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Herói pós-moderno

Vanessa Candia

Elijah Price poderia ser considerado um garoto como tantos outros se não sófresse de uma doença conhecida como ossos de vidro. Por isso, não podia brincar com as outras crianças, pois qualquer queda poderia fazer com que seus ossos se partissem em mil pedaços. Sendo assim, Elijah, passou metade de sua vida confinado numa cama, em um quarto que se tornou seu mundo. Então, o garoto mergulhou no fantástico mundo das histórias em quadrinhos. No entanto, aquelas histórias passam a fazer parte não somente do mundo imaginário de Elijah, mas também do seu mundo real. E assim, ele viveu completamente imerso nesse mundo “irreal” dos quadrinhos.

Do outro lado, vivia David Dunn, um garoto como tantos outros. Ou não? Isso seria posto em dúvida quando um dia Elijah e David se encontram. Elijah procura David após este ter sofrido um acidente de trem do qual foi o único sobrevivente. Isso chamou a atenção de Elijah. Como poderia alguém sofrer um acidente tão grave sem sequer um arranhão? Uma pessoa assim, só poderia ser um homem dotado de caracteristicas – ou poderes - superiores aos dos cidadãos comuns.

Assim se desenrola a trama do filme Corpo Fechado (2000), estrelado por Bruce Willis (David Dunn) e Samuel L. Jacksón (Elijah Price), que diferente dos filmes de super-heróis, mostra que o universo dos quadrinhos pode ser mais próximo da realidade do que se imagina. A intenção aqui não é fazer uma resenha, mas mostrar, usando o enredo do filme, que as HQ's podem sim, influenciar a vida das crianças.

"A criança precisa vivenciar os mitos dos heróis para entender a realidade. Até oito, nove anos, ela elabora os sentimentos por meio das brincadeiras", diz a psicóloga Andréa Nolf, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da PUC-SP (Folha Online 25/4/2006). No entanto, é preciso que ela também entenda a diferença da realidade das HQ's e da vida real. A leitura de gibis ajuda na educação, pois faz que a criança crie gosto pela leitura e, em alguns casos, é o primeiro contato com as artes.

Por meio delas, elas aprendem uma linguagem visual assim como a teoria cromática, o desenho de observação, releitura pictórica, texturas, perspectiva, modelagem e escultura, acredita Evandro Gregorio, coordenador da Escola de Artes da Fábrica dos Quadrinhos. E não apenas isso, mas a leitura de quadrinhos, segundo Jose Alberto Lo vetro, da Associação de Cartunistas do Brasil, contribui para a “formação de uma consciência crítica nas crianças e permite um aprendizado mais eficaz de conceitos escolares”.

Uma pesquisa feita pela Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (Esamc), comprovou que a maioria dos leitores é formada por pessoas com boa formação escolar, sendo 28,8% com formaçao universitária. E a pesquisa segue mostrando que 61,4% dos leitores se preocupam com a linguagem a forma com que o português é utilizado nas histórias. E 51,1% aínda lêem gibis em outras línguas. Ou seja, a leitura de HQ's pode ser de grande contribuição para a educação futura da criança.

Tanto que, voltando ao nosso persónagem principal, Elijah, o Senhor Vidro, como era chamado pelas outras crianças nos filmes, não era um homem fora da realidade. Ao contrário, possuía uma cultura vastissíma, pois, como era um especialista em HQ's, interessava-se pela história dos personagens, pela arte dos traços, enfim, por tudo o que envolvia a criação dos vilões e heróis. E com isso aprendia política, economia e artes, pois estudava o contexto sócial em que os super-heróis haviam sido gerados. O sóciologo Nildo Viana explica que esses personagens “são produtos da nossa sóciedade […] Na maioria dos casos isto ocorre de forma não intencional, sendo apenas a reprodução de uma contradição existente na realidade. Mas, também pode haver uma crítica consciente .” (Revista Galileu, n°156, 7/2004).

Mas, o filme continua. E agora, após ter “descoberto” que David era um homem diferente dos demais, Elijah procura se aproximar dele. Mas, David, um homem comum, ex-jogador de futebol, não acredita quando Elijah tenta convecê-lo dos seus “super-poderes”. Mas, o que parecia ser apenas uma busca inocente pelo seu super-herói, revela o outro lado desse mundo imaginário: um mundo completamente imaginário e sem limites. Pois, para convencer seu herói, Elijah passa a “atormentar” também a esposa e o filho com perguntas sobre o passado de David.

E ele parece cada vez mais enlouquecido pela busca desse homem perfeito – ressaltando que essa perfeição baseava-se naquilo que lhe era deficiente, ou seja, ele procurava um homem inquebrável. Mas, como era muito perspicaz e inteligente, ele convence David a “procurar seus poderes”. E ele realmente descobre que tem poderes e, incentivado pelo filho, começa a ajudar as pessoas. Elijah sente-se realizado, pois pôde finalmente encontrar seu tão procurado herói.

Contudo, a história não termina aí. Toda história de quadrinhos, assim como na vida real, tem um vilão. E agora que o super-herói havia sido descoberto era preciso encontrar o vilão. E esse também foi descoberto por Elijah, que numa conversa com David, revelou que havia dedicado grande parte da sua vida provocando acidentes para encontrar o seu herói indestrutível, matando milhares de pessoas.

Mas mesmo definido o conflito entre herói e vilão, fica a dúvida se o vilão realmente era mau. Afinal, ele era um homem bem visto pela sociedade, inteligente – na verdade, um intelectual – conhecedor das artes, das ciências e da tecnologia, um ótimo estrategista e, foi por meio dele que a sociedade ganhou um super-herói. E toda a sua formação teve como base as HQ's. Mas se elas ajudam ou prejudicam, fica a critério de cada um.