home |
 

Sob o domínio do sol nascente

Giancarlo Sorvillo

O Japão sempre foi um país com tendências expansivas e influenciadoras, como pôde ser visto na II Guerra Mundial, quando os japoneses se uniram com os nazistas, a fim de estenderem seus domínios territoriais, que aconteceu ao invadir a China e outros países asiáticos. Foram extremamente ousados quando literalmente mandaram a base militar americana no Havaí, Pearl Harbor, “pelos ares” num ataque-surpresa. Eles foram os pioneiros nos atentados suicidas, quando começaram a jogar aviões carregados de bombas contra navios de guerra americanos, dando muito trabalho para as tropas aliadas.

Apesar da derrota sofrida junto com o nazismo, os japoneses não ficaram prostrados. Aproveitando as ajudas do Plano Marshall, um projeto americano de ajuda financeira a países que adotassem o capitalismo como sistema econômico, eles mudaram a estratégia de conquista. Em vez de ataques suicidas e ameaças militares, os japoneses fincaram a bandeira do sol nascente na cultura e mentalidade dos ocidentais, que particularmente são fascinados pela filosofia e pensamento oriental. À parte do budismo e das meditações transcendentais que exercem grande influencias no ocidente, o Japão conquistou toda uma sociedade pelas historias em quadrinhos com um estilo um tanto peculiar: o mangá.

Entre 1814 e 1849, o artista japonês Katsushita Hokusai, retratou cenas do cotidiano com pessoas em situações e traços pitorescos. Esta coleção de caricaturas recebeu na época o nome de Hokusai Manga, dessa forma nascia o primeiro trabalho que resultaria nos atuais quadrinhos japoneses. Porém, somente em 1946 com a publicação do mangá A Nova Ilha do Tesouro, produzido pelo artista Osamu Tezuka, este estilo de desenho se consagraria. Quando criança, Tezuka costumava freqüentar o teatro e se impressionava com os olhos das cantoras, que por causa da maquiagem, pareciam maiores. Eles expressavam sentimentos e emoções das mais variadas formas, dependendo do contexto da peça teatral. Desse modo, os grandes olhos foram introduzidos nos seus desenhos dando origem a um dos inconfundíveis traços do mangá.

A tática de conquista japonesa constitui na mentalidade oriental de quadrinhos, que ao contrário da ocidental, histórias em quadrinhos são leitura comum de uma faixa etária bem mais abrangente do que a infanto-juvenil. A sociedade japonesa é ávida por leitura e em toda parte vê-se, desde adultos até crianças lendo revistas. Por isso, os mangás são classificados de acordo com seu público alvo.

Mangás para meninos tratam normalmente de histórias de luta, amizade e aventura. Mangás para meninas tem como base as histórias de amor. Além desses, existe uma corrente mais realista de mangás voltada ao público adulto e ainda os gêneros para homens jovens, e para mulheres. Os traços típicos do mangá olhos grandes, expressões caricatas não são encontrados nesse último estilo. Existem também os mangás pornográficos, que retrata a relação sexual hetero e homossexual. Há ainda o estilo de heroínas que agradam mulheres e homens no geral, tais como Sailor Moon e Guerreiras Mágicas.

No Brasil, os mangás chegaram nos anos 90 com a publicação de Akira, pela Editora Globo e Lobo Solitário, pela Editora Cedibra. Mas o que realmente “estourou” foi os desenhos animados no estilo mangá, conhecidos como animês. Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Pokémon, definitivamente conquistaram crianças, adolescentes e jovens. Esse fenomeno japones já conquistou países, como o próprio Estados Unidos, França - um dos países que mais ama mangás - Coréia do Sul, que vem desenvolvendo um estilo próprio de quadrinhos baseado em Mangás e até os anúncios publicitários e as revistas das mais diversas trazem personagens no traço japonês.

Todavia, uma rápida olhadela nos animês e quadrinhos mangás, ver-se-á uma constante ênfase na violência, sangue, guerras entre seres poderosos, erotismo e uma grande dose de emocionalismo que se confunde com a luta e a morte de personagens, muitas vezes “por amor”. A verdade é que a cultura militar, imperialista e vingativa apresentada nos quadrinhos japoneses mostram que não há barreiras para influências ideológicas para uma sociedade, mesmo que esses valores e princípios venham do outro lado do mundo, lá onde nasce o sol.