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Lá vem o pato...

Dayse Bezerra

Lá vem o pato. Quac... quac... Quem poderia imaginar que um patinho de voz rouca, de um temperamento teimoso, campeão de encrencas e acompanhado pela má sorte poderia tornar-se a ave mais conhecida no mundo das histórias infantis, em desenhos animados e em quadrinhos? Seu nome completo de origem inglesa é Donald Fauntleroy Duck, mas para os fãs brasileirinhos seu nome é conhecido apenas como Donald. Produzido pelo “mundo perfeito” da Walt Disney, a patologia de Donald foge dos padrões “Viveram felizes para sempre” e conta a história de quem vive no mundo bem parecido com o dos seres humanos.

Segundo o escritor Martins Fontes, em sua obra Quadrinhos e Arte Seqüencial , as histórias em gibis são uma forma de arte voltada para a emulação da experiência real. Isto é refletido nas historietas de Donald nos gibis que contam em desenhos a realidade de vida de muitos leitores de todos os cantos do mundo, como abordar problemas sociais, de relacionamentos e de personalidade.

O pato Donald possui muitas características exclusivas entre os demais personagens de desenhos animados. Ele não leva a vida só de Margarida, sua eterna namorada - que só surgiu nos desenhos a partir de 1940. A vida também sempre foi dura nos desenhos vividos por Donald em Patópolis, cidade em que vive. Para Donald é quase impossível manter-se por mais de um dia no mesmo emprego - inclusive como jornalista no jornal A Patada . Devido às tentativas frustradas, logo tem ataques de nervos. E o que estiver pela frente também leva “a patada”.

Seu grande sonho é um dia ser bilionário - como seu tio Patinhas -, mas infelizmente parece que a sorte nunca lhe acompanha. Para os supersticiosos, a relação de seu azar está ligada ao número treze. Segundo conta a história, D onald nasceu numa sexta-feira treze, número de sua casa é o treze e tem um carro com a placa 313. Ao contrário de seu primo Gastão, que sem esforço algum sempre parece estar com sorte. Gastão ganha as disputas com Donald e acende a rivalidade com o primo. Inclusive por Margarida, que apesar de todos os defeitos, ainda prefere ficar com Donald.

Para se conformar com a vida cheia de problemas, o hobby número um de Donald é descansar nas horas vagas. Ele logo encontra algo para fazer, como comer alguma coisa, ler ou assistir televisão, tirar férias durante o ano para relaxar, ou se aventurar com seus três sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho , nascidos em 1937.

Pata aqui...

E por falar em passear, suas patinhas já fazem histórias por todo o mundo. Em 12 de junho de 1950 ele pisou em terras brasileiras, com a primeira revista Pato Donald, apresentando duas histórias de seu criador, Carl Barks. Na época o lançamento do gibi virou febre nacional. Com o sucesso, Donald resolveu ficar de vez nas bancas, ganhando adaptações, novos acompanhantes, como Zé Carioca e Peninha, e um estilo mais brasileiro, graças aos desenhistas Irineu Soares Rodrigues e Verci de Mello. Logo Donald aprendeu a jogar futebol e conhecer outros costumes da terrinha.

Desde então Donald só ganhou leitores simpatizantes, mirins, jovens e até adultos que se identificavam com as histórias do pato. A idéia de nacionalizar Donald veio da senhora Abril, responsável por toda a linha de publicações da Disney no Brasil. Empolgada com os resultados, criou novas séries brasileiras de Donald e seu uniforme de marinheiro, que passou a ser o novo animalzinho de estimação dos lares brasileiros.

Nos anos 90 foi lançada As Aventuras do Superpato. Possuía uma abordagem mais adulta, futurista e viajada nos “super-heróis”, inspirado na formatação do mesmo personagem na Itália, em 1969 por Giovan Battista Carpi. Já n as telinhas brasileiras, além dos muitos desenhos animados, o Pato Donald estrelou dois longa-metragens no Brasil: Alô Amigos (1943) e Você já foi à Bahia? (1945), ambos com a companhia do personagem Zé Carioca .

