home |
 

Tudo pelo sucesso

Ana Carolina Riguengo

O Reino e o Poder, de Gay Talese; (Editora Cia das Letras; R$ 48,00).

O jornal impresso norte-americano New York Times certamente é um dos mais conhecido do mundo. Fundado em 1896, o periódico cobriu diversos fatos históricos, entre eles a Segunda Guerra Mundial.

No livro que fala sobre a “dinastia Times” com um título bem sugestivo, O Reino e o Poder, o autor Gay Talese descreve toda a trajetória do veículo fazendo um apanhado histórico desde a compra do falido Chattanooga Times. A compra foi feita por Adolph Ochs que depois de muitos investimentos e transações comerciais construiu um jornal, que mais tarde se transformou na potência atual, o New York Times.

Mas o autor não se contenta com pouco. Talese conta sobre as poderosas famílias que construíram o periódico, Ochs e Sulzberger, ambas descendentes de judeus alemães. Ochs deu uma nova cara ao jornalismo norte-americano, que antes era construído basicamente de matérias sobre vexames e folhetins de ficção romântica. Ele acreditava que o jornalismo deveria ter um teor mais informativo. Foi a partir das idéias de Adolph Ochs que o jornal começou a cobrir alguns acontecimentos classificados como utilidade pública.

Talese também dá ao leitor um vislumbre de como funciona a redação de um jornal de grande porte. Escancara não só a exploração do glamour que existe em relação ao veículo, mas também dá um relatório geral das picuinhas que existem entre repórteres e editores. E mais, fala do favoritismo presente entre alguns membros da chefia para com os “operários” da redação.

E o autor vai mais fundo. Ele mostra que a implicância que existe por parte dos que ocupam cargos mais elevados, pode ser sinônimo de demissão de determinados funcionários também, mesmo porque as rixas entre os jornalistas do Times não se limitam somente ao ambiente profissional.

Um bom exemplo é o desafeto que havia entre um dos editores-chefes da redação em relação a um copidesque “novato”. Não ter caído nas graças do editor foi o que bastou para que o “foca” fosse despedido.

É motivo de briga também se alguém ousa sentar em outro lugar que não seja o seu. No Times cada um tem a sua mesa, computador e cadeira específica, e isso já é determinado pelo grau de “poder” dentro do jornal. Os repórteres novos e copidesques ficam no canto final da sala e os principais revisores e editores do centro para o início da redação.

Talese também relata o estresse que toma conta da redação por causa do partidarismo dos profissionais. É interessante que até coisas como expor os ex-presidentes John Kennedy e Richard Nixon, como bajuladores de jornalistas por seus interesses e seus pedidos de “ajuda” nos editoriais, são colocados em evidência.

Além das eternas brigas comuns na redação, uma coisa que muito dificultava a relação dentro do Times era a sucursal em Washington. Um dos maiores empenhos de Iphigene Sulzberger era justamente quebrar os “feudos”, no sentido de que a redação de Washington se sentia menos favorecida pelos editores novaiorquinos. Entre os jornalistas de Washington, a principal reclamação era a falta de autonomia na publicação na cobertura das informações.

Fatos e interesses

A falta de interesse em certas publicações como o relato da revolução cubana, foi no mínimo estranho. Isso provocou um grande choque entre os editores que criticavam a atitude do publisher. A maioria defendia o compromisso do Times com as notícias pertinentes aos cidadãos estadunidenses. Mas Reston e Dryfoos, os principais editores na época, acreditavam ser melhor ocultar alguns relatos, como a participação da CIA no episódio.

A justificativa para tal restrição era de que eles estariam preocupados com a segurança nacional. Acreditavam que as informações, se fossem dadas de forma fidedigna aos acontecimentos iriam causar muitos problemas à nação.

No livro, Talese parece ter sido realmente fiel ao contar o que se passa na redação do New York Times. Isso porque ele não fez questão de “mascarar” os podres do jornal de maior sucesso no planeta.

A partir da leitura de O Reino e o Poder, pode-se ter a impressão da realidade vivida num ambiente jornalístico: a inveja, a pressão e o favoritismo. Gay Talese deixa claro quais são os principais problemas enfrentados pelos profissionais. Mostra ainda ao leitor a “verdade nua e crua” que não só os jornalistas do New York Times se sujeitam, mas todos aqueles que desejam o sucesso a qualquer preço.