se o poder dominante do bloco capitalista nas décadas seguintes à segunda guerra mundial.

É importante observar esse impacto na mídia brasileira, por exemplo. A identidade da imprensa tupiniquim, o teor de suas notícias e o modo como ela procura influenciar a sociedade sempre teve como objetivo - salvo raras exceções – sustentar e apoiar o capitalismo e mais recentemente a globalização, algumas das principais políticas dos EUA.

No artigo “ O impacto da mídia americana no jornalismo brasileiro: interpretação de um modelo ou caricatura?” da professora de Jornalismo da Florida International University, Heloiza Golbspan Herscovitz, informa que:

 
“Na primeira metade do século XX, o cinema, a música e a literatura americana abriram espaço na cultura brasileira, confinando a influência francesa ao mundo acadêmico. Jornalistas brasileiros convidados a estagiar na mídia americana ao longo de várias décadas, entre os quais Pompeu de Souza, Samuel Wainer, Pimenta Neves e Alberto Dines, implantaram nas redações brasileiras as bases do jornalismo americano. O lead, o uso da pirâmide invertida (o mais importante no começo) para a criação de um texto mais homogêneo e objetivo, a criação de editorias e do arquivo, e outros elementos relacionados com a administração, produção e visual gráfico são alguns exemplos.”

Auto-imagem deformada

O fortalecimento do american way of life no Brasil e uma já enfraquecida e deformada auto-imagem nacional renderam ao jornalismo nacional uma identidade clonada da imprensa americana, tanto na produção quanto na divulgação dos fatos.

Poucos anos após o fim da guerra fria os americanos conheceram seu novo inimigo: o terrorismo. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 o mundo nunca mais foi o mesmo. A maioria da imprensa americana deixou-se acuar pelo medo – aproveitado e fomentado pelo governo com o fim de manipular a nação – e passou, por assim dizer, a apoiar as investidas de George W. Bush para “proteger” a nação. Mesmo que estas medidas fossem flagrantes violações de direitos básicos do povo estadunidense até a eclosão de mais uma guerra absurda baseada em mentiras.

A imprensa brasileira, assim como tantas outras, cumpriu o dever de casa informando os fatos, mas só isso é superficialmente. Seja com relação a temas como terrorismo, instabilidade no oriente médio e a real condição dos Palestinos sob a opressão israelense apoiada pelos EUA, a relação tensa entre Hugo Chávez e a elite de seu país ou a recente crise nuclear e diplomática deflagrada pelo Irã e tantos outros, foram e são transmitidos ao povo mediante o modelo formatado das agências de notícias e emissoras estrangeiras reconhecidamente manipuladas.

Muitas vezes o que se vê nos noticiários é a repetição traduzida para o português de noticiários das emissoras norte-americanas, principalmente a CNN. O resultado é que só o ponto de vista ocidental é evidenciado; outras questões não são sequer citadas. E isto caracteriza um jornalismo pouco relevante para países com realidades e interesses totalmente opostos aos que produzem estas notícias.

É obvio que não é possível para muitos veículos enviarem correspondentes a diferentes países e produzirem matérias no momento e local dos importantes acontecimentos internacionais. Mas é perfeitamente viável – e obrigatório – que se informe com detalhes aquilo que realmente ocorre no mundo e as conseqüências reais dos fatos para a realidade brasileira. Contar a história passada e presente tal como ela é, incentivando desta forma a reflexão.

Atualmente a maior parte da mídia no Brasil tem agido como um papagaio, repetindo praticamente tudo aquilo que seus opressores desejam. Não tem e parece não querer ter autonomia para apurar e encorajar o debate de fatos internacionais, sob uma ótica interessante para a nação brasileira. Age como autômato sob os olhos satisfeitos da águia americana.