Pata acolá...

Em 1931 Donald Fauntleroy Duck saiu do ovo, com alguns os esboços rabiscados pelo ilustrador Ferdinad Hustzi Horvath, para o novo desenho animado dos estúdios Disney .

Os primeiros quacs de Donald surgiram em 9 de Junho de 1934, no filme educativo A Galinha Sábia ( The Wise Little Hen , no original) que depois foi adaptado pelo desenhista Al Taliaferro, para tablóides dominicais coloridos. Em seguida, Donald fez companhia a outros personagens já experientes nos desenhos animados da Walt Disney, como Mickey, Pateta e Pluto.

Em 1938 o patinho começou a ganhar asas com a publicação do primeiro gibi Walt Disney´s Donald Duck. Em 1942, a revista Donald Encontra o Ouro dos Piratas historiava grande parte da família do aventureiro. Logo suas patinhas chegaram a outros países. Na Itália suas histórias foram publicadas na revista do Mickey, Topolino . O mesmo aconteceu na França, onde o personagem aparecia nas páginas do Journal de Mickey .

Nos desenhos, sua inconfundível voz rouca foi dublada por Clarence Nash por mais de 50 anos. Nash foi descoberto pelo próprio Walt Disney nas ruas de Los Angeles. Mas quem realmente conheceu bem de perto o personagem foi Carl Barks, que escreveu e desenhou mais de 500 histórias do personagem. Conhecido com “O Homem dos Patos”, Barks idealizou boa parte da árvore patológica do personagem e criou outros integrantes para família.

Mas em 6 de novembro de 1942, o desenhista deixou os estúdios Disney e foi trabalhar na editora Western Printing/Dell Comics por mais 25 anos escrevendo as histórias de Donald nos quadrinhos. Barks decidiu dar ao pato mais personalidade, emoção e discurso definido, como no gibi O Xerife do Vale Balaço e Perdido nos Andes.

O cartunista italiano Don Rosa foi outro aventureiro que teve grande participação na criação de novas aventuras e personagens na família de Donald. Mas Barks foi quem recebeu o maior destaque mundial nas obras do pato. Talvez o criador mantivesse uma constante ligação pessoal com a criaturinha cheia de penas:

" Sempre me senti um azarado como o Pato Donald, que é uma vítima de tantas circunstâncias. Mas não há ninguém que não se identifique com ele, pois ele é tudo e todos, comete os mesmos erros que todos cometemos. Algumas vezes ele é o vilão, em outras é um cara muito bom, mas o tempo todo ele é uma pessoa tão normal quanto o ser humano médio e acho que é por isso que a maioria das pessoas ama esse pato ".

Hoje o personagem e toda sua família cresceram ao longo dos anos. Donald está mais maduro, mas não perdeu sua performance de solteirão apaixonado, ciumento, explosivo, preguiçoso, curioso e independente, sem perder o lado engraçado e ingênuo. Basta Donald, acompanhado de seus sobrinhos, ser convidado por tio Patinhas - o pato mais rico e pão-duro do mundo – para participar de missões com promessas baratas ou de fins lucrativos para se dizer: Lá vem o Pato para ver o que é que há.

Tantas fez o moço...

Com mais de setenta anos de existência Donald ainda não perdeu o vigor nas bancas e horários infantis na telinha. O quac mais antigo do mundo se mantém vivo nas HQ's. Talvez a explicação esteja na total ligação com a fonte da juventude que a Walt Disney oferece aos seus personagens, com a participação da editora Abril no Brasil.

Misturando o mundo da fantasia com a vida real, o pato pateta Donald já pintou, surrou, pulou, levou, caiu... Ele demonstra estar despreocupado com o final de suas histórias. O contrário da poesia de Vinicius de Moraes, ele nunca vai pra panela